loading…

FOCUSSOCIAL

Maria Joaquina Madeira
empenhada na construção de uma Europa para todas as idades

Temos de dar um salto civilizacional
Com sonho, realismo e sabedoria

por Marta Vaz

Alentejana dos “quatro costados” não sabe explicar bem porque tem, todos os anos, de regressar ao Minho e, por lá, recarregar energias que, “talvez, não sei ao certo, aquele verde intenso ajude a repor”. E intensidade, determinação, uma atenção acutilante à realidade que a circunda não faltam à coordenadora do Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e da Solidariedade entre Gerações.

Maria Joaquina Madeira, 65 anos, garante que, apesar da diferença geracional entre ela e o ministro da Solidariedade e Segurança Social, o diálogo e o trabalho estão em perfeita sintonia. Diz que são uma “boa prática, daquilo que este Ano Europeu também defende: diálogo e solidariedade entre gerações". De Maria Joaquina Madeira, Pedro Mota Soares, 37 anos, disse, durante o discurso de abertura do Ano Europeu, a 28 de Fevereiro, que “a sua ação, determinação e experiência são garantia de que Portugal saberá aproveitar este 2012”, acrescentando que a coordenadora “é uma pessoa incontornável na área social, com provas dadas e uma experiência transversal que será capitalizada no desenrolar deste Ano Europeu, nas suas diversas frentes”.
Doroteia, nos tempos de colégio, Maria Joaquina Madeira revê-se na rebeldia e no secretismo do “Clube dos Poetas Mortos”, um dos seus filmes de eleição. De resto, aprecia quem sobe para cima da mesa e se dispõe a ver as coisas noutra perspetiva.

Partilha algumas ideias de “Saberes e Pilares para a Educação do Século XXI”, de Edgar Morin, que tem na mesa-de-cabeceira, mas o seu pragmatismo e a atual conjuntura levam-na a citar Peter Druker, que, nos últimos 50 anos da sua carreira, deu grande atenção à transição histórica do trabalho industrial para o trabalho do conhecimento.
A FOCUSSOCIAL subiu a uma mesa e conversou com Maria Joaquina Madeira. Para ver o Ano Europeu numa outra perspetiva. A sua.

Como aconteceu o convite para coordenar este Ano Europeu?

Deveu-se à amabilidade do Senhor Ministro e ao facto de entender que seria a pessoa adequada para assumir a coordenação nacional desta iniciativa europeia, cujo tema foi decidido, sob proposta da Comissão Europeia, pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho da União Europeia, em Setembro do ano passado.

A Dra. Maria Joaquina Madeira e o primeiro-Ministro são um bom exemplo do diálogo e da Solidariedade entre gerações?

Sim. [sorrisos] Sem dúvida! Nesta matéria, somos movidos pelos mesmos objetivos e podemos ser já considerados uma “boa prática”. Coincidimos nos nossos propósitos para o Ano Europeu e isto reflete, de certa forma, o que queremos, neste âmbito, passar como mensagem fundamental: são as pessoas que interessam e não as idades. Este Ano Europeu incita a isso, a que todos façamos a nossa parte, independentemente da idade. Temos de deixar sementes para que esta ideia de uma Europa para todas as idades vingue e cresça. É esse o futuro, o caminho que devemos percorrer no sentido de construirmos uma europa onde a idade não seja fator de exclusão, mas sim de inclusão, de aproximação, de troca de experiências. Estamos a trabalhar para criar uma sociedade emocionalmente mais inteligente, mais humana, mais interligada.

Este Ano Europeu quase dava dois: envelhecimento ativo e solidariedade entre gerações. Não acha que é uma empreitada muito grande?

É uma grande responsabilidade, mas, repare que um e outro ponto estão intimamente relacionados. Ambos têm a ver com a proximidade entre gerações. Uma das vertentes do envelhecimento ativo é, exatamente, o estar de bem com a vida, em ter afetos estabilizados, em manter redes de relacionamento com todas as idades, na família, com os amigos, no trabalho. As gerações cruzam-se em todas as circunstâncias da vida e têm de se solidarizar de se relacionarem, de aprenderem umas com as outras. A sociedade industrial teve coisas boas, mas dividiu muito. Diria, até, que dividiu de mais. E isso nota-se, nomeadamente, nesta questão em que as pessoas estão separadas por idades, cor, religiões… Não pode ser. É contra isto e a favor de uma nova era que este Ano Europeu quer agir. Uma era onde as pessoas se aproximem, cada vez mais, e construam a nova Europa de que tanto precisamos. O momento é difícil, mas não desanimamos, estamos em contraciclo e vamos ultrapassar isto. Já reparou que muitos dos direitos reivindicados há cem anos só agora estão a ser concretizados? O direito à igualdade, ao trabalho… Desde a II Guerra Mundial que, apesar de tudo, demos um salto qualitativo e, agora, estamos a trabalhar para dar um salto civilizacional. E este salto só poderá ser dado se não perdermos o realismo nem o sonho. Realismo e sonho terão de andar lado a lado para que possamos ultrapassar este momento.

E, com realismo, o que podemos esperar deste Ano Europeu?

Como sabe, a Europa debate-se com o fenómeno de ter uma população envelhecida, a viver mais tempo e com mais saúde. Procuramos criar oportunidades de reflexão para resolver esta questão, tanto em Portugal como nos outros países da União Europeia. Se a esperança de vida aumenta e as pessoas estão saudáveis, temos de criar mecanismos que as façam permanecer mais tempo no mercado de trabalho para que possam continuar a ter um papel ativo na sociedade e vivam de forma o mais gratificante possível essa sua longevidade. Numa sociedade de progresso, tem de haver lugar para todos: novos e velhos. Já reparou? Deixou de se falar em sabedoria.


Mas é preocupante ter uma Europa tão envelhecida e com taxas de natalidade a cair a pique…

Não é por se ser velho que se é incapaz e inútil. Os mais velhos são muito válidos e, maioritariamente, ativos. E, muito importante, podem e devem passar a sua experiência. Esse saber acumulado ao longo da vida é uma mais-valia. Pode e deve ser capitalizado. Uma sociedade que compreenda, absorva e coloque isto em prática é uma sociedade inteligente. De outra forma, não. O que não quer dizer que os mais velhos não aprendam com os mais novos e para isso temos de os juntar, de os cruzar e não de os separar.Este Ano Europeu é também um alerta para inverter a pirâmide etária que se prevê, em 2050, a sua involução seja na ordem dos 35,72 por cento de pessoas com 65 e mais anos e 14,4 por cento de crianças e jovens, apontando a longevidade para os 81 anos. Ora, o atual desenvolvimento demográfico e os sinais de fratura geracional desafiam as comunidades a reimaginarem-se e a constituírem-se de forma solidária e socialmente coesa, pois os impactos sociais e económicos desta realidade obrigam à criação de um novo modelo, à emergência de um novo paradigma social. A tendência do quadro demográfico atual já se vem revelando desde 2001 e, no que respeita a Portugal, os últimos dados revelam que 19,15 por cento da população é idosa, por contraponto a uma população jovem de 14,89 por cento.

 Se a este dados somarmos que a esperança média de vida à nascença é de 79,2 anos, facilmente concluímos que temos mesmo de agir, de pensar políticas, em diversas frentes de atuação que possam dar resposta a este problema.

Em Portugal, que ações estão previstas?

Estamos a organizar muitas iniciativas. Mas gostava que passasse esta ideia, porque os anos europeus levam-nos a agir, mas também servem para mobilizar as pessoas à volta de ideias-chave necessárias para que a mudança se concretize. Para que a mudança aconteça, efetivamente, temos de refletir, temos de pensar, de fazer surgir ideias que se possam operacionalizar no terreno. Temos de entender porque é que é necessário mudar as coisas. Estão a ser feitos muitos estudos sobre o envelhecimento ativo. As universidades estão a produzir muita informação, absolutamente necessária a que se estruturem ações bem direcionadas, que atuem no cerne dos problemas. Teremos resultados que nos vão mostrar realidades e tendências, o que é fulcral para a ação. Por outro lado, as escolas, os setores empresarial e voluntário também estão a mobilizar-se. Como sabe, o conhecimento e a sensibilização social são o eixo transversal aos quatro eixos operacionais deste Ano Europeu: a “Vida Autónoma”, percebida como saúde, bem-estar e condições de vida; o emprego, trabalho e aprendizagem ao longo da vida e, ainda, a participação na sociedade que inclui a solidariedade e diálogo Intergeracional, o voluntariado e a participação cívica.

E, concretamente, quer falar-nos de alguma ação?

Começamos agora, mas já estamos a identificar boas práticas empresariais. Casos que possam ser replicados de empresas que absorvam ou mantenham a trabalhar pessoas mais velhas e lhes atribuam, por exemplo, um horário mais reduzido, não deixando de abrir as portas ao emprego jovem. Uma e outra geração ganham imensamente com esta prática e acredito que os empresários já começam a ver os benefícios desta intergeracionalidade. Também nas escolas, nomeadamente nas de 2º e 3º ciclos, há já ações que permitem uma abertura aos mais velhos e tomam a iniciativa de os chamar e de promoverem o encontro de gerações. A multiplicidade de ideias e práticas reforçam algo que já antevíamos: há muitas iniciativas planeadas e algumas já concretizadas que estão focadas nos temas do Ano Europeu. Estamos, agora, a conhecê-las, a mapeá-las para as tornarmos visíveis. Mas desde já quero agradecer a todos, de Norte a Sul, na Madeira e nos Açores, que estão e vão contribuir para a concretização dos objetivos do Ano Europeu, em Portugal.

Quem a acompanha, nesta sua missão?

Temos uma equipa operacional com representantes das áreas da Segurança Social, Emprego e Formação Profissional, Saúde, Educação, Reabilitação e Desporto e Juventude. E está constituída uma Comissão Nacional de Acompanhamento que congrega cerca de 40 entidades e personalidades de diversos setores incluindo entidades públicas, empresas, parceiros sociais e associações representativas da sociedade civil. Mas muitas mais entidades e comunidades, pessoas e famílias se reveem neste Ano Europeu e sabemos que o irão tornar num marco para a promoção de uma cultura de envelhecimento ativo no quadro de uma sociedade para todas as idades.

Maria Joaquina Madeira

Como o problema da solidão, das pessoas idosas, por exemplo?
Os números que tem vindo a público são tremendos. Só em Lisboa, contam-se 85 mil. No Porto, 33 mil, com mais de 65 anos, vivem sós.

Sim, é verdade. É um grande problema. Mas também há bons exemplos de coisas muito bem feitas. Não podemos ver apenas um lado. A comunicação social tem uma responsabilidade muito grande, porque compete-lhe ir à procura de instituições, grupos que já estão a dar respostas a problemas como este. Em Lisboa, por exemplo, estou agora a lembrar-me de um projeto que está a ser levado a cabo pela freguesia da Batalha. Um excelente exemplo de responsabilidade social coletiva. E deixe-me voltar um pouco a uma das perguntas anteriores: os anos europeus servem, ainda, para dar visibilidade a iniciativas como esta, exemplares. Servem para impulsionar desafios, levantar questões, dar pistas, sensibilizar, informar e, aí, os órgãos de comunicação social têm, reitero, uma grande responsabilidade.

Sim. Mas há uma espécie de mercado da solidão, um mercado em crescimento para o qual é preciso oferta. Oferta de soluções...

Vamos lá ver... É verdade isso que diz, mas não há uma solução mágica para a solidão. Até porque ela é gerada por diferentes motivos e tudo isso tem de ser analisado e equacionado. É esta mudança de que temos vindo a falar que irá produzir soluções. A tal sociedade que dividiu tudo, as pessoas, o campo da cidade, os ricos dos pobres, os gordos dos magros, também fez coisas boas, como, por exemplo, gerar serviços que foram sendo criados com o intuito de apoiarem os agregados familiares. Mesmo assim, o Estado de Providência não impede que a solidão prolifere. E a família, eixo basilar nesta análise, foi perdendo, ao longo do tempo, a sua função protetora, tal como as comunidades de vizinhança. Temos de apostar na família e na criação de comunidades de vizinhança e no cultivar o sentir pelo outro, ou seja, o de nos importarmos com o outro, desenvolvendo laços de solidariedade. Só uma ação concertada entre famílias, Instituições Particulares de Solidariedade Social, Juntas de Freguesia, autarquias, Governo podem buscar soluções.

Qual a sua perspetiva do que é o envelhecimento ativo?

Em primeiro lugar, tem de ser um projeto de vida de cada individuo, um saber envelhecer bem, de acordo com a visão pessoal do que cada um de nós mais valoriza. E, num segundo plano, significa ir ao encontro do que a Organização Mundial da Saúde define: um processo de otimização de oportunidades de saúde, participação e segurança, com o fim de melhorar a qualidade de vida das pessoas à medida que envelhecem. Sabemos que este é um projeto de vida exigente, mas também acreditamos que não é nenhuma “missão impossível”. Não é complicado, mas sim complexo porque toca todas as pessoas, em todas as suas áreas de vida. O envelhecimento ativo implica, igualmente, uma atitude pessoal de otimismo perante a vida. Mas não se confunda este apelo ao sujeito contemporâneo com segregação e hedonismo. Só somos autónomos se soubermos gerir as dependências que temos uns dos outros, só seremos independentes se estivermos ligados por pertenças e dádivas, só nos faremos pessoas se estivermos interligados com outros seres humanos. E é neste devir que nos encaramos como pessoa em desenvolvimento, seja qual for a idade. E só assim partilhamos este palco da vida onde tudo se constrói com o Outro.
 
Como resume o desafio para este Ano Europeu?

O desafio é o de criar e reforçar oportunidades às cidadãs e aos cidadãos de todas as idades, para que possam trabalhar e aprender até quando quiserem, manterem-se saudáveis e sentirem-se seguros, terem rendimentos suficientes, divertirem-se e, se necessário, receberem cuidados adequados. Fazer parte da comunidade e, fazendo a nossa parte para uma comunidade melhor, expressa o sentimento de auto-realização e de participação cívica que são também elementos-chave no paradigma do envelhecimento ativo. Viver mais – com saúde, autonomia e participação afinal, com dignidade – resultará, não só de uma escolha de cada um de nós, mas também exigirá a garantia de condições da parte da sociedade que proporcionem o desenvolvimento e envelhecimento participativo de todos. E, para isso, temos de criar comunidades cooperantes. Nesta perspetiva, facilmente se conclui que há necessidade de complementaridade e convergência nas iniciativas públicas e privadas, para darem resposta aos desafios que decorrem, não só do envelhecimento demográfico e do perfil das necessidades, capacidades e expetativas das pessoas, mas também da obrigatoriedade de alcançarmos a sustentabilidade dos sistemas, formais e informais, de proteção e bem-estar social.

Maria Joaquina Madeira

O que quis dizer, concretamente, quando, no seu discurso de abertura do Ano Europeu, disse que “ainda existe um «lado lunar» na vida de alguns dos nossos concidadãos mais velhos"?

Quis dizer que não devemos nem podemos esquecer as pessoas idosas em pobreza e/ou exclusão social, que são vítimas de violência, que sofrem de solidão, que, afinal, se encontram condicionadas na sua vida. Tal exige a criação e a gestão de medidas, por um lado, promotoras das capacidades e autonomia dos mais velhos e das suas famílias, e, por outro, responsivas às situações mais graves de vulnerabilidade social e sofrimento pessoal. As famílias – quando existam ou quando possam –, as redes integradas e de vizinhança, e serviços sociais de proximidade, bem como as novas tecnologias devem, de forma complementar, constituir-se em modalidades ajustadas de apoio e suporte – com rosto humano – às pessoas no seu domicílio.

E qual é a palavra de ordem para concretizar essa Europa para todas as idades?

A palavra de ordem é “participar”, com direito e dever de cidadania, e o apelo é dirigido a todos, sem exceção: pessoas e comunidades. Para isso, temos de reconhecer o potencial que advém da diversidade das idades, biografias e talentos na sociedade como um todo. Percebendo que ninguém deve ficar de fora, ninguém pode ficar para trás ou ser esquecido ou descartado, pois não há pessoas inúteis ou obsoletas, e muito menos por motivo de Idade.
Infelizmente, persiste ainda, numa parte da nossa sociedade, a ausência de uma conceção da pessoa idosa como sujeito de direitos, o que resulta numa imagem social negativa ligada à doença, à fragilidade e à incapacidade a qual, na grande maioria dos adultos mais velhos de hoje não corresponde, de todo, à realidade. Por outro lado, o imaginário social ainda cria uma separação entre jovens e idosos. Mas, quando polarizamos, perdemos a possibilidade de diálogo construtivo. Assim, a luta contra a discriminação com base na idade é, por isso, também uma prioridade neste Ano porque há que combater estereótipos, preconceitos e mitos, que desumanizam.

Enviar por email