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FOCUSSOCIAL

Mara Mourão

“Se a pessoa faz um trabalho em grande escala e afeta milhões de vidas, ela é chamada de empreendedor social.

por Marta Vaz

Mais do que um filme, um movimento que inspira a transformação social. É assim que se apresenta no site dedicado ao documentário “Quem se importa”, da realizadora brasileira Mara Mourão. O filme está, desde abril, em digressão pelo Brasil e, em setembro, estreia em Lisboa, no âmbito do festival Greenfest, avançaram à FOCUSSOCIAL Mara Mourão e Francisco Collares Pereira, da Fundação EDP, responsável pela passagem do filme no nosso país.

“Ele é mesmo um homem muito especial. Nota-se, de imediato, pelo seu olhar”. Mara Mourão fala de Muhammad Yunus (Gremeen Bank, Bangladesh), “pai” do microcrédito, um dos 18 empreendedores sociais que deram o seu testemunho neste documentário que demorou um ano a editar. A seleção foi muito difícil, deixou de fora “milhares de pessoas, trabalhos brilhantes e inovadores” e, por isso, “estou pensando fazer uma série de televisão”, disse-nos a realizadora.

Nesta entrevista, fala, ainda, das características que, do seu ponto de vista, deve ter um empreendedor social e da sua capacidade distintiva de “saber o que a sociedade precisa num determinado momento”. E explica a diferença: “Se a pessoa faz um trabalho em grande escala e afeta milhões de vidas, ela é chamada de empreendedor social. Se faz em escala menor, é chamada de transformador ou agente de mudança. Tem vários nomes, mas acredito que todos são nomes diferentes para um espírito comum, o espírito de arregaçar as mangas e não se conformar”.

Mara Mourão não pára. Já está em “fase de captação de recursos” para o seu novo filme de ficção Duas Mulheres e Alguns Crimes e tem, no mesmo ritmo, um novo documentário. A cineasta continua apostada em mudar o mundo com filmes que agitem consciências e motivem a ação. De resto – garante – só não a veremos a fazer filmes de “tiros”. O seu território visual anda entre o fazer rir e o dar que pensar. Sempre com uma história que tenha impacto social, independentemente do sucesso da bilheteira. Porque o importante é a “qualidade” de quem vê e o que fará com a mensagem que recebeu. Se o resultado produzir mudanças positivas, a missão está cumprida.

Como surgiu a vontade de realizar “Quem se importa”?

Eu realizei quatro longas-metragens, duas deles, comédias. E a resposta a estes filmes era muito bacana, mas ficava naquela história de “eu ri muito e me diverti muito”. Mas, quando produzi o meu primeiro documentário, sobre os palhaços que visitam hospitais - Doutores da Alegria -, as pessoas me diziam que o filme havia mudado a vida delas. Centenas de pessoas me relatavam as suas experiências. Nomeadamente, houve professores que mudaram o jeito de ensinar e jovens que mudaram o rumo de suas carreiras. Fiquei muito tocada com o impacto do filme. Senti na pele o poder de transformação que causou. Foi assim que resolvi fazer “Quem se importa”, na mesma linha que o Doutores da Alegria, só que mais abrangente.

Como foi a pesquisa e seleção dos 18 empreendedores sociais, abordados no documentário?

Escolhi esses 18 nomes depois de uma pesquisa extensa em livros, internet e na rede da Ashoka, um grande celeiro de empreendedores sociais. Fui buscando pessoas de continentes diferentes e de áreas de atuação distintas, que soubessem comunicar bem e cujo trabalho tivesse imagens às quais eu teria acesso. E foi com muita dor no coração que deixei de fora do filme milhares de pessoas que fazem trabalhos brilhantes e inovadores ao redor do mundo. Algumas conheço, outras não. É por isso que estou pensando em fazer uma série de televisão. Busquei informações e cheguei a 50 nomes e, depois, fui afunilando até chegar nesses 18. Eu tentei buscar a diversidade para, justamente, mostrar a riqueza do empreendedorismo social. Com o filme, você passa a entender que eles podem estar na área da educação, da saúde, do meio ambiente, dos direitos humanos, da economia, em qualquer área. O filme passa a mensagem de que todo mundo pode mudar o mundo não importa em que setor. Seja ele privado, governamental ou social. Qualquer pessoa pode fazer a diferença.

Durante as filmagens houve algum episódio que a tenha marcado, especialmente?

As entrevistas foram muito emocionantes. Numa delas, com a Karen Tse, ela iniciou a entrevista com uma frase e, naquele momento, eu soube que essa seria a frase final do filme. Foi de arrepiar.

E qual foi a frase?

Se eu disser retira o fator surpresa. Mas é muito bonito, acredite.

Acredita que “quem se importa” pode mesmo mudar o mundo?

Sim, basta ter consciência de seu próprio poder de transformação. Ser um transformador não é uma bênção divina, não cai do céu, precisamos ter uma atitude pró ativa, parar de apenas reclamar e arregaçar as mangas. Cada vez mais os jovens estão preocupados com o coletivo. No Brasil, uma pesquisa recente, mostra que 80 por cento dos jovens estão preocupados com o coletivo e 8% já estão trabalhando pelo social. Esta nova mentalidade, diferente da dos anos 80, voltada para o consumismo, deve ter sido gerada pela necessidade. Afinal, pela primeira vez na história da humanidade, temos um inimigo em comum. A questão ambiental, do esgotamento dos recursos e da nossa sobrevivência como espécie nos une, e essa união é algo novo na história da humanidade.

Fazer documentários, como este, é o seu contributo?

Sim, acredito fortemente no impacto social que um filme pode causar. E este impacto não passa pela bilheteria. É uma outra métrica que se usa, uma métrica invisível, mesmo. É como diz a frase de Albert Einstein: “Nem tudo o que conta pode ser contado, e nem tudo que pode ser contado conta”. Você começa um filme e começa a influenciar e a inspirar a própria equipe que fez o filme e, esse contágio, vai como uma onda. O filme Uma Verdade Inconveniente, com o Al Gore, por exemplo, levantou a questão climática e me lembro que, na altura, via muitas pessoas discutindo a questão mesmo antes de terem visto o filme.

O documentário Super Size Me, do Morgan Spurlock, também teve uma bilheteria pequena e acabou influenciando a mudança do cardápio do McDonald's. O impacto social do cinema é muito forte. Como referi, a métrica é outra. É como se não importasse tanto o número de pessoas que viram o filme, mas sim a qualidade das pessoas que tiveram suas vidas tocadas pela mensagem do filme. Gosto muito disso e vou usar o cinema como uma arte que impacta as pessoas para uma mudança positiva. Quem se Importa já está se tornando um movimento no Brasil, com mais de 9 mil pessoas no Facebook.

Do seu ponto de vista, o que ser um empreendedor social?

O empreendedor social é aquele que tem as mesmas características de um empreendedor de negócios, só que aplicadas para o setor social. Enquanto o empreendedor de negócios visa o lucro – geralmente este lucro é para um grupo pequeno de acionistas –, o empreendedor social visa o bem-estar social. E se ele visa o lucro, sim, é para revertê-lo para esse objetivo maior do projeto. O empreendedor social tem as mesmas características de liderança, visão e persistência. É um sonhador, mas é prático, e consegue viabilizar e implementar o que deseja. No entanto, como diz Bill Drayton no filme, somente ter essas características não faz de ninguém um empreendedor social. O que o empreendedor social faz é ter a capacidade de saber o que a sociedade precisa num determinado momento. Há empreendedores de vários níveis. Se a pessoa faz um trabalho em grande escala e afeta milhões de vidas, ela é chamada de empreendedor social. Se faz em escala menor, é chamada de transformador ou agente de mudança. Tem vários nomes, mas acredito que todos são nomes diferentes para um espírito comum, o espírito de arregaçar as mangas e não se conformar com uma realidade que não deve existir.

Numa perspetiva social, como podemos contribuir para tornar o planeta mais sustentável?

Ouvindo a entrevista do John Mighton podemos perceber que temos que repensar o modo consumista e materialista no qual vivemos. Quando uma pessoa não entra em contato com a beleza do mundo, seja a natureza, as artes, a ciência, ela sublima esta insatisfação com o consumo exagerado. Precisamos nos ligar mais no reino das ideias, das emoções e da espiritualidade. Isso, sim, nos trará felicidade. E será mais sustentável.

Este seu documentário chegará à Europa, nomeadamente a Portugal?

Estamos tentando uma sala de cinema para a exibição em Portugal. E estamos enviando o filme para a análise de distribuidores internacionais, com o intuito de montarmos a nossa estratégia de distribuição fora do Brasil. Para já, sabemos que a Fundação EDP está a viabilizar a passagem do filme no âmbito do festival GreenFest, que terá lugar em Lisboa, já em setembro.

Gosta mais de fazer rir ou de dar que pensar?

A diferença é entre ficção e documentário. A ficção é mais simples. De um certo modo, você segue um roteiro e, na hora da edição, é muito mais simples, pois edita seguindo aquela ordem. Num documentário, você tem um roteiro e depois você o refaz na edição. Fiquei um ano editando o Quem se Importa porque, com o todo o material que tinha em mãos, havia milhões de possibilidades. Mas tudo é cinema, tudo é audiovisual. Gosto de fazer os dois e vou continuar a fazer os dois. O que você não me vai ver fazendo é um filme que só tenha tiros e nenhuma mensagem. Minha ideia é fazer ficção que tenha alguma mensagem e documentário que tenha impacto social.

No “Quem se importa” podem, ainda, ouvir-se os depoimentos de Oscar Rivas (Sobrevivência, Paraguai); Rodrigo Baggio (CDI, Brasil); Joaquín Leguía (Ania, Peru); Bart Weedjens (Apopo,Tanzânia) Al Etmanski (Plan, Canadá); Karen Tse (International Bridges for Justice, Suiça); Vera Cordeiro (Saúde Criança,Brasil); Dener Giovanini (Renctas,Brasil);Mary Gordon (Roots of Empathy, Canada); Eugênio Scanavino (Saúde e Alegria,Brasil); Jehane Noujaim (Pangea Day,Estados Unidos); PremalShah (Kiva,Estados Unidos); Isaac Durojayie (DMT Mobile Toillets,Nigéria); Wellington Nogueira (Doutores da Alegria,Brasil); Joaquim Melo (Banco Palmas,Brasil) Bill Drayton (Ashoka, Estados Unidos) e John Mighton (Jump,Canadá).

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