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FOCUSSOCIAL

Professor Daniel Serrão

“A vida é frágil. E nós somos vulneráveis”

por Marta Vaz
Fotografias: Egidio Santos

Foi num sábado, após a sua caminhada matinal, que a FOCUSSOCIAL conversou longamente com o investigador e professor Daniel Serrão, nascido em 1928, em Vila Real. Revelou-nos o segredo de tanta vitalidade e dinamismo. Começar cedo é fundamental. “É na juventude, na forma como preparamos e educamos os nossos jovens, que devemos falar em envelhecimento ativo, para que, aos 80 anos, se não se verificar nenhum percalço, possam ter uma vida formidável. Olhe para mim, tenho algum defeito? [risos] Estou ótimo, ando seis quilómetros por dia, 180 por mês. Daqui a pouco já dei a volta ao mundo a pé, duas vezes”, revelou o professor.

Senhor de um curriculum académico distinto, Daniel Serrão completou em 1944, o Curso Geral dos Liceus, em Aveiro, com 18 valores.  Antes, frequentou os liceus de Viana do Castelo e Coimbra. Em 1945, termina, em Aveiro, o Curso Complementar de Ciências. Em 1951, completa o Curso de Medicina, no Porto, com 17 valores, acabando por se doutorar, em 1959, com 18. Jubilado como professor Catedrático de Anatomia Patológica, em 1998, cruzou-se com muitas gerações de alunos. Foi membro do Comité Internacional de Bioética da UNESCO e do Comité Diretor de Bioética do Conselho da Europa. Perito do programa BIOMED da União Europeia, é membro da Academia das Ciências de Lisboa e do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida.

O que é o envelhecimento ativo, Professor?

Viver é estar em relação com o mundo à nossa volta. Não temos outra solução. Não podemos suspender a vida nem evitar morrer. As pessoas envelhecem de forma completamente diferente umas das outras. Não podemos dizer que todas as pessoas com mais de 65 anos são iguais e envelhecem da mesma forma. Este grupo etário é também um grupo social. O dos seniores. Tal como há o grupo dos adolescentes, por exemplo. Como a população europeia está envelhecida, há que dar mais atenção a este grupo que, obviamente, como está a crescer, está a alterar o funcionamento da estrutura e tecido sociais. A sociedade preocupa-se com as crianças, com os jovens, com os adultos e agora tem de se preocupar com os seniores. Em cada um destes estratos etários e sociais, há pessoas com boa saúde, doentes e que morrem. Morremos em todas as idades. A vida é frágil. E nós somos vulneráveis. Temos mesmo de ter alguns cuidados para envelhecermos ativamente. Hoje, em Portugal, somos dois milhões, ou seja, temos peso social indiscutível. E essa ideia do envelhecimento ativo, vem daí. Porque para os saudáveis, independentes e alegres não há essa noção de envelhecimento activo. Aos que lhe doem as pernas e não podem andar, aos que passam o dia a comer e a ver televisão, com esse é que é preciso insistir. Não se pode envelhecer assim. Para além da atitude há o outro problema, mais pobres, remediados e os ricos...

Em Portugal, 22 por cento das pessoas com mais de 65 anos está em risco de pobreza. Como é que se envelhece activamente nestas condições?

Essa é uma grande preocupação social. A condição financeira de cada indivíduo e da própria família interfere com o acesso a algumas condições Mas temos de ponderar, também, a atitude individual. A atividade mental e física passa pela vontade de cada pessoa. Claro que, muitas vezes, é difícil. Não ter saúde física ou emocional é uma barreira. Mas há quem tenha, ainda, boas reformas, se mantenha ativo e continue a ganhar dinheiro. Repare: criou-se um negócio formidável, dirigido para estas pessoas: clínicas de emagrecimento, estética, ginástica, terapias corporais e espirituais diversas. O yoga, por exemplo, que além da atividade física, estimula a atividade mental. E, depois, claro, as pessoas, sentem-se bem e vivem bem, tem um envelhecimento ativo e alegre e todas as perdas da idade são compensadas pelo seu modo e qualidade de vida.

Mas essa oferta do mercado é para quem tem poder de compra...

No que respeita ao poder de compra, sempre foi assim. Mesmo quando não havia tanto por onde escolher. Já no Antigo Regime, as reformas eram baixas e havia a Fundação Nacional para Alegria no Trabalho, dirigida aos reformados. Metiam as pessoas nos autocarros e lá iam para Fátima ou para o Mosteiro dos Jerónimos. Mas aquilo era envelhecimento inativo [risos]. Claro que as pessoas que têm poucos recursos têm, muitas dificuldades para ter um envelhecimento dinâmico. A sociedade tem de criar estruturas sociais para apoiar os seniores mais dependentes, ajudar a que tenham algum projeto de vida mais ativo, mesmo que não tenham recursos financeiros. Mas, mais uma vez, sublinho a atitude individual. Dou-lhe um exemplo: eu gosto muito de visitar feiras de artesanato e, há dias, meti conversa com um senhor, com mais de 65 anos, que estava a fazer umas esculturas com conchas. Era maquinista reformado, mas descobriu aquela apetência que, além de constituir um complemento à reforma, lhe dá muita satisfação. Ou seja, criou um novo projeto de vida e isso é muito importante.

Mas isso também não está ao alcance de todos. Há uma apetência, criatividade…

Exatamente. Mas, por exemplo, criar espaços onde as pessoas possam estimular a sua criatividade é fundamental. O pós-reforma pode ser um tempo de as pessoas irem à procura de concretizar algo que sempre quiseram fazer, ou sentiram vontade de fazer, como pintar, costurar, fazer doces, e não tiveram oportunidade. Ou seja, tem de se criar espaço para a criatividade senior, que tem de ser facilitada e estimulada, principalmente nas pesssoas que não têm meios de fortuna e vivem de reformas pequenas. Esta também é uma maneira de as tirar do caminho da tristeza, da depressão. Todos sabemos que esse caminho leva, inclusivamente, a doenças verdadeiramente orgânicas. A neoplasia, por exemplo. A própria atitude mental da pessoa condiciona a evolução da neoplasia e do próprio tratamento. Em relação ao cancro da mama, na mulher, está bem documentado e demonstrado cientificamente que a atitude vencedora e positiva faz com que a doença se desenvolva mais lentamente. Há um mês, estive na Gulbenkian, num encontro de sobreviventes do cancro. Dizem que são mais de 150 mil sobreviventes, mas não há números rigorosos. Venceram o cancro e, felizmente, não há cancro do espírito ou cancro do imaginário da pessoa. É uma doença orgânica como qualquer outra. Se está mestatizado, o indivíduo morre, se não, o indivíduo vive. Eu tirei o meu cancro há nove anos e estou de perfeita saúde. Aliás, eu costumo dizer, para irritar os médicos, que eu sempre estive de perfeita saúde. A minha próstata é que estava muito doente.

A sociedade não esta preparada para encarar essa situação com a sua naturalidade. As pessoas que já tiveram cancro e o superaram não estão sujeitas às mesmas regras. Se quiserem fazer um seguro, por exemplo…

De facto, não. Infelizmente, é assim. Mas, em relação aos mais idosos, por exemplo, a discriminação admissível é somente a positiva. A vulnerabilidade é hoje um princípio ético, aceite, indicado e publicado na declaração universal de bioética da UNESCO. Aí é dito que a sociedade e a família devem ter em conta e dar especial atenção aos indivíduos que se encontrem em vulnarabilidade. A discriminação positiva é uma forma de justiça, ao contrário do que era antes, em que todas as pessoas são iguais. Como sabemos, as pessoas são diferentes, mas, pelo princípio ético, tinham que ser tratadas como iguais. A discriminação, assim vista, era negativa. Um idoso obrigado a reformar-se aos 70 anos é uma discriminação etária. Isto é, idadismo. O idadismo do idoso, às vezes, é saudável, pois existem coisas que tem de ser diferentes, tendo em atenção o fator idade. Agora, quando verificamos discriminação negativa não é bom. Tudo deve ser feito em função do seu bem-estar, considerando-o como um ser autónomo. Isso de os meter numa camioneta e levá-los a Fátima sem lhes perguntar se querem ir é idadismo negativo. Pelo contrário, o idadismo positivo é abrir espaço para que possam escolher ir ou não.

Se o indivíduo é idoso e pobre precisa de uma discriminação ainda mais forte e positiva. Temos de tomar conta deles, hoje a sociedade precisa tomar conta deles. Antigamente, envelhecia-se nas famílias. É, como digo, tudo diferente. Por isso, temos de dar outro tipo de respostas ao envelhecimento da população.

As alterações verificadas, nomeadamente na estrutura familiar, são muitíssimo diferentes e aconteceu tudo num curto espaço de tempo...

Sim, em 40 anos, a nossa realidade modificou-se drasticamente. Repare: até a habitação é reflexo dessa mudança. Há casas onde só cabem o homem, a mulher e o filho. Se é preciso um quarto, ainda que temporário, para colocar o avô ou a avó, isso é impossível. Criámos um tipo de vida onde às vezes não há espaço para o essencial. Voltamos à mesma questão: quem tem dinheiro pode comprar serviços e, nesta área dos cuidados para seniores, há instalações excelentes. E não me refiro apenas a cuidados paliativos ou continuados. Refiro-me a espaços onde pessoas com saúde entram e saem quando querem. Depois, temos o outro extremo, uma realidade dura, infraestruturas sem condições nenhumas que a Segurança Social devia investigar mais. E, às vezes, só investigam se houver queixas. E às pessoas sem família, que ficam sozinhas, o que lhes acontece? São notícias tristes e absurdas de abandono, de pessoas que não fazem falta a ninguém. Outro dia, um dos responsáveis por uma instituição de acolhimento de idosos disse-me que, quando vão lá deixar o pai ou o avô, está tudo muito bem, fazem ali uma conversação como se fossem os melhores amigos dos avós ou dos pais e, depois, só telefonam para saber se já morreram. Nunca mais lá poem os pés, para os visitar. Isto é socialmente inaceitával. Reconheço que as familias, hoje, não tem as condições necessárias para ter um um idoso com limitações em casa e precisam recorrer a estas instituições. Mas é necessário que não os abandonem. Quando se deu amor e, nesta altura da vida, isso não é retribuído, é muito ingrato e difícil de aceitar.

Os laços afetivos são fundamentais. Aliás, às vezes, são mais desenvolvidos com os cuidadores, as pessoas que trabalham nessas instituições...

Sim, é mesmo isso. Alguns idosos tendem a criar laços afectivos com os profissionais, que, quando são bons, conseguem dar ao idoso a compensação emocional afetiva que eles precisam muito nesta fase. Às vezes, preferem que a familia nem apareça lá, pois há famílias emocionalmente desiquilibradas que, em vez de ajudar ao bem-estar, perturbam. Mas há também os centros de dia, que permitem ao idoso voltar para casa à noite, uma boa solução, pois permite manter os vinculos com a familia, quando o problema é a incompatibilidade de horários e não há ninguém em casa para tomar conta deles.

Uma espécie de infantários ao contrário?

Sim. Até porque muitos idosos ficam mesmo como crianças. O nosso cérebro, com a idade, começa a dar muita mais importância à componente emocional da vida do que à componente relacional. Está muito mais preparado para decidir emocionalmente do que para resolver problemas intelectuais. As decisões emocionais são mais rápidas e mais agradáveis. Eu gosto disto, não gosto daquilo, isto é agradável ou desgradável. Isto é uma decisão emocional. Se se começa a racionalizar, pode complicar-se tudo. A partir de dada altura, as decisões intelectuais ficam silenciadas e passam a ser tomadas pelo mundo das emoções. Daí, a necessidade de um conforto emocional e não de discursos. Os discursos não lhes interessam, desligam.

Portugal sofre do mesmo problema demográfico europeu. População cada vez mais envelhecida e cada vez menos crianças. Tem sugestões para politicas de envelhecimento no nosso contexto? O que poderiamos fazer para melhorar?

Relativamente aos idosos que estão doentes e na fase terminal, já há programas de cuidados continuados e paliativos muito bons. Foi uma boa solução que os governos foram implementando. Ainda faltam uns milhares de camas, mas não estamos na estaca zero e creio que o facto de envolverem IPSS e Misericórdias nestas políticas foi uma boa solução. Quando é necessário acionar políticas, os governos devem chamar a si quem melhor conhece o terreno. As políticas não se decidem só nos ministérios. Tem de haver uma equipa multidisciplinar capaz de levar a realidade para cima da mesa. Falo dos cuidados paleativos, porque são cuidados muito especiais, em que os profissionais da saúde - médicos, enfermeiros, assitentes sociais, especialistas em intervenção comunitária - têm de estar envolvidos. Quem sofre um AVC, por exemplo, precisa de oito a quinze dias de internamento. Depois de as lesões estarem organizadas, passa aos cuidados continuados, para continuar a recuperar. Quando se trata de cuidados paliativos e se passa de um cuidado continuado, a um paliativo, a transição tem de ser feita por especialistas. E isto não é assim tão caro, nem implica grandes despesas farmacológicas e médicas. Nesta fase, o essencial é o conforto, a atenção dada ao indivíduo que vai morrer. E isso tem de ser feito com profissionalismo e serenidade.

Preparar a morte com profissionalismo e serenidade é obra. Para quem a acompanha, mas, principalmente, para quem está a morrer. Como é que isto se faz?

Vou-lhe dizer: comecei por reconhecer a necessidade de uma aprendizagem nos profissionais de saúde. Percebi que um médico ou um enfermeiro que não resolveu o problema da sua própria morte, ou seja, que não está preparado para reconhecer que é mortal, que vive no sonho da imortalidade simbólica, que não está preparado para morrer, também não está preparado para lidar com doentes terminais, pois irá descarregar neles a sua própria ansiedade. Um dia, disse a mim mesmo: sou médico, amanhã vou ter pessoas que vão morrer e tenho de preceber que terei de fazer o luto antecepido da minha própria morte. É claro que isto resulta de uma refelxão profunda e interior. Não é fácil. Como sabe, quando morre alguém da nossa família, um grande amigo, tem-se uma grande sensação de perda, designada, especialmente depois de Freud, por luto psicológico. Este luto tem de ser arrumado dentro da nossa mente e eu chamo a isto a nossa auto consciência ou o espírito. Demora tempo a arrumar, mas tem de ser arrumado. É como adquirir uma convicção interior, uma paz interior. A partir desse momento, pacificamo-nos. É como se não morressemos nunca. Já fiz o luto da minha morte e estou bem. Estou vivo porque já morri. Vivi feliz porque já morri. Aquilo que era a minha morte já está arrumado.

Não me parece uma arrumação fácil. Nem a título individual nem profissional...

Pois não. Mas deve ser feita. E pelos profissionais que trabalham nos cuidados paliativos, sem dúvida. Por isso, o que eu recomendo às pessoas, é que façam esse trabalho de instrospeção de auto consciência. Algumas pessoas nem sequer pensam nisso. Depende muito de cada um. É interessante ver que as crianças com 5, 7, 8 anos tem uma conceção muito diferente da morte delas. Quando têm uma doença grave e morrem, a leitura que fazem da sua própria morte é muito diferente da de um adulto. Aparentemente, deviam ter pena de não viver o futuro, mas não. Isso é com os adultos. A criança integra a sua morte no tempo de vida que viveu e não tem noção que podia viver 60 ou 70 anos. Negoceia a morte de forma diferente. Não sente, por exemplo, o medo de um adulto. Mas também não vale a pena ter medo da morte. A morte não existe, existimos nós que vamos morrer. A morte não é nenhum animal que vem contra nós e com o qual temos de lutar. A morte não vem de fora. O processo é biológico, genético, condicionado. Se não tivermos nenhuma doença, chegamos aos 120 anos e morremos porque o nosso programa genético acabou. O nosso genona esta preparado para nos matar como a qualquer outro animal. Aos 120 anos, as células deixam de se dividir, o organismo deixa de fixar a água e a pessoa morre. É assim.

É mais fácil encarar a vida com fé?

Partilho o pensamento de Bento XVI. Creio numa vida num mundo que há-de vir, que não é um mundo material. Não ocupa espaço, nem consumirá tempo. Está fora da matéria, do tempo e do espaço, numa pura comunicação entre aquilo que, neste momento, já conseguimos intuir, a nossa autoconsciência. Eu estou a ver-me a mim próprio como um próprio. Eu não preciso do corpo e a meditação transcendental procura fazer esse esforço, fazer com que o corpo não comunique com o corpo, com nenhum corpo, nem com o mundo. Os órgãos e os sentidos estão todos parados, deixa tudo de funcionar, ficando o núcleo essencial que é a autoconsciência, a amostra da vida do mundo que há-de vir. Uma vida rigorosamente espiritual e impensável, de momento não a conseguimos pensar, não temos cérebro para a pensar. Pode ser que com com a evolução... Nós já temos muitos mais milhões de neurónios do que há 150. Talvez, um dia, o nosso cérebro seja capaz de comprender. É uma questão de esperança. Eu espero. Espero que a minha esperança seja recompensada. Mas é esperança. Não tenho fé, não creio, eu espero, para acreditar. Tinha de ter outras informações. Mas creio em Jesus Cristo, cidadão, hebreu, que deixou a sua marca na história.

Relativamente à sua presença no Comité do Conselho da Europa, o Comité Diretor de Bioética. Quer falar da sua participação?

O grande trabalho foi a criação de um documento com validade jurídica, com um nome muito grande: Convenção para a protecção dos Direitos do Homem e da dignidade do ser humano relativa às aplicações da Biologia e da Medicina - Convenção dos Direitos do Homem e a Biomedicina. Este instrumento internacional é correntemente designado por Convenção Europeia de Bioética. Ficou com um título muito descritivo, assim toda a gente sabe o que é bioética. Que é uma das vias de defesa dos direitos humanos. Representei o país durante mais de 12 anos e durante sete/oito foi para fazermos essa convenção. Foi muito dificil, fizemos muito trabalho, muitas intervenções para consensualizar o texto e haver uma aprovação de dois terços. Hoje, há 47 paises democráticos europeus que têm uma convenção própria dos direitos humanos do Conselho da Europa. É o único documento jurídico sobre direitos humanos. Como sabe, a declaração universal dos direitos humanos não tem valor jurídico.

E qual é a formula para envelhcer de uma forma ativa, física e intelectualmente?

A posssibilidade de ter uma velhice ativa e um envelhecimento saudável não se ganha quando um indivduo é velho. Ganha-se antes, aos 20 anos. Para se ser um craque de futebol, tem de se começar a treinar cedo, certo? Aqui é igual. Para sermos craques aos 80 anos, temos de treinar muito durante toda vida, começando ali nos sub-20. De uma forma geral, temos de tomar todas as medidas que protegem a saúde. E, agora, vou ser desagradável, não se pode comer, beber, fumar em excesso. Não se pode levar uma vida sedentária, a ver televisão e a comer batatas fritas. Um indivíduo que nunca foi ativo aos 20 ou 30, 40 ou 50 anos, não vai começar aos 80 a praticar desporto. É na juventude, na forma como preparamos e educamos os nossos jovens, que devemos falar em envelhecimento ativo, para que aos 80 anos, se não se verificar nenhum precalço, possam ter uma vida formidável. Olhe para mim, tenho algum defeito? [risos] Estou ótimo, ando 6 quilómetros por dia, 180 por mês. Daqui a pouco já dei a volta ao mundo a pé, duas vezes.

Então, é esse o segredo, começar cedo?

A educação para a saúde é a educação para a longevidade, tem de se dizer isto aos jovens. Temos de apostar nesta informação para que a possam pôr na prática. Antigamente, o idoso, coitado, não andava, estava doente, ninguém queria ser idoso. Agora, essa ideia é mais simpática. Porque o modelo é ser um idoso, saudável, ativo e bem disposto. E, para isso, tem de se dar o exemplo. Eu nunca fumei. E, insisto nisso: devemos, na medida do possível, passar estas mensagens. O meu pai morreu de cancro de pulmão. Pus-lhe muitas papas de linhaça e mostarda naquele peito. Sei o que sofreu até morrer. Quero com isto dizer que é fundamental prevenir a doença. E refiro-me, também, às doenças sexualmente transmissíveis. Nos nossos dias, é um grave problema. Temos por dever alertar os mais jovens.

Mas entende que há pouca informação?

Informação há que chegue. O que não há é diálogo. Em algumas famílias, não há diálogo rigorosamente nenhum e alguns temas ainda são de abordagem proíbida. Ainda há famílias onde as meninas não falam da primeira menstuação, dos ciclos menstruais e têm de saber o que tudo isso significa e a relação que isso tem com a gravidez. Apesar de, em certos meios, haver muitas pessoas que não gostam que eu diga isto, qualquer método anticoncecional é melhor que o abortamento. No abortamento há um crime, há a morte de um ser vivo da espécie humana. As jovens, hoje, têm meios e condições para evitar gravidezes indesejadas. Eu insisto no diálogo. É fundamental. Os inquéritos, no ensino secundário, mostram que as relações sexuais não acontecem nas escolas, mas que os preliminares começam a acontecer aos 13, 14, 15 anos. É esta a realidade e não vale a pena metermos a cabeça na areia.

Conversa muito com os seus netos?

Sim. A nossa relação é formidável. Tanto comigo como com a avó.Tenho 5 rapazes e 5 raparigas e temos uma relação permanente. Passam por cá sempre. Almoçam, jantam, estudam, passam aqui em casa muito tempo, mantemos uma boa ligação. E, quando estamos menos vezes, há a tecnologia a ajudar. Hoje em dia, é muito fácil comunicar. Tem de haver vontade. E os afetos, os laços que se criam são indispensáveis para que a comunicação seja fluente. E aprendo muitas coisas com eles e dou conta que muitas outras coisas mudaram. É uma aprendiagem subtil. No meu tempo, por exemplo, a forma de ser amigo era uma forma diferente daquela que eu vejo hoje. Eles, hoje, distinguem no outro apenas uma qualidade e essa é que valida a amizade. Antigamente, essa “validação” era mais completa. Tinha de se ser bom em muitas coisas! É engraçado...

E com as outras gerações, o que tem aprendido em geral?

Eu dei aulas durante muito tempo. Esse cruzamento com gerações diferentes foi-se acentuando com a idade, claro. E gosto, sempre gostei de me cruzar com pessoas diferentes, que olham de modo diferente. Na faculdade de medicina, comecei logo a dar aulas, em 1952, formei-me em 51 e, aí, eram pessoas da minha idade. Aos 80 anos, claro, já há outra perspectiva desse cruzamento, sempre tão útil se o soubermos aproveitar. Quando fiz 80 anos, foram muito generosos comigo. A universidade Católica publicou um livro de homenagem, com depoimentos de várias personalidades e gerações. Até dos meus filhos. E fiquei contente, pois não foram muito críticos. [risos] Mas, se quisermos aprender, aprendemos sempre. Basta estar atento e aberto ao diálogo.

Qual é sua recordação mais antiga?

A recordação mais antiga e marcante é aquilo que constitui o inicio da autoconsciência. É ter a noção da diferença no meio dos outros. E isso aconteceu-me na escola primária, na segunda classe, quando morreu um dos alunos. Era o António e eu gostava muito dele, foi ele que me ensinou a atirar o pião, com uma técnica só dele. Ele era filho de uns pescadores da praia norte . Nessa altura, morava em Viana do Castelo. O António faltou, deixou de ir às aulas e a professora chegou, naquele dia e disse: hoje não temos aula. Vamos ao enterro do António que morreu. E lá fomos todos de bibezinho, por ali fora, até à casa dele, e disso lembro-me perfeitamente como se estivesse acontecer agora. Agora, lembro-me muito bem, mas, durante 30 ou 40 anos, nunca me lembrei. Depois, surgiu um episódio e lembrei-me. Lá fomos em fila, como era obrigatório naquele tempo, a professora à frente, até chegarmos à casa do António. Estava um barco de pesca, na garagem, em baixo. As escadas rangiam, quando as subimos, e, depois, lá estava uma caixa branca com o António morto. Lembro-me de por-lhe a mão e de ele estar frio. E a sensação de frio não foi nada dramática. Esta perceção da morte talvez me tenha ajudo a nunca recear a minha própria morte e foi de todas as minhas experiências de vida aquela que me ajudou a estruturar.

Tem uma vida feliz?

Posso dizer que sim. O que não significa que não tenha passado por situações muito dificeis. A pior perda foi a do meu filho, que morreu com 33 anos. A perda de um filho é muito dificil de ultrapassar. Quando os filhos morrem antes dos pais, roubam-nos uma parte da nossa vida. Das grandes virtudes, a fé, a esperança e o amor são fundamentais para uma vida feliz. Depois, é uma questão de ordem entre elas. O primeiro verbo da minha vida é a esperança. E sempre me correu bem. Soube esperar. Sempre tive dificuldade em conhecer uma pessoa para viver com ela. Mas encontrei, estamos ambos com 80 anos. O segundo verbo é o amar. Sem amor não há possibilidade de ser feliz. O amor é uma atitude de acolhimento de todos os outros. Animais e plantas, incluídos. E primeiro tenho que gostar de mim para amar os outros e por gostar de mim eu também amo os outros. Conjugando bem estes dois primeiros verbos, esperar e amar, podemos crer, podemos ter fé. •

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