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FOCUSSOCIAL

D. Jorge Ortiga pede que redescubramos as nossas caravelas para ultrapassar tormentas da atualidade

“Reparem como somos quotidianamente provocados a não desistir e a lutar”

por Marta Vaz
Fotografias: Egidio Santos

Tem admiração por Henrique Medina, o retratista da beleza feminina, mas também do silêncio de Pio XII, cujo retrato que se encontra em Braga, no Museu de Arqueologia e Arte Sacra. Por outro lado, aprecia a pintura de Salvador Dali, por entender que as suas representações da sociedade estimulam o pensamento. Ouve música clássica, a sua preferida, mas são as melodias e letras contestatárias dos Beatles, que o fazem regressar à sua juventude. Nasceu em Brufe, freguesia do concelho de Vila Nova de Famalicão, e estudou em Roma, cidade a que gosta de regressar. 
Falamos do Arcebispo de Braga e presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social, D. Jorge Ortiga. A FOCUSSOCIAL conversou com o clérigo sobre a conjuntura do país e não só. D. Jorge revelou-nos que uma das suas maiores preocupações é o desemprego que assola Portugal e o mundo e convida os especialistas na matéria a repensarem novos modelos de trabalho. Aos políticos, pede que coloquem o interesse de Portugal em primeiro lugar e que – muito importante – não dispensem o Estado Social. Pelo contrário, que o fortaleçam, porque «as pessoas são o pilar da sociedade e devem ser protegidas».
Sempre atento à sociedade e às questões que mais envolvem o ser humano, D. Jorge Ortiga não deixa nunca de olhar para o lado mais positivo da vida e aos jovens, com quem tanto gosta de estar, deixa sempre mensagens que sirvam de estímulo à ação, mesmo em tempos que, muitas vezes, paralisam e desanimam. «Vejamos os nossos atletas paraolímpicos que, este ano, nos deram alegrias mesmo com limitações e incapacidades de vária ordem. Reparem como somos quotidianamente provocados a não desistir e a lutar.» 
E deixa outro apelo, não com base no saudosismo de uma história que já não volta, mas tão só com o pragmatismo que se deve retirar de bons exemplos: «Temos de redescobrir as nossas caravelas. Caravelas no sentido figurado. Temos de dobrar os cabos da tormenta da atualidade, sem deixar de acreditar que há, também, cabos da boa esperança».

Tem afirmado, por diversas vezes, que é necessário «estar do lado das minorias, contra a pobreza e exclusão social, atento aos que mais precisam». Como podemos manter e melhorar um estado social com tantas desigualdades e cada vez mais periclitante?

Nós nunca poderemos dispensar o Estado Social e gostava que os nossos governantes tivessem isso bem presente. O que acontece, naturalmente, é que os contornos desse Estado Social se têm modificado com as alterações sofridas pela sociedade. O importante é que nós descubramos, juntos, como agir, ajustando as políticas sociais às novas realidades, combatendo a pobreza e a exclusão social, entre outros flagelos. Mais do que nunca, é necessário uma sintonia no essencial, permitindo uma maior diversidade de atuação, sempre focados no facto de que o Estado Social não pode, de maneira nenhuma, demitir-se das suas obrigações, nem com as minorias nem com todos os outros. As pessoas são o pilar da sociedade e devem ser protegidas.
O Estado Social é uma conquista dos tempos modernos, fundamental para o bem-estar de todas as pessoas, não o podemos perder. Mas, ao mesmo tempo, é fulcral que não esqueçamos a importância da sociedade civil. Aliás, a doutrina social da igreja sublinha este mesmo aspeto, a valorização da sociedade civil que não pode nem deve fugir às suas responsabilidades. Cada um de nós deve estar consciente do seu papel, dando o seu contributo, quer para o seu bem-estar quer para o da própria sociedade. E falo em termos de trabalho, de competências e de inovação. Sempre nos caracterizaram como povo de um certo pioneirismo, de um povo que não teve medo do mar e, hoje, temos de redescobrir as nossas caravelas. Caravelas no sentido figurado. Temos de dobrar os cabos da tormenta da atualidade, sem deixar de acreditar que também há cabos da boa esperança. Temos que nos organizar e estruturar e, muito importante, não baixar os braços. Em nome dos pobres e excluídos, mas também por todos nós. Temos de estar unidos, seja em grupos, associações, no que for. Estou convencido de que será essa união a fazer-nos encontrar uma resposta, conjugando o estado social com uma sociedade civil solidária, atenta ao outro.

Iniciativas como os bancos alimentares mostram que a sociedade civil se mobiliza e responde. Concorda, como alguns, que isto é puro assistencialismo? Parece-lhe suficiente?

Não é suficiente, mas é necessário. É preciso atuar, do ponto de vista político, para que não seja preciso dar de comer a quem tem fome. Claro que, com o número de desempregados existente no nosso país, há muitas famílias a desestruturarem-se e a passarem por grandes necessidades. Nos meios mais rurais e mais pequenos esse tipo de carência não é tão acentuada como nas grandes cidades. Mas o ideal seria um país com mais oferta de emprego para que as pessoas possam ter o seu direito ao trabalho. É uma realidade muito preocupante.

E a igreja? Como tem atuado neste cenário de crise?

Quando me perguntam o que a igreja faz para minorar os problemas sociais, eu distingo dois aspetos. Em primeiro lugar, o trabalho que a igreja realiza, quotidianamente, com as crianças, com os jovens e com os adultos é um trabalho que visa atuar ao nível da consciência, criando uma mentalidade nova, obrigando a pensar para poder agir, e esta mentalidade que a igreja vai realizando, tantas vezes de uma maneira escondida, silenciosa, é fundamental. As mudanças precisam de começar pelo pensamento que irá nortear a ação. A ideia de fraternidade, por exemplo, é essencial ao cristianismo. Resume-se a que Deus é pai e, se é pai, todos nós somos irmãos. Esta consciência de que eu sou irmão do outro e de que o outro é parte de mim mesmo, é um reconhecimento fundamental para atuar. Mais: é uma convicção importante, pois faz-nos sentir responsáveis pelo bem comum. Por outro lado, temos que reconhecer que variadíssimas pessoas, fruto de culpa pessoal ou por negligência da própria sociedade, vivem com necessidades essenciais e estruturais, abaixo do limiar da pobreza. E nós não podemos permitir que essas pessoas vivam nessas condições, temos de nos indignar e fazer qualquer coisa.
É aqui que entram a consciência e a fraternidade. E, então, pensamos: eu vou agir, vou intervir, vou tornar-me próximo, vou estar atento e dar respostas vocacionadas para as pessoas.

As pessoas, os cidadãos são o foco do presente Ano Europeu…

Exatamente. O que só vem reforçar essa necessidade de agir, de estar atento às pessoas. Precisamos de uma sociedade solidária, uma sociedade fraterna, de iguais, com a mesma dignidade, a dignidade da pessoa, a centralidade da pessoa. Só então poderemos dar respostas, seja através do banco alimentar, instituições da igreja, tipo Caritas, Vicentinos, etc. Só assim damos o nosso contributo. Por muito insignificante que pareça, é imprescindível! Não podemos tolerar que algumas pessoas não tenham o mínimo indispensável para uma vida digna! São necessárias duas coisas. Uma é a mudança de mentalidade, outra é a mudança de atitude. Fala-se de crise e escreve-se crise com um "cê" pequeno, mas devíamos passar a dizer que existe uma crise muito maior e devíamos escrevê-la com um "cê" grande e esse "cê" grande devia funcionar como chamada de atenção para algo que está verdadeiramente no cerne desta conjuntura: a falta de reconhecimento de que, de facto, somos parte uns dos outros e não vivemos isolados. Temos de nos comprometer com o Outro. A crise financeira é uma consequência desta falta de consciência coletiva, de um modo de viver absolutamente centrado no nosso individualismo, no nosso egoísmo. Precisamos, urgentemente, de nos capacitarmos e de criarmos um forte espírito de entreajuda para agirmos no sentido de bem comum e da sua absoluta prioridade. 

Esse seu apelo à mudança de atitude individual é um ponto de partida importante, mas as políticas que estão a ser levadas a cabo pelo Governo, nomeadamente, na área social?

Diria duas coisas. Primeiro, gostaria que fossem políticas extraordinárias e de circunstância. É necessário ultrapassar esta fase de austeridade, esta exigência de uma vida limitada. Como bispo, e não como político, prescindo de muitas coisas materiais, mas é essencial que todos se interessem verdadeiramente em encontrar um caminho novo, um caminho onde seja permitido a cada cidadão viver em pleno a sua dignidade humana, e as políticas de austeridade não o permitem, quando cortam, por exemplo, nas pensões e reformas de quem tem menos. Estamos numa nova época. Alguns historiadores reconhecem a dimensão cíclica da história, de altos e baixos, mas eu não tenho essa visão. Vejo a História em forma de espiral. Vai alargando os seus horizontes e, hoje, temos uma globalização, uma amplitude maior dessa espiral. No entanto, somos capazes de ver o mundo, mas ainda não nos reconhecemos nesse mundo como vizinhos, próximos uns dos outros. Estamos em sintonia com o mundo inteiro, mas não estamos, tantas vezes, com o Outro próximo de nós. E é muito importante que aconteça e que, na tal diversidade de pensamento, de respostas, possamos convergir numa atitude comum, concentrada no essencial. Por isso, faço votos para que estas medidas do Governo sejam ocasionais. Também gostava que os políticos se despissem das suas cores partidárias (nem ouso dizer ideológicas, porque já não vejo grandes diferenças nas ideologias) e agissem em nome do bem comum. E agir em nome do bem comum significa proteger os mais desfavorecidos e não o contrário. O tempo da ideologia já passou e, agora, se colocássemos o bem da nação acima dos interesses pessoais e partidários é que era ousar fazer diferente e muito melhor. Só assim sairemos desta crise!

Então, no seu entender, isso não está a ser feito?

Não vejo. Não digo que o Governo tem sempre razão, mas, às vezes, dá impressão que sai determinada medida e, ato continuo e espontâneo, surge uma reação contrária, quando era conveniente que nos sentássemos e são várias pessoas e várias correntes que dizem devíamos sentar na mesma mesa e colocar o interesse de Portugal em primeiro lugar.

E não o estão a colocar em primeiro lugar?

Parece que não... É uma ousadia da minha parte fazer uma afirmação tão global, tão englobante, mas, ao mesmo tempo, tenho essa convicção.
Relativamente a essa premissa que defende, da pessoa se encontrar no Outro, do ser humano ser mais interventivo, mais espiritual, como se faz isso contra a realidade do país e do mundo?

Há cada vez mais desemprego. Sem trabalho, as pessoas não tem como sustentar o corpo, quanto mais o espírito. Reconhece a enorme dificuldade prática?

O trabalho é fundamental. O desemprego é um flagelo, mas estou convencido de que teremos de nos habituar a viver de um modo diferente. Haverá outras maneiras de encarar ou viver o quotidiano. A sociedade chegou à realidade da industrialização, o que quer dizer que a criatividade humana se encontrou em determinadas máquinas que hoje fazem aquilo que o homem e a mulher não são capazes de fazer e, muitas vezes, com a mesma perfeição. Temos de enfrentar esta realidade e arranjar alternativas, uma vez que o desemprego é o drama da sociedade moderna em Portugal e no mundo. Preocupo-me muito com os que não conseguem arranjar emprego e têm família para sustentar, obrigações a cumprir. Isto é alarmante e preocupante. Não sendo especialista nesta área, preocupo-me, sem dúvida, é das minhas principais preocupações; é um campo onde os especialistas devem tentar dar o seu contributo. Analisar e descobrir o que poderíamos fazer com esta nova realidade laboral que se está a redesenhar no mundo e no nosso país. Repensar o trabalho sazonal, pensar um modelo de trabalho mais familiar…Fica o apelo a que pensem nisso rapidamente.

Relativamente ao envelhecimento da sociedade. Há cada vez mais idosos e cada vez menos bébés a nasceram. O que lê nesta tendência que também é mundial, mas mais europeia?

Eu direi que o envelhecimento e o indice etário, hoje, graças a Deus, atingiu um nível considerável e isto é um facto muito importante. As pessoas vivem mais e isto também significa que temos muitas pessoas que, por razãos de idade (e saúde, em alguns casos), já não produzem. E eu gostava de chamar à atenção para o seguinte: não é pelo facto de não produzirem que as pessoas perdem valor. Não é a produtividade que define a dignidade da pessoa. É o simples facto de ser pessoa que lhe confere valor. Todos, individualmente. E o Estado Social, têm essa função, a de pensar na melhor forma de valorizar as pessoas mais velhas. Devemos dignificar as pessoas de idade que trabalharam com muita dedicação e construíram o Portugal de hoje, em condições mais difíceis e complicadas do que as vividas hoje. Lá está, mais uma vez, a necessidade de repensar e reconfigurar os modelos sociais. Estamos, claramente, numa fase de mudança nas diferentes esferas da sociedade. Evidentemente que, neste cenário, a natalidade é incontornável. Para Portugal, é um problema que deve ser encarado com muito realismo e tem de suscitar políticas novas, que promovam e elevem o índice de natalidade. E temos de reconhecer que há muito por fazer. Os jovens adiam o casamento para mais tarde, porque não sentem, não tem a tal garantia, a capacidade de estruturar o futuro, e talvez pensem que um filho é um empecilho que impede de ter mais isto e mais aquilo. Mais uma vez, aqui, o Estado Social tem de apoiar mais. Quer no campo de apoio à maternidade quer, depois, no da educação, de modo a que o nascimento de uma criança seja uma festa, não só para a família, mas também para a sociedade. Temos de ser capazes de rejuvenescer a nossa sociedade, pois, ao ritmo que caminhamos, daqui a algum tempo, a situação é gravíssima. É uma dimensão que temos de acautelar e as políticas sociais têm de servir estes objetivos.

Fala-se cada vez mais na economia social, de certa forma emergente. Na sua perspetiva, que contributos pode ela dar?

A economia social é uma área importantíssima, diria, até, maravilhosa e cada vez mais estruturada. Cabe lá o trabalho de diversas instituições, ligadas à igreja ou não. Mas, tanto as instituições particulares de segurança social como as diferentes organizações não-governamentais estão inseridas neste âmbito da economia social, caracterizada, geralmente, por não ser lucrativa. Muitas dessas organizações estão ligadas à igreja e, se a igreja deixasse de trabalhar nesta área, a situação seria muito mais complicada. Eu vejo isso. Todos estes problemas de que falamos agora, o envelhecimento, a natalidade, o desemprego são, em muitos casos, tratados por estas organizações que tendem a especializar-se e a dar um apoio enorme na resolução de problemas sociais. A economia social é fundamental e é necessário criar, redescobrir uma nova dimensão para a sua atuação cada vez mais concertada.

Refere-se à aprovação da lei de bases, proposta do tempo da Dra. Maria José Nogueira Pinto, que faleceu sem a ver aprovada?

Também. O enquadramento jurídico é necessário e bem-vindo. Irá definir caminhos. Mas, entretanto, não devemos esquecer o trabalho já desenvolvido. As IPSS já começam a viver com menos e menores exigências, mas houve um tempo em que as exigências eram quase destruidoras. Hoje, as dificuldades continuam a ser muitas, porque as condições assim o exigem, nomeadamente, nas instituições que vêem o seu número de utentes a aumentar, principalmente as que trabalham com a terceira idade. Nesta vertente de atuação, por exemplo, a economia social, nos dias que correm, tem uma importância primordial. Mas é ao Estado, não o esqueçamos, que compete, em primeira instância, agir. Não é à Igreja nem às IPSS.

Relativamente às políticas sociais, a igreja, nesta sua pasta, tem algumas recomendações a fazer para essa evolução desta economia social?

Neste momento, pelo que vamos ouvindo das entidades ligadas ao Estado, tem havido grandes esforços para se adequar a situação atual, que nunca é suficiente, porque o Ministério da Solidariedade e Segurança Social tem as suas limitações e restrições, mas pelo que me parece e pelo que ouço por parte das instituições, misericórdias, CNIS, há este esforço a ser feito por parte do governo. Por outro lado, não é suficiente, porque verificamos que há pais que retiram os seus filhos de um centro social porque não têm possibilidade de pagar aquele valor no fim do mês, dar esse mínimo, e também há idosos que estão muitíssimo bem em casa e que não podemos classificar como antigamente debaixo da palavra que são chamadas de lar, mas sim lares residenciais, onde as pessoas estão na sua própria família, mas, para poderem ajudar, também abandonam esses... O problema não é apenas o do ministério, das politicas concretas. É mais vasto e abrangente, é toda uma sociedade que tem de ser pensada e restruturada como já disse no inicio.
Relativamente ao Vale do Ave, região onde os problemas sociais se acentuaram, ainda mais, com a crise, chegam-lhe algumas situações concretas que…
Há dias em que chegam diversas situações em que urge atuar, quer por via das pessoas que estão a vivê-las quer, indiretamente, por intermédio dos sacerdotes. Creio que a igreja tem uma força, a força da proximidade, que incentiva as pessoas a procurarem-nos. A nossa organização paroquial leva-nos a estarmos presentes em todo o território. Essa proximidade leva-nos a conhecer as pessoas e as situações. Temos uma rede de leigos e cristãos mais empenhados e comprometidos que nos ajudam a ajudar e a trabalhar para, de facto, termos uma sociedade mais inclusiva. Ao falar do Vale do Ave, que conheço bem, pois sou oriundo dessa zona, sei que, apesar de tudo, é uma região de gente dedicada ao trabalho e de gente sacrificada, muitas vezes, sem uma orientação, de maneira a poderem estruturar a sua vida, até mesmo a vida empresarial. Temos de pensar um espaço para que estas pessoas possam encontrar emprego. Seria uma tarefa do Governo e até dos partidos, com o envolvimento de a toda gente. Houve uma época em que se falou imenso o Vale do Ave. Agora, é preciso que se faça imenso pelas pessoas do Vale do Ave.

Época em que os Ferraris coexistiam com o trabalho precário...

O que acontece é que se falava em situações concretas de desemprego, carências e fome, mas houve um momento em que isso desapareceu. Como desapareceu, começaram a surgir pequenas empresas, proliferaram as têxteis, muitas vezes projetadas por pessoas sem nenhuma formação, nem técnica nem outra, sem nenhuma capacidade nem noção de gestão. Caíam, ali, apenas com algum dinheiro para investir num pequeno espaço, meia dúzia de máquinas de fiar ou de costura. Depois, exportavam sem o mínimo de conhecimento, e vinha algum dinheiro que depois aplicavam nesses carros. Não houve o diversificar do tecido empresarial, não houve, como não há, em alguns casos e noutras regiões, capacidade de inovar de gerir de forma sustentável. Se, porventura, tivéssemos tido menos fábricas têxtil nessa zona e tivéssemos mais diversificação, não teríamos chegado a esta situação de muitas terem fechado. As qua acompanharam a inovação e mantiveram e melhoraram a competência e a qualidade, estão a laborar, subsistem, mantêm-se abertas e a exportar com conhecimento dos mercados. Não esqueçamos que o concelho de Famalicão é o que mais exporta. Mas há outros sectores, já abandonamos, como, por exemplo, o da agricultura que, neste meio, tem características próprias...

Refere-se ao retorno à terra, à agricultura de subsistência?

Sim. Essa prática foi abandonada e, agora, as pessoas voltam a cultivar, se têm um pedaço de terra para o fazer. Mas também aqui, no meu entende, há falta de orientação, de saber como se faz. Dou exemplos concretos. Os nossos campos, onde cada um fabricava tudo o que podia para viver. Depois ,vinha de não sei de onde a ideia de que era melhor cortar as videiras de vinho verde e plantar só macieiras. Encheram-se campos de macieira que, depois, não eram escoadas. Depois da macieira, veio o kiwi e não faltaram kiwis. Faltou ciência, faltou orientação, faltou diversificação, faltou gestão aos dinheiros que vieram da União Europeia. O Vale do Ave é um exemplo característico de falta de planeamento, de preparação, de formação, daquilo que poderia ser o empreendedorismo. Costumo dizer que o que nos vale é o papel que a Universidade do Minho (UM) tem em encontrar nichos de soluções para algumas empresas, ainda que de reduzidas dimensões. De certa forma, a UM tem tido sempre uma atividade proactiva na inovação e a capacidade de a projetar para o mundo inteiro.

Podemos dizer que há fome, atualmente, ou é exagero? Há fome no Vale do Ave?

Sim, em alguns casos, posso dizer que sim. Fome motivada pela vergonha. Porque as comunidades e vizinhos estão minimamente atentos. Haverá pessoas que têm vergonha de o assumir. Falo, muitas vezes, da pobreza envergonhada que, frequentemente, custa mais que a própria pobreza. E hoje esta pobreza envergonhada atinge pessoas que há vinte, trinta anos eram pessoas de classe média e média alta. Por circunstâncias variadas, essas pessoas viram as suas vidas desestabilizadas. Conheço algumas pessoas que tinham estruturado o seu futuro, alicerçando-o, por exemplo, nas rendas de algumas imóveis, duas ou três casas que possuíam e que, naquela altura, rendiam para ter uma vida média-alta. Essas rendas estabilizaram e, hoje, as pessoas estão com as casas a cair. Fala-se de uma recuperação urbana, mas, se passarmos pelo centro de uma cidade e virmos quantas casas é que estão habitadas, verificamos que as propriedade dessas pessoas estão em estado de avançada degradação, já que estas não tiveram capacidade de as recuperar. A tal vergonha. São pessoas que não pedem ajuda e não falam da sua situação económica concreta.

E uma mensagem para os jovens? Estão a emigrar, a ir embora, a procurar soluções para sua vida, soluções que não encontram aqui…

Há o direito à emigração, pela situação que estamos a viver, mas também devia haver o direito à não emigração e os jovens deviam sentir que há gente que pensa neles e não os quer obrigar a emigrar, dando-lhes o direito de construir a sua vida neste país que é o seu. Por outro lado, a emigração da juventude está de acordo com o que se costuma dizer: o mundo é uma aldeia. A aldeia global. E os jovens que saem podem, graças às novas tecnologias, ficar muito próximos da família, se assim o entenderem. Contudo, é lamentável que este jovens que emigram, na sua maior parte, tenham habilitações académicas elevadas. Isto é preocupante, é um destruir da capacidade de inovação no nosso país que me parece tão importante, Se houvesse maior apoio, eles poderiam ficar. Vemos, por exemplo, enfermeiros a sair porque não houve planeamento das universidades. Os cursos universitários foram feitos em determinados momentos e não projetaram as necessidades do país. Hoje, um enfermeiro plenamente capacitado não tem possibilidade de trabalho em Portugal. Podíamos aventar a adaptação a outro tipo de trabalho diferente, mas, se era aquela a sua vocação, confirmada pela aquisição de determinado conhecimento, isto devia ser útil para o país. À juventude, digo-lhes que tenham confiança em si mesmos e que invistam nas suas potencialidades sem receio do amanhã, mas que se preparem, pois um jovem preparado pode ser feliz em Portugal, se não conseguir, pode procurar outros caminhos, mas sem esquecer o país. Parece-me que alguns têm vergonha de Portugal.

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