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FOCUSSOCIAL

Cristina Carvalho, escritora, 64 anos

“A Europa corre o risco de ser aniquilada pela indiferença das pessoas

por Marta Vaz
Fotografias: Sonja Valentina

Tem cabelos cor de nuvem - nuvem de trovoada; nunca de algodão - e adorava ser piloto. É escritora, filha de escritores. Filha de Rómulo de Carvalho e de Natália Nunes. Sim, do poeta António Gedeão que todos conhecemos, a quem a convite de uma editora escreveu a biografia. Mesmo assim, a sua apresentação, enquanto filha do autor de Pedra Filosofal, ainda arranca interjeições de espanto como aconteceu, certa vez, no auditório da Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, quando foi convidada para um debate sobre o que fica depois da leitura. Senhora de uma aguda consciência social e protagonista de intervenções tantas vezes fraturantes, Cristina Carvalho aborda em alguns dos seus livros temas de grande acutilância social: a morte por velhice, a violência doméstica, feminina e masculina, o suicídio, o abuso sexual de menores, entre outros.

É, seguramente, uma das escritoras portuguesas mais convidadas para visitar escolas de norte a sul do país – tem cinco livros no Plano Nacional de Leitura – e ficar à conversa com alunos e professores. Com frequência, também a convidam para visitar estabelecimentos prisionais de onde sai emocionada e reconhecida. “As experiências que tenho tido proporcionadas pelas leituras dos livros que vou escrevendo são indizíveis. Quase que não tenho palavras. Mas tenho sentimentos e faço o possível por os transmitir. Tudo o que me dão e tudo o que recebo em olhares e por conversas é totalmente sentido”, diz Cristina Carvalho.

Desconcertante e cheia de sentido de humor, assegura que se pintasse o cabelo, seria muito infeliz. Encara o envelhecimento com alguma tristeza e muito pragmatismo. Aos 64 anos ainda se lhe percebe bem a rebeldia da adolescência. Até aos 8 anos nunca viu nenhuma criatura do seu tamanho. Vivia sozinha, com os pais. Nem nunca sequer tinha brincado com nenhuma outra criança. Ficava no jardim o dia inteiro a inventar, a imaginar, a admirar a natureza. Essa contemplação, também a aprendeu com o pai. «As coisas ensinam-se sem palavras. O meu pai era uma pessoa de muito poucas palavras e muito exemplo. Normalmente dizia sempre coisas muito certeiras, diretas. Até aos 14 anos aprende-se muita coisa. Foi uma relação muito próxima, muito em uníssono», diz a escritora.

Gargalhada genuína, olhar vivo, acordado sobre o mundo, como se vivesse lá em cima, no inexplicável céu escandinavo que tanto a fascina, Cristina Carvalho aceitou conversar com a FOCUSSOCIAL e partilhar connosco algumas ideias. O desencanto com o Portugal atual, o seu desassossego e até os personagens do seu último livro, acabado de sair. “Quatro cantos do Mundo” é uma homenagem a Roald Amundsen, David Livingstone, David Attenborough e Jacques-Yves Cousteau. Através de homens reais, o livro é “dedicado a todos os exploradores de mundos imaginários”. As ilustrações, belíssimas, são de Manuel San Payo. De resto, é deixarmo-nos ir, mais uma vez, pela imaginação de Cristina Carvalho, a escritora convicta de que, durante o dia, só se vê bem nas fases de transição porque “a noite encobre e a luz cega”.



Comecemos pelo fim, como no livro O Gato de Uppsala, pela morte do velho Anders. Diz que é limpa e natural. Também a vê assim, como esse personagem?

Sim. Não há nada mais natural do que a morte e, no entanto, estamos sempre a surpreender-nos com ela. Desde que nascemos que a morte é uma consequência inevitável da vida. Uma pessoa religiosa, que tenha uma finalidade, uma determinada direção mais facilmente encara a morte. A religião pode ser uma espécie de escudo, que protege tanto da morte de amigos e de familiares ou até mesmo da nossa própria morte. A religião protege na dor, no receio. A morte aterroriza as pessoas e quem não for religioso tem de encarar esse facto sem nenhuma almofada. E refiro-me a uma morte natural. Uma morte violenta ou fora de tempo é uma tragédia. Agora, se a pessoa desaparecer no final da vida, como as velhas árvores, é diferente. Há uma outra paz, mesmo que do outro lado esteja o desconhecido. E isso sim, assusta mais do que a morte em si. Sempre que, por consideração de um amigo, vou a uma missa, de sétimo dia,  por exemplo, penso nestas coisas todas. Como não sou crente, interrogo-me constantemente. Têm fé em quê? Não conhecem. Ninguém conhece nada.

Lida bem com o envelhecimento? Quer falar-nos da sua experiência?
Lido muito naturalmente. Daqui até ao fim, agora, é um instante. O tempo cavalga. É impressionante. Quando eu estava no ativo, os dias não passavam, assim, velozes. Com muita sorte, vivo mais 25 anos. Ainda não cheguei aquele ponto de me sentir aterrorizada, mesmo com rugas, mesmo a dar conta das alterações diárias que o meu rosto e o meu corpo sofrem. Tenho pena, mais nada! Claro que gostava de me ver com 40 anos, novamente, e com a agilidade dessa idade. Mas é assim. Perdemos o brilho todo. Não há nada a fazer.

Há algumas, dizem. Pintar o cabelo, por exemplo…
Nem pensar. Se eu pintasse o cabelo era muito infeliz. Não tenho paciência para certas coisas. As minhas amigas sabem. Há certas coisas que parecendo simples, tornam as pessoas muito infelizes e amargas. Traduzem-se no trato do dia-a-dia. Só deve fazer uma dieta, por exemplo, quem esteja convicto da sua necessidade. De outro modo, não vejo razão para nos privarmos de comer o que gostamos.

Mas e o brilho do saber acumulado ao longo dos anos, é uma miragem?
Não. De facto, esse brilho existe, não é uma ilusão. Em circunstâncias normais, a nossa mente vai adquirindo outra luminosidade, mais intensa, mais consistente, é verdade. Embora eu ache que os velhos não sabem nada. 

Não?

No dia-a-dia um jovem se for interessado e atento, sabe mais do que uma pessoa de idade. Os mais velhos têm outro tipo de conhecimentos. Cautelas, avisos, perceções, intuições. Sabedoria de vida. Eu chamo-lhe cautelas. Conhecimento é algo que aplicamos no quotidiano, o que conhecemos, o que aprendemos todos os dias e o que todos os dias vamos aclarando. A forma de o usar e de aplicar esse conhecimento é uma coisa diferente. São as tortuosidades que se aprendem com o envelhecimento. A velhice é um truque. Aprendemos os truques da vida. E não seguimos por aqui ou por ali, porque já sabemos como é.

É isso o tal “saber de experiência feito”?

Sim. Mas não gosto nada do velho que assume o papel de conselheiro mor. Acho isso muito irritante. Não vás por aí, não sigas por ali. É deixar seguir.

Não dá conselhos?

Se vierem ter comigo e os pedirem, talvez. Agora, colocar-me na posição de “aqui estou eu, com a minha sabedoria e façam o favor de me ouvir porque eu já tenho 64 anos e eu sei o que estou a dizer”, não! Nem pensar. E nunca com carácter de ensinamento. Nunca. Acho isso detestável.

Mas é engraçado que indiretamente os seus livros o possam fazer…

É verdade. Quem escreve, corre esse risco, o de ensinar qualquer coisa. (risos) Quem escreve acaba sempre por exibir as suas técnicas de conhecimento, as suas impressões e as suas sensações. A ficção é a realidade. Muitas vezes são catarses pessoais. A escrita, tal como outras formas de arte, é uma espécie de antibiótico que nos liberta de algumas bactérias, umas mais nocivas do que outras, é certo, mas todas são parte do mundo infecionado de cada um, do universo pessoal que nos acontece e que vamos construindo.

Como foi escrever a biografia de Rómulo de Carvalho/António Gedeão, o “Príncipe Perfeito”? Visceral. Escrito tão de dentro de casa e do coração…

Sim, mas não teve qualquer reação por parte dos críticos. E digo isto com tristeza. Foi um livro que me custou muito a escrever. E como não posso ser hipócrita comigo mesmo, acho que é um bom livro. Está bem escrito. Mas não obtive qualquer retorno do ponto de vista da crítica especializada. Aliás, passa-se isso com muitos dos meus livros. E isto traz à baila uma análise breve e inevitável. Vemos isso todos os dias. É extraordinariamente fácil colocar um livro, qualquer livro, nos píncaros. Mesmo sendo um primeiro livro, mesmo que não tenha valor literário, é muito fácil elevá-lo. Eu vejo isso todos os dias. Por exemplo, há determinado livro, que até pode ser bom ou mau, não interessa para o caso, e que de um momento para o outro, numa faísca, em pouquíssimo tempo está num qualquer altar. Como é que isto se dá e porquê? Não sei qual o interesse que está por detrás, mas tem que haver algum, nada se faz sem interesse. No caso da biografia de Rómulo de Carvalho, não obtive nenhuma reação.

Mas o prefácio de Ana de Londres, por exemplo, foi escrito por um crítico, Miguel Real…

Sim. Estou-lhe muito agradecida. Dedicou-lhe horas de empenho, a ler e a pesquisar tudo o que escrevi desde 1989.Estou-lhe muitíssimo reconhecida, devo dizer. Porque uma pessoa quando escreve, um texto ou um livro, tem duas hipóteses. Ou o guarda até a eternidade se encarregar de o desfazer em pó ou o dá a conhecer, convicta da sua utilidade. Também por isso, é importante que os livros sejam analisados por outras pessoas, para que essa intenção seja ou não reiterada e/ou para que se levantem outras questões.



Por outro lado, é uma das escritoras portuguesas mais convidadas para ir a escolas falar dos seus livros. Há um reconhecimento de terreno. E tem cinco livros no Plano Nacional de Leitura. 
De facto, acontece. As escolas reagem muito bem aos meus livros e eu gosto muito de as visitar e de ficar à conversa tanto com os alunos como com os professores. Ainda há dias estava num debate à volta do meu livro Lusco-Fusco e a resposta de uma aluna surpreendeu-me. A interação gera muitas dinâmicas e achei curioso que entre todos os seres fantásticos de que falo nesse livro, ela tenha gostado das sereias porque “sempre são metade humanas e isso é importante”.

Regressando à biografia do seu pai. Noto-lhe um sentido de família forte, de rituais, peculiar. Como analisa as mudanças sociais que a família, de um modo geral, tem vindo a sofrer?

A sociedade é composta por tribos. Sempre encarei a família como uma tribo. E as tribos têm um sentido muito forte de proteção. Amparam-se. Alimentam-se, fazem-se nascer, acompanham-se na morte. Isso para mim é o mais importante. Não propriamente as novas composições que foram surgindo ao longo do tempo. Evidentemente que as mudanças sociais foram inevitavelmente dando outras composições à família nuclear mas o mais importante, do meu ponto de vista, é essa união, a obrigação de se protegerem uns aos outros, sem deixarem de ser nunca o pilar da sociedade.

Na Casa das Auroras, por exemplo, levanta muitas questões inquietantes, a morte por velhice, a violência doméstica, o suicídio, o abuso sexual de menores…

Eu não escrevo histórias da carochinha para ser queriducha. É um livro com informação que entendo útil, que faz pensar. Nós, escritores, por muito prazer que tenhamos na escrita, escrevemos para os outros. Essa é a questão. E, para mim, a utilidade dos livros que escrevo é algo fulcral. Quando vou às escolas, os professores preparam determinado tema, há tópicos de debate que estimulam a pesquisa, a procura de conhecimento. Sou muitas vezes confrontada com perguntas interessantes. Gosto muito desse contacto com os leitores. É para isso que escrevo. Não escrevo para emoldurar histórias em frisos dourados e colocar-lhe laços cor-de-rosa. 

E a violência doméstica, em particular, o que dizer? Os números são alarmantes.

É uma matéria muito complexa. Porque a violência doméstica é fruto de uma determinada civilização, de uma determinada educação, de um determinado caminho. Essa violência é fundada numa sociedade patriarcal, envolta em medos e receios, pessoais e sociais. Mesmo até do ponto de vista biológico, a mulher, fisicamente, é de uma constituição mais fraca. Há uma certa conjuntura propícia a que seja a vítima, independentemente da classe social. Conheci mulheres, de classe social altíssima, vítimas de violência doméstica que não denunciaram a situação por medo. Por outro lado, é também uma questão comportamental, da personalidade de cada pessoa, pois há mulheres que se deixam maltratar a um ponto que só pode ser masoquismo! E é muito difícil sair de relações assim.

E os homens vítimas de violência praticada por mulheres “lindas e loiras”, como na Casa das Auroras?

É verdade. A violência sobre as mulheres é a mais visível e a mais denunciada. Mas a exercida sobre os homens também existe. A mulher não é um osso fácil de roer. Elas também os matam. Mas com outros requintes. A mulher, nos relacionamentos, é dissimulada, falsa, víbora. Fazem as coisas com outra sofisticação, por exemplo, pôr veneno no chá durante dez anos. Pitadas de veneno durante anos. Isto acontece.

Como é ser filha de Rómulo de Carvalho, o Príncipe Perfeito?
Foram os alunos que lhe deram esse cognome, como sabe. Era tudo muito simples, muito fácil. O meu pai não tinha nenhuns empolamentos, nem de sabedoria, nem de conhecimento. Era tudo muito rente ao chão e muito genético. As coisas passavam e passam. A maneira de ser, de estar, de falar, de pensar, de observar. Numa família em que haja predisposição para isso, é natural que seja tudo muito simples, muito fácil. No livro eu conto um episódio, na Curia, em que caminhávamos por um carreiro de terra batida, com muitas árvores e ao longe havia um lago, com gaivotas (barcos a pedal) que é muito elucidativo sobre isso. As coisas ensinam-se sem palavras. O meu pai era uma pessoa de muito poucas palavras e muito exemplo. Normalmente dizia sempre coisas muito certeiras, diretas. Até aos 14 anos aprende-se muita coisa. Foi uma relação muito próxima, muito em uníssono.

E a relação com a mãe, a também escritora Natália Nunes?

É outro território. A relação mulher/mulher, como sabe, é diferente da relação homem/mulher. Geralmente a relação com as mães é mais difícil. Depois haverá exceções para confirmar a regra.

E então quais são os homens da sua vida?

Eu não vou responder a essa pergunta, não vou! (risos) Mas vou dizer que o mais natural e imediato é o meu pai e os meus dois filhos rapazes (não vou incluir aqui, obviamente, a minha filha). Depois há os Homens da humanidade, homens e mulheres admiráveis em diversas áreas do saber, desde a música à pintura, da ciência à literatura. E, ainda, outros que se destacam pela sua bondade, como Gandhi ou Madre Teresa de Calcutá, mas isso já me faz mais impressão.

A bondade faz-lhe impressão?

De certa forma, sim. É algo demasiado extraordinário.

Acredita mais facilmente em santos ou em serial killers?

Um serial killer é mais palpável, mais humano. Um santo… (pausa) um santo…que pergunta difícil. O que é a santidade? O que é o Bem? Em abstrato só Deus. E mesmo assim, a gente não sabe. Nós não sabemos nada.

Tem religião?
Não. Mas gostava de ter. Assim algo forte, que me agarrasse. Mas não tenho muito feitio para isso. Não sei. Desisto das coisas…

Do quê em concreto?

Desisto de compreender. Acho que é isso. Mas gostava de ter uma religião, as pessoas suportam melhor a vida tendo onde se agarrar. Eu farto-me de cair. Sempre foi assim. Também não tive nenhuma educação nesse sentido. Não sou batizada. Fui dispensada das aulas de religião e moral. Nesse aspeto, estive sempre à margem.

E a sua infância, como foi?

Tenho algumas lembranças. Eu só vi um miúdo da minha idade aos 8 anos. Isto à luz dos dias de hoje em que os miúdos vão para o infantário aos 3 anos e até mais cedo, é muito estranho. Eu, só quando vim para Lisboa é que conheci gente da minha altura e isso é muito difícil. Ora isto pode, como imagina, marcar a vida de uma pessoa. Até aos sete anos estive sempre sozinha, convivendo apenas com o meu pai e com a minha mãe. Os meus entretenimentos eram todos. Vivia sozinha a imaginar. Imaginava muitas coisas. Passava os dias no jardim, a criar situações e a observar. Não tenho recordações do Natal, da Páscoa, de Carnaval, de festas assim. Tenho a recordação – até porque vejo as fotografias – de irmos para a praia. Mas o meu pai não ia, ele detestava praia, assim como, hoje, eu não suporto praia. Mas eu ia para a praia com a minha mãe porque fazia bem à saúde. Lembro-me daquelas praias geladas do Furadouro, de Mira. De resto tive uma infância muito solitária e acredito que isso me tenha influenciado a personalidade.

Mas foi um estímulo à sua imaginação?

Foi com certeza. Não havia televisão, nem rádio, nem telemóveis, nem internet, nem circo, nem teatro. Como é que sem estas coisas se entretém um miúdo? Não se entretém. E eu, até essa idade aprendi em casa, com os meus pais. Para brincar, tinha apenas a minha imaginação. Depois, só em Lisboa fui à escola. Mas nunca fui boa aluna. Safava-me à base de redações. Era muito distraída. Estava sempre noutro lado. O meu pai sempre me disse isto, até bastante tarde, já eu tinha 30 anos. Ele dizia, não vale a pena dizerem-lhe nada porque ela, agora, não está cá. Ele percebia-me muito bem. Depois, a partir dos 15 anos, o meu interesse era muito simples, namorar. 

E como foi ser mulher, um nada rebelde (risos) nos anos 60/70?

Passou tudo muito depressa.  As mulheres da minha geração, nessa altura, ainda viveram um prolongamento do século XIX. Não se podia sair à noite, às 22 horas devia entrar-se em casa. Muita repressão. No entanto, na Europa, já nada disso se passava. As miúdas com quem me dava, tinham todas a mãe em casa, nenhuma trabalhava (a minha, sim). A mulher portuguesa começou, por essa altura, a mudar de rumo. Foi uma viragem lenta, anterior ao 25 de abril, que foi transformando o papel feminino na sociedade portuguesa. E estou convicta que as músicas que passavam na rádio, sobretudo as francesas, deram um valente empurrão a essa saída de casa. Françoise Hardy, por exemplo, lembro-me tão bem. Cantavam hinos de liberdade. As mensagens eram muitas vezes sub-reptícias mas foram fundamentais para a libertação da mulher. Eu, com 18 anos fui a Londres e vim de lá com a boca aberta! Uma sociedade que em nada tinha a ver com a nossa. Até na imagem das mulheres a diferença era abismal. Unhas, cabelos, roupas. Tudo diferente e mais aberto. Chegava-se aqui e era tudo enfezado.

Tem alguma recordação especial dessa viagem?

Oh, sim, um pijama! (risos) Trouxe um pijama inteiro, em turco, com fecho éclair, verde alface e as pessoas não acreditavam que aquilo fosse um pijama. No meu círculo de amigas foi uma novidade, uma extravagância. E depois, fizemos um concurso, uma brincadeira em que eu subi a Avenida de Roma com o dito pijama. Não imagina! Foi um espanto! Até saiu no Século Ilustrado. Só para lhe dizer que, nessa altura, um simples pijama era capaz de revolucionar um bairro inteiro. E quem diz um pijama, diz outra peça de vestuário. Os collans, por exemplo, ninguém os conhecia. Parece ridículo, agora, mas é verdade.

E nessa altura, já escrevia, já queria ser escritora?

Não. Sempre escrevi, mas não queria ser escritora. Em 1970, quando comecei a trabalhar na TAP, o que queria mesmo era ser piloto. Mas, só passados dez anos, é que começaram a aparecer os primeiros cursos para mulheres. Tive azar. No entanto, comecei a publicar mais tarde. Tem de haver uma certa conjuntura. Em tudo na vida é assim.

É uma mulher viajada, conhece muitos países e lugares, porque a fascina tanto a Escandinávia?

É o céu. É a cor. Lá está, se eu tivesse religião, algo a que me agarrar talvez fosse por aí para explicar isso. Eu não sei de onde vem aquela cor, mas só a encontro ali. Não sei definir. Só se eu pintasse. Mas como não pinto… É muito visual. É uma atmosfera. Usar palavras, aqui, é muito difícil. É de uma doçura, de uma transcendência incrível. Paz, talvez.

É muito desassossegada?

Sou. Sou um bocado. Às vezes leio entrevistas de pessoas que admiro e digo, eu gostava de ser assim. São pessoas que transmitem uma certa tranquilidade que não tenho, nem na maneira de vestir, nem no porte.

Qual a melhor sensação que já experimentou?

O estar apaixonada, sem dúvida. Não tem explicação. Vertiginoso. A pessoa faz tudo. É uma coisa…! É pena ser tão rápido. Desfaz-se. A paixão está para o Homem como outros fenómenos intensos e breves estão para a natureza. É como a aurora boreal ou o trovão ou o relâmpago. Assim é a paixão. Intensa e ocasional.

E o amor?

O amor? A amizade. O que é o amor? O amor é a amizade. Ai amo-te muito, querido. Não! A amizade – como é que eu hei-de explicar isto? – a amizade é o que fica, tanto em relação a um homem como a uma mulher. O que é o amor? Eu não sei. O amor, não sei. É admiração? É altruísmo? É sentir falta? A paixão e a amizade, sei bem. O amor, não sei, gostava de saber, mas não sei. Hoje não sei.

Em Ana de Londres aborda a emigração. Retrata uma geração que teve a coragem de lutar…
A Ana de Londres emigrou nos anos 60. A conjuntura era outra. Neste momento os jovens portugueses também lutam, mas o país é outro. Atualmente não vejo qualquer horizonte de esperança. Não há emprego e faltando trabalho as pessoas são obrigadas a sair. Eu tenho uma filha lá fora, já há bastante tempo. É investigadora, cientista, pertence a esse clube de cérebros que saiu de Portugal. Ganhou uma bolsa de investigação e está em Barcelona. O meu filho do meio tem emprego, por enquanto está bem mas, o mais novo, provavelmente terá de sair, também. No momento, não conheço uma única família que não tenha alguém fora. Somos um país de emigrantes. E basta olhar para o caderno de emprego do Expresso. Aqui há uns anos tinha que ler, agora são duas páginas. É uma miséria. Estou absolutamente desencantada com este país.

 



Nocturno está também em áudio-livro, para pessoas cegas. Como surgiu esta oportunidade?
Não sei bem como surgiu. A Maria Manuel Viana é que, na altura, me disse estar a fazer a gravação na Biblioteca Nacional. Talvez por ser um livro especialmente propício à imaginação e muito musical. Mas fiquei muito agradada com essa oportunidade.

Este livro vai ao encontro a públicos muito especiais. Também foi apresentado no estabelecimento prisional de Caxias. Quer falar dessa experiência?

Sim, é verdade. Foi a Tânia Ganho que proporcionou esse encontro, pois é responsável por essa ação social junto das prisões e escolheu esse meu livro. Entrou em contacto comigo e perguntou-me se eu estava interessada em ir falar com os presos, à cadeia, e eu, claro que sim, que estava muito interessada. Foi uma experiência muito gratificante. É uma população com quem nunca tinha tido uma aproximação deste género e estou muito reconhecida. Gostei mesmo muito. O interessante, aqui, é que os livros são trabalhados, previamente, com esta comunidade privada de liberdade. No caso, todos os presos tinham lido Nocturno e depois quando fui lá, discutimos a obra, foram-me colocadas questões pertinentes. Foi mesmo muito interessante, não só por ser um nicho social interdito à maior parte das pessoas. Faz-nos pensar. A atmosfera é gélida, despida de sensações, um vazio grande. E os rosto, todos diferentes na sua expressão, na tradução do modo de estar de cada um. E no entanto, trazemos de lá tanta matéria universal.

O que é que relê?

Não releio muita coisa. Mas volto sistematicamente a uma entrevista de Marguerite Yourcenar  intitulada “De olhos abertos”. É como se fosse uma bíblia; é uma edição livro de bolso, muito antiga. Gosto de abrir ao acaso e ler. Gosto muito. Tem passagens irónicas, torcidas, muito ao meu gosto. Também releio os meus autores nórdicos, Tomas Tranströmer, Selma Lagerlöf. E releio muito Truman Capote. Adoro. E António Lobo Antunes. Lobo Antunes é muito bom. E poesia, sim, também releio sempre.

E a sua poesia, quando a lemos?

Não tem interesse nenhum. Ainda há dias a enviei a um editor que me disse, é melhor ficar pela ficção. Já tem o nome feito.

O seu pai escreveu
 “O Texto Poético como Documento Social”. Quer comentar a ideia da poesia como documento social?  
A poesia do eu e tu e tu e eu tem de ser muito boa para ser interessante. Depois, saindo desse registo pessoal, há o olhar sobre a sociedade, a tradução do quotidiano que é de uma importância vital. É uma abordagem interessantíssima. A dificuldade reside em o fazer de forma poética e, de facto, isso não está acessível a todos. Não é poesia que rima, são estados de alma determinados pela sociedade em que se vive e que, no entanto, refletem a humanidade. O seu peso transcendente. A Pedra Filosofal, por exemplo, está lá tudo. Como em Bob Dylan ou em Charles Bukowski, poetas que nos mergulham num tempo, no seu tempo, de forma única e que, ao mesmo tempo, nos falam de uma humanidade intemporal.

Disse certa vez que “a pessoa que escreve histórias deseja que a outra pessoa as leia mas sobretudo que as compreenda”. Sente-se compreendida pelos seus leitores?

Sim. Pelo menos por a parte daqueles de quem tenho retorno. É necessário que as pessoas compreendam. E para as pessoas compreenderem tem de haver transparência não pode ser um tecer complexo, rebuscado. Ainda que se diga coisas muito transcendentes, tem de ser dito de forma simples. A linguagem tem de ser ao mesmo tempo compreensível e apetecível. A nossa valorização, enquanto escritores, passa muito pelos leitores. Ou seja, entendo que é muito gratificante, quando o leitor reconhece a nossa forma de escrever. E se identifica. É muito importante. Relativamente ao país é que temos um azar desgraçado em estarmos aqui, em Portugal. Há livros que se, por exemplo, fossem lançados em Inglaterra, voavam pelo mundo fora, seriam úteis em muitas partes do mundo. Temos um Nobel da Literatura e temos António Lobo Antunes, premiadíssimo lá fora, e mais?

Há um ano escreveu “esses governantes cheios de responsabilidades que tudo têm deitado a perder num quotidiano já tão desgraçado, tão insipido e incolor. Essa gente sem noção de património que não avança e nada vê nem sente, além de números agudos, cortantes e letais. Mantém?
Evidentemente! Vivemos numa frieza total, numa desilusão de país, sem nenhum futuro para os nossos jovens. Sem trabalho para lhes dar, o que esperamos que aconteça? Que fiquem parados, que aumentem a taxa de natalidade? Esta gente que está no Governo, não contribui nada para a poética que um país pode ter. Podiam governar com outro sentimento, com outra atenção às pessoas. Podiam ter uma aura, visão, carisma, vontade real de mudar um país, tendo em conta, em primeiro lugar, as pessoas e não os números. E a cultura está de rastos. E não se vislumbra nada melhor. É o vazio total.

Também disse que “Portugal com mais meia dúzia de países do Sul da Europa, é um reduto de misérias, de sobressaltos, de interrogações. Temos tido muito azar, mas também o temos alimentado”. Como?

Somos atavicamente incultos. E a abstenção nas eleições? Não nos podemos conformar. É impensável. A abstenção é assustadora. Traduz muito do que se está a passar. A indiferença é tremenda. A indiferença aniquila um país. A Europa corre esse risco, o de ser aniquilada pela indiferença das pessoas e pelas reivindicações vazias de ação. Nós não nos mexemos, não pode ser!

Uma vez, a proposito do seu romance Nocturno, disse que muitas das coisas importantes da  sua vida aconteceram de noite ou quase de noite. O que é que a noite lhe traz que a claridade não revela?

Não é a noite. É o lusco-fusco. Os contornos em que essa meia luz revela subtilezas. Algo que não se vê nem de dia nem de noite. Ou então, a aurora. Nada se vê bem nos extremos. A noite encobre e a luz cega. Essas transições são o melhor momento para vermos realmente. Daí ter dito isso. É uma convicção.

E o seu próximo livro, de que nos fala?

São quatro histórias: uma passada no pólo norte, outra no fundo do mar, outra na selva e outra no deserto. E essas histórias são observadas por um ser que habita no espaço. Dedico este livro a quatro grandes exploradores do século XI X que me fascinam imenso. Sou uma apaixonada pelo mundo ciêntifico, pelo conhecimento da humanidade.  Talvez a minha religião seja a minha ignorância, daí a minha busca constante por descobrir, por conhecer. E é a tentativa de diminuir essa ignorância que nos faz ir além. Que me faz caminhar.

Qual a sua memória mais antiga?

Não posso dizer. (risos). Ninguém acreditaria.

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