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FOCUSSOCIAL

Célia Sousa - Coordenadora do Centro de Recursos para a Inclusão Digital

“Derrubar obstáculos é promover a inclusão”

por Marta Vaz
Fotografias: Rúben Almeida e João Pinheiro

“A inclusão acolhe a diversidade”. Por isso não existe uma só fórmula, um modelo único que se possa aplicar e já está. Não. A inclusão exige um compromisso mútuo. Um respeito absoluto pela individualidade de cada ser humano. Sobre este e outros assuntos, a FOCUSSOCIAL conversou com Célia Sousa, coordenadora do Centro de Recursos para a Inclusão Digital (CRID), do Instituto Politécnico de Leiria. Só por si, o seu gesto e sorriso incluem. Recebeu-nos, assim, claramente disponível e tomada de uma energia contagiante, vital a quem tem por missão derrubar obstáculos. Seja uma barreira física ou outra qualquer. Pode até ser o abrir caminho para chegar a uma história a que todos, à partida, temos acesso. Mas não é verdade. Porque, muitas vezes, também é necessário contar essa mesma história em braille ou por pictogramas, por exemplo. E isto, também se faz no CRID. 
Habilitar cidadãos com necessidades especiais para a participação na sociedade de informação, nomeadamente na área de formação em competências informáticas básicas é um dos objetivos do CRID que também está apto a avaliar e a prestar aconselhamento sobre os tipos de equipamento ou ajudas técnicas e respetivas estratégias de utilização, adequadas às necessidades do cidadão com deficiência. Mas não se fica por aqui. O CRID apoia e dá formação a profissionais das escolas, dos hospitais, das associações de apoio a deficientes, da segurança social, das entidades empregadoras e, até, aos pais e outros educadores. No CRID estuda-se, ainda, o potencial de desenvolvimento, através da investigação, conceção ou adaptação de tecnologias na área das ajudas técnicas, cruzando saberes e experiências de múltiplas áreas científicas. 
Desta forma o CRID, único no país, está adestrado a apoiar os cidadãos com necessidades especiais e respetivos familiares, marcando a diferença a nível regional, nacional e, até, internacional. 
“Pretendemos fomentar a utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) por parte de todos os cidadãos dando o nosso contributo para uma sociedade inclusiva capaz de dar resposta às diferentes necessidades dos diversos indivíduos da nossa sociedade”, diz Célia Sousa, acrescentando que “derrubar obstáculos é promover a inclusão. E são tantos e tão diversos que não temos mãos a medir”. 
Autora de livros infanto-juvenis, Célia Sousa é licenciada em Educação Especial (domínio cognitivo ou motor), doutorada em Ciências da Educação, diplomada em Estudos Avançados na área da comunicação com um trabalho intitulado “A Escola Inclusiva no século XXI e o uso da Comunicação não-verbal como resposta aos alunos com Necessidades Educativas Especiais “. 
Gosta muito de escrever e de brincar. Quando em pequena lhe perguntavam o que queria ser, dizia que queria ganhar o Prémio Nobel que, lá no seu entendimento, era uma forma de dizer que queria praticar o bem, fazer coisas boas! E faz. E sente-se “muito realizada” neste caminho que escolheu, o de trabalhar para que todos aqueles que são especiais – crianças ou adultos – não fiquem do lado de fora. Do lado dos que não têm acesso por este ou por aquele motivo. 
Importante mesmo, é incluir. E trabalhar para uma sociedade mais inclusiva é o que a vasta equipa multidisciplinar faz no CRID e a partir de lá. Seja a adaptar um brinquedo ou um computador; a adaptar uma história, uma ementa, ou um guia de museu, o importante - mesmo muito importante - é que cada cidadão sinta que lá por ter nascido ou ter ficado “especial” há quem se empenhe para que o quotidiano seja menos penoso. Quer se trate de trabalho ou mera situação lúdica, incluir é o lema do CRID e das pessoas que lá trabalham.

Coordena o CRID desde 2006. Qual é a missão deste projeto?
De um modo geral a nossa missão é facilitar a participação dos cidadãos com necessidades especiais na sociedade da informação e do conhecimento. Desenvolvemos a nossa atividade a partir de três eixos fundamentais: avaliação, diagnóstico e investigação.

E como surge?
A Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Instituto Politécnico sempre foi sensível a este problema e assumiu como uma das suas grandes prioridades o aumento das competências dos cidadãos nesta área, apelando ao desenvolvimento de estratégias de combate à infoexclusão e, de uma forma geral, a todas as formas de exclusão, ciente de que a construção de uma Sociedade da Informação para todos, terá obrigatoriamente que envolver todos os cidadãos, incluindo aqueles que, ao longo dos tempos, têm sido objeto de persistente marginalização, como é o caso das pessoas com deficiência.

E que tipo de atividades desenvolvem?
Diversas. Falaremos de algumas em particular. Neste momento, por exemplo, contribuímos para que cerca de uma centena de pessoas com necessidades especiais, mantenham contacto semanal com as novas tecnologias. Diversas instituições da região frequentam o CRID permitindo a um vasto grupo de utentes o uso de diferentes tecnologias de acordo com as necessidades de cada um. [Neste momento entra no CRID um grupo de pessoas da CERCILEI de Leiria. Nota-se o à vontade proporcionado pela frequência assídua. E, ainda, o vínculo amistoso às pessoas que ali estão, nomeadamente com a professora Célia, a quem se dirigem com desinibição e afeto]. 

E mais?
Estamos protocolados com diversas entidades, nomeadamente o Hospital de Leiria, associações diversas a quem prestamos consultadoria e serviços técnicos. Fazemos avaliações em diferentes áreas de deficiência prestando assim um aconselhamento ao nível do hardware e software. Sensibilizamos para a importância do uso da tecnologia na melhoria de vida das pessoas com necessidade especiais, através de ações de sensibilização e formação. Por exemplo, muitos restaurantes do distrito de Leiria, já têm ementas em braile e, até, com pictogramas.
Apoiamos autarquias, nomeadamente ao nível de acessibilidades e aconselhamento específico a projetos na área do turismo, como por exemplo guias para museus, adaptados a pessoas com deficiência.
Aconselhamos empresários no âmbito de equipamentos informáticos
(hardware e software) para a empregabilidade de pessoas com necessidades especiais. Prestamos apoio ao Instituto de Emprego e Formação Profissional de Leiria na formação de pessoas com necessidades especiais, através da utilização dos equipamentos disponíveis. Ajudamos, ainda, famílias na utilização dos equipamentos prescritos aos utentes através de formação gratuita em horário adequado às necessidades da família.
Servimos de laboratório para investigação e desenvolvimento de trabalhos de diferentes temáticas na área das necessidades especiais. Estando de momento a prestar apoio alunos das diferentes escolas do IPLeiria que se encontram a desenvolver trabalhos de investigação nesta área.

Como por exemplo?
Como é o caso daquele nosso ex-aluno, o Luís Monteiro [ali ao lado, a trabalhar no CRID] que se encontra a desenvolver o seu trabalho de investigação apoiando, de facto, no terreno, diariamente, outro nosso aluno cego, o João Jorge. O João Jorge é nosso aluno de Comunicação e Media e o Luís Monteiro, presta-lhe apoio não só na sua integração, no meio académico e na cidade, como o ajuda com os documentos e matérias escolares de que necessita para estudar, colocando-os em braille, por exemplo. Por sua vez, o João Jorge, permite ao Luís Monteiro, fazer o seu trabalho de investigação. Fez-se uma verdadeira parceria. E está a resultar muito bem.

E estes guias, aqui em cima da sua secretária, também são feitos aqui?
Sim. Estamos a fazê-los para o Museu da Cidade, aqui de Leiria. Mas também já temos guias especiais no Museu da Batalha. Ao convertermos textos para braille, sinalética diversa, entre outros, estamos a diminuir as dificuldades e privilegiar a igualdade de oportunidades para todos os cidadãos. Às vezes é difícil reparar nas coisas mais simples do quotidiano, como ir a um restaurante ou visitar um museu e não ter acesso à informação só porque temos uma deficiência de qualquer ordem.
Aqui disponibilizamos recursos que permitam analisar problemas ligados não só ao processo ensino/aprendizagem, como tentamos contribuir para tornar mais simples o dia-a-dia destas pessoas. Gostaríamos de não ter nenhuma limitação nas na resposta a determinadas necessidades da comunidade mas, por vezes, há aspetos de solução mais difícil ou morosa. Mas nunca desistimos.

Célia Sousa

A campanha “Mil Brinquedos Mil Sorrisos” sucede à campanha “Um Brinquedo por Um Sorriso”, que teve a sua primeira edição em 2008. Quer falar-nos desta iniciativa?

Esta campanha tem como principal objetivo recolher brinquedos com um sistema eletrónico simples, a fim de serem transformados em brinquedos passíveis de serem utilizados por crianças com necessidades especiais.Nesse primeiro ano, em 2008, oferecemos 200 brinquedos a 20 instituições. No ano seguinte angariamos 600, dos quais só 400 tinham condições para serem adaptados, os restantes foram oferecidos a outras instituições. E tem sido sempre assim; sempre com mais parceiros envolvidos. Recordo que em 2010, por exemplo, a Força Aérea Portuguesa efetuou o transporte de brinquedos para as nossas ilhas.

Cobre apenas o território nacional?
Não. Também já enviamos brinquedos adaptados para a Associação Operação Criança Feliz em Mindelo, S. Vicente, Cabo Verde.
Aliás, temos um protocolo com a Associação Acarinhar, de Cabo Verde, que estipula formas de cooperação na área da educação especial. Estamos vocacionados a cooperar com os PALOP.

“Todas as crianças têm o direito de brincar”.Está escrito na Declaração das Nações Unidas dos Direitos da Criança. Brincar é mesmo um assunto muito sério?
Claro! Brincar é fundamental para o bom desenvolvimento de uma criança. Acontecem muitas coisas positivas enquanto se brinca; brincar ajuda-nos, a todos, crianças e adultos, a descobrir novas potencialidades, novos modos de olhar, de interagir. Desenvolvem-se os níveis cognitivo, psicomotor e afetivo.

E foi a pensar em todos esses benefícios que se procurou e procura adaptar os brinquedos às crianças especiais?
Também. Porque as crianças especiais são confrontadas com obstáculos que as impossibilitam de usufruir destes momentos. Com o objetivo de os contornar e ultrapassar, o Centro de Recursos para a Inclusão Digital procurou dar o seu contributo e daí a Campanha “Mil Brinquedos Mil Sorrisos” que tem vindo a crescer e a merecer a atenção de muitas pessoas e entidades. A apresentadora Fátima Lopes é nossa madrinha e tem-nos ajudado muito na divulgação.

E como se processa a recolha e adaptação de brinquedos? Qualquer pessoa pode doar um brinquedo?
Sim. Mas esse brinquedo tem de ter a particularidade de ter um sistema eletrónico simples, para que possam ser transformados em brinquedos a serem utilizados por crianças com necessidades especiais.

E quem faz essa adaptação?
Os estudantes, professores e voluntários do Departamento de Engenharia Eletrotécnica da Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Leiria. Consiste na adaptação do circuito de alimentação de cada brinquedo, de modo a que possa ser utilizado a partir de um interruptor externo que aciona o seu funcionamento.

Para além de adaptarem brinquedos, que outras adaptações fazem mais?
Esta nossa vocação nasceu de estarmos atentos e de darmos o nosso contributo para o desenvolvimento e ocupação de cidadãos com necessidades especiais, por isso saliento o apoio que damos na adaptação de equipamento técnico, como por exemplo, ratos adaptados, software para cegos ou pessoas com baixa visão, ou para surdos, computadores adaptados às múltiplas dificuldades que nos são apresentadas.

Nomeadamente teclados de computador?
Sim. Teclados especiais, como aquele. Chamam-se teclados de conceito. Imagine alguém com dificuldades de motricidade. Com este teclado, ao clicar numa tecla pode escrever de imediato www ou .pt ou .com; são teclas que copiam ou imprimem como resposta a um simples clique, facilitando o uso do computador.

Sim. Reparo que esta sala tem equipamento diferente.
É verdade. Porque as pessoas que aqui recebemos também são diferentes. Crianças e adultos. Estes dispositivos, por exemplo, são diferentes e servem para aceder e ativar determinado mecanismo, desde o computador aos brinquedos de que já falamos. Podem ser acionados com as mãos, pés ou com outra parte do corpo. O seu formato é adaptado ao modo como é usado.

E para outros tipos de dificuldade?
Temos écrans tácteis, por exemplo, e digitalizadores de voz que têm por base uma linguagem simbólica. É a linguagem SPC (Símbolos Pictográficos para a Comunicação), desenvolvida por um programa designado por bordmaker.

Este livro que me mostrou, por exemplo, “Todos Diferentes, Todos Animais”, tem uma versão SPC?
Sim, adaptada por mim. É uma história da autoria de Liliana Gonçalves com ilustrações de Leonel Brites. Trata-se de um livro multiformato se abriu a novos leitores e a novas leituras, pois também está disponível nas versões audiolivro e videolivro com interpretação em língua gestual portuguesa.
O livro impresso é composto pela história original e pela mesma em versão pictográfica, resultante do apoio da Fundação Caixa Agrícola de Leiria e do Instituto Politécnico de Leiria. A obra é, ainda, apresentada em braille e relevo, transformando-a assim num instrumento inclusivo e essencial para desenvolver atividades de leitura com crianças com necessidades educativas especiais ou com crianças em idade pré-escolar e escolar.

Célia Sousa

O sistema SPC é o mesmo que Comunicação Aumentativa?
Não. Mas também é um tipo de comunicação que recorre à utilização de símbolos em vez de palavras, facilitando a leitura ao público em geral e de uma forma particular àqueles que têm grandes dificuldade na leitura. Esta técnica vem sendo explorada com imenso sucesso, tendo-se chegado a um sistema internacional de símbolos, à semelhança dos que utilizamos diariamente no trânsito. A população autista, por exemplo, recorre muitas vezes à Comunicação Aumentativa para interagir.

Para além de fazer estas adaptações de histórias, também as escreve?
Sempre gostei muito de escrever. E gosto. É das atividades de que mais gosto. Sentar-me e escrever uma história deixa-me sempre muito feliz.

Quando era criança queria ser escritora?
Não! Quando me perguntavam o que é que eu queria ser eu respondia que queria ganhar o Prémio Nobel. [risos]. Imagine! De certa forma para mim, fazer o bem, fazer coisas boas era uma profissão…

Ainda não ganhou o Prémio Nobel, mas organiza a Gala da Inclusão, que distribui muitos galardões a quem faz o bem em prol da inclusão. Já lá vamos. Agora quer falar-nos de "O Verdinho Sonhador"?
Foi uma história que escrevi para ajudar a Cruz Vermelha. Aliás, a receita proveniente do livro reverte a favor desta organização. Conto a história de um carro que tem um grande sonho e com o apoio dos seus amigos de quatro rodas e com muita força de vontade, o Verdinho (assim se chama o veículo) mostra-nos que tudo é possível, mesmo a concretização do mais improvável dos sonhos…

Organiza a Gala da Inclusão, já na sua sexta edição consecutiva. Tem sido um evento bem acolhido?
Extraordinariamente bem recebido, quer por parceiros, quer por toda a comunidade. A Gala da Inclusão assume-se como uma causa que é de todos, tendo como objetivo consciencializar a população em geral, para a necessidade e importância da plena integração da pessoa com deficiência na sociedade. [Ver caixa]

Quer falar-nos um pouco do Projeto de Leitura Inclusiva Partilhada (PLIP)?
O PLIP visa dar vida a livros que se encontram nas estantes das bibliotecas, oferecendo-os a novos leitores. Neste projeto adaptam-se obras originais ou já publicadas para que públicos com necessidades específicas possam chegar a elas através de versões em novos formatos: Livros em braille e em alto-relevo  (para pessoas cegas ou com baixa visão); audiolivros (para quem prefere ouvir); vídeo-livros em língua gestual portuguesa (para os surdos) e em formatos adaptados – pictogramas e versões simplificadas (para pessoas com incapacidade intelectual ou limitações de outra natureza).

Estive no sítio do PLIP e dei conta que os “KITS PLIP” se apresentam em ficheiros em formato eletrónico de fácil acesso.

Sim. Só é necessário um registo e a utilização é gratuita. Os kits criados trazem o cunho das equipas que neles trabalharam e refletem as competências – profissionais ou amadoras – de quem voluntariamente dá de si para que outros possam chegar à leitura. Mais importante do que a qualidade técnica dos materiais produzidos é a fidelidade aos autores e aos livros que lhes deram origem e o respeito pelos novos leitores que só assim os poderão passar a ler. Assim, foi a pensar nos leitores com necessidades específicas que o PLIP surge, incluindo pessoas com incapacidade ou necessidades especiais, para que todos possam ler, estimulando a partilha de experiências; desenvolvendo uma cidadania participada e partilhando boas práticas.

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