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FOCUSSOCIAL

Padre Jardim Moreira - Presidente da EAPN Portugal

“Não se consegue ser feliz vivendo subjugado, na procura da sobrevivência”

por Marta Vaz
Fotografia: Sérgio Aires

É, desde1991, altura em que a EAPN (Rede Europeia Anti-Pobreza, traduzindo as siglas do inglês) foi fundada em Portugal, o timoneiro desta organização não-governamental que tem por missão lutar contra a pobreza e a exclusão social. Uma luta que lhe assenta como uma luva dada a sua longínqua vocação para fazer do mundo um lugar mais justo e equitativo. Também pela via da fé. E sem desanimar. Aos 75 anos, o Padre Jardim Moreira, dono de uma vitalidade ímpar, não baixa os braços nem se sente desiludido com o seu combate. Homem de intuições, foi ainda criança que se sentiu chamado para a vida eclesiástica onde está com profunda convicção e sentido de missão, não dissociando a sua ação social da sua ação pastoral. No seu entender tudo se urdiu para ser um padre interventivo, afincado na luta contra a pobreza que desde cedo o motivou. Mas remete para a ordem do inexplicável o apelo que sentiu, ainda criança, para o sacerdócio. 
Recorda como se fosse hoje. Foi ter com a mãe, nas lides do linho, na sala, e disse-lhe que queria ser padre. Assim, sem mais, numa idade de outros sonhos e desejos. Recorda tudo com tamanha nitidez que se lembra, até, dos objetos em volta. Da lançadeira, por exemplo, esse utensílio em forma de barco em que anda a canela do fio da urdidura. “Acredito na voz silenciosa e misteriosa que me ilumina. É difícil exprimir o que ultrapassa a lógica”, diz, olhos postos dentro de si, tão convictamente, que nos leva a admitir, sem vacilo, esses enigmas mudos que a vida tem. E a fazer leituras menos óbvias, interpretando sinais, implícitos naquele cenário da infância, tão pleno de significado. Uma mãe a urdir linho; um filho, menino, ainda, a auspiciar o seu futuro. Quem conhece a história, como não rememorar Santa Isabel da Hungria, tantas vezes representada com uma roca, por tecer roupas para os pobres? Ou então, aludir à carga simbólica da própria tecelagem, nomeadamente na tradição islâmica, onde representa a estrutura e o movimento do universo, trabalho de criação passível de traduzir uma anatomia misteriosa do homem. De qualquer modo, a profecia inocente concretizou-se. O então menino Agostinho Cesário foi ordenado padre no dia 15 de Agosto de 1966. Pároco das freguesias da Vitória, de S. Nicolau e da Irmandade das Almas de S. João das Taipas, no Porto, reitor da Igreja de S. João Novo, o seu trabalho pastoral e social é amplamente reconhecido. Está de pedra e cal, desde sempre, do lado dos mais desfavorecidos, empenhado até ao tutano na defesa dos seus direitos e da sua dignidade. Presidir à EAPN Portugal, Rede Europeia Anti Pobreza, foi mais um desígnio da sua vida que voltava a aceitar com serenidade e a certeza de que é possível erradicar a pobreza do mundo. Apesar de não ser uma luta fácil, “hoje, como no passado, não nos falta nem faltará coragem, persistência e determinação”, assegura Jardim Moreira, acrescentando que “a luta contra a pobreza só interessa pelas pessoas; lutar por uma ideologia não importa. Nós não lutamos contra os outros, lutamos pelos outros. É por isso que, muitas vezes, as políticas não funcionam. As pessoas, a sua dignidade, tem de ser colocada à frente, a união tem de ser feita em torno do ser humano, da sua unicidade enquanto pessoa”.
Para além de ser um homem de fé, mas não um mero “funcionário do templo” acredita que “ninguém pode usar o poder que não seja para servir os outros e não para se servir. O poder tem de ser usado para combater a infelicidade injusta das pessoas. Vejo a realidade perigosa. Mas sou otimista porque tenho fé e acredito num mundo de amor e não em marionetas de falsa felicidade”.
A FOCUSSOCIAL dá-lhe a conhecer um pouco mais do Padre Jardim Moreira, homem de valores, carácter, persistência mas também dono de “uma santa ousadia. Porque se a ousadia não fosse fundada em Deus era loucura”.

De resto, defende a igreja pobre do Pacto das Catacumbas onde se defende que os padres devem viver um estilo de vida simples e exercer o seu ministério pastoral de acordo com critérios evangélicos. E, na senda de Tiago, o apóstolo, acredita que “fé sem obras é morta”. Fiquemos então a conhecer um pouco mais da sua personalidade forte e coerente ao ponto de – é só uma imagem – não precisar de se paramentar para ser quem é. E defeitos? Também os admite. “Tenho as minhas limitações e, com a idade, as físicas aumentam. Mas temos de ter a humildade de gostar de quem somos”. 

O que mais o impressionou na sua infância/adolescência?

Eu nasci em plena guerra (1941). Vivi de forma inconsciente o racionamento, pois pertencia a uma família abastada média mas, de um modo ou de outro, sempre dei conta de quanto os outros sofriam. As imagens desses períodos da minha vida surgem-me muito nítidas, apesar de me recordar de episódios soltos. Por exemplo, relembro bem a visita semanal que os mais pobres nos faziam e era eu, não sei porquê, quem tinha o encargo de os atender. E era uma alegria. Mas, naturalmente, desde cedo fiquei com uma visão muito acentuada das assimetrias sociais, do quanto havia pessoas necessitadas. Naquela altura vivia-se precariamente. Lembro-me de, quando dávamos batatas, uma senhora que ia lá a casa com frequência, nem sequer tinha saco para as levar! As pessoas, nessa altura, muitas delas, trabalhavam a troco de refeições. Lembro-me de a minha avó, pela matança do porco, distribuir carne pelos mais carenciados. Isto para dizer que sou de uma família atenta ao próximo e dada a ajudar quem precisa. Pelo exemplo, dei conta muito cedo de que é necessário viver com um forte sentido de partilha.

Então essa vontade de lutar contra a pobreza nasceu muito cedo, também?
Sim. Podemos fazer essa leitura. Por outro lado, deu-se a feliz coincidência de o Padre Américo ser visita frequente da família e de, mais tarde, entrar neste circuito o Frei Gil e de eu andar muito com os miúdos de rua, de os visitar e, até, de entre eles, fazer algumas amizades. E com este episódio vivi uma experiência marcante: o de ser tratado como gaiato. E nunca mais esqueci essa lição e esse sentimento de ser tratado por pena. Ser tratado por pena, acreditem, é humilhante. Porque o que dignifica uma relação, esta coisa de nos darmos a alguém e com alguém é a partilha, o amor, a igualdade.

E a sua vocação sacerdotal germinou por essa altura?

Mais cedo, até. Lembro-me de a minha mãe estar na sala, nas lides do linho. Lembro-me da cesta, da lançadeira, da caneleira… Eu teria 7 anos. Fui ter com ela e disse-lhe que queria ser abade. Pertence à ordem do inexplicável. Sinto que foi um chamamento, pois cedo percebi esta minha vocação da qual nunca me desviei. Sinto que encerra em si carácter, valores, uma espécie de ADN que nada tem a ver com uma simples decisão. É algo mais transcendente… é um conduzir no caminho da providência, no caminho de ser padre no amor à humanidade; ao serviço da dignidade humana e não apenas um funcionário do templo.

De resto, defende a igreja pobre do Pacto das Catacumbas onde se defende que os padres devem viver um estilo de vida simples e exercer o seu ministério pastoral de acordo com critérios evangélicos. E, na senda de Tiago, o apóstolo, acredita que “fé sem obras é morta”. Fiquemos então a conhecer um pouco mais da sua personalidade forte e coerente ao ponto de – é só uma imagem – não precisar de se paramentar para ser quem é. E defeitos? Também os admite. “Tenho as minhas limitações e, com a idade, as físicas aumentam. Mas temos de ter a humildade de gostar de quem somos”. 

Então estaria mesmo fora de questão ser outra coisa?
Voltava a entrar neste caminho, com as mesmas forças e luzes e apoios que tive. Aquilo que uma pessoa pode fazer neste mundo, eu tive a oportunidade de o fazer… de o estar a fazer: ter uma ação transformadora da sociedade e refiro-me tanto à ação pastoral como à ação social. Não as dissocio.

E o que o que lhe norteia a ação?

Os valores, o carácter, a persistência mas também uma santa ousadia. Porque se a ousadia não fosse fundada em Deus era loucura.

É homem de fazer planos?
Não propriamente. Digamos que o grande plano é o projeto de fidelidade à sabedoria que me vai guiando…

É intuitivo, então?

Acredito na voz silenciosa e misteriosa que me ilumina. É difícil exprimir o que ultrapassa a lógica…

Mas enfrenta, como toda a gente, problemas reais. Como tende a resolve-los?

Quando tenho de ultrapassar problemas difíceis, reconheço essa minha inaptidão, confio em Deus e Ele resolve. O certo é que quando reconheço essa incapacidade, Deus intervém de modo inesperado e insuspeito. Acontece muitas vezes quando os problemas são mais graves.

Preside há 25 anos à EAPN Portugal. Está como timoneiro desde a sua fundação. Qual é o balanço?

Assumir esta função tornou-se a oportunidade de eu poder ser mais interventivo, de atuar numa esfera social que me é particularmente tocante. A semente dessa preocupação social, dessa vontade de intervir, já estava na primeira infância. Podia ter sido um tempo mais curto e menos ambicioso, mas acredito que a luta contra a pobreza e a exclusão social necessitam de persistência, de um acreditar fundo, da ambição certa, e nesta área, não pode ser pouca.
25 anos de trabalho nesta empreitada possibilitaram, com inteira liberdade, alegria, sem medo e com esperança lutar pelas pessoas mais desfavorecidas, dignificando-as. Sim, porque esta é uma luta pela dignificação da pessoa humana e a EAPN Portugal reúne as condições necessárias para atingir esse objetivo, ainda que por vezes muito mais pela gestão de obstáculos do que de libertações.
A EAPN Portugal, em todo este tempo, já deu provas, pelo trabalho que desenvolve em diversas frentes, ser capaz de dar um contributo fundamental para a erradicação da pobreza e da exclusão. Parece-me evidente que o poder só é reconhecido quando nos empenhamos em servir gratuitamente a causa humana, prestando um serviço amoroso à humanidade.

O poder em que sentido?
O poder de uma organização como esta, em que as únicas pessoas remuneradas são os técnicos que nela trabalham. De resto eu e toda a direção, bem como os coordenadores distritais e outros, damos o nosso tempo, o nosso trabalho e o nosso empenho de forma voluntária, sem obter qualquer remuneração.
E depois, também, a minha relação com o poder. Sou frontal e destemido. Acredito que ninguém pode usar o poder que não seja para servir os outros e não para se servir. O poder tem de ser usado para combater a infelicidade injusta das pessoas.

O que diferencia esta de outras organizações similares?
Somos das organizações mais antigas no contexto das organizações representativas do sector social existentes em Portugal. Surgimos em 1991, como uma organização pioneira, posicionando-nos na defesa de um modelo alternativo de sociedade e ambicionando a construção de uma sociedade mais democrática e mais justa, utilizando para isso “novos” instrumentos de trabalho como a informação, a formação, a investigação e o lobby. Evocando por um lado, a necessidade de atualizar e aprofundar permanentemente os conhecimentos sobre uma realidade em constante mudança; situando a problemática da pobreza ao nível dos Direitos Humanos e pugnando pela operacionalização de políticas e medidas de combate à pobreza, tendo por base uma perspetiva emancipatória e de direitos. Por outro lado, a dimensão europeia, sempre nos distinguiu e muito contribuiu para afirmar a presença e o dinamismo na nossa sociedade, fazendo a ponte entre o espaço social europeu e o português.

Confesse, não se sente cansado? A luta contra a pobreza é uma luta muitíssimo desgastante e, aparentemente, pelo menos, sem fim à vista…

Não. De forma nenhuma. Hoje, como no passado, não nos falta nem faltará coragem, persistência e determinação.
Sabemos bem que não é fácil, mas a nossa missão é estruturada, sabemos como atuar e por quem estamos a atuar. Trata-se, mais uma vez, da dignidade do ser humano.
Não pode haver quebra no ciclo vicioso da pobreza e da desigualdade sem mudanças nas relações e nas formas de inclusão na sociedade. Exclusão e inclusão são partes da mesma lógica. É essa lógica que deve ser rompida. A exclusão e a desigualdade materializam-se em seres humanos concretos, em mulheres e homens, crianças, jovens ou idosos. São os que sofrem, passam fome, vivem na miséria, são discriminados e desprezados, não têm acesso aos direitos fundamentais, sãodestituídos de qualquer poder e possibilidade de participação.
Apesar das dificuldades, é importante reconhecer que foram dados passos importantes no desenvolvimento do bem-estar e da proteção social dos cidadãos – europeus e portugueses. A história da luta contra a pobreza tem sido feita de luzes e de sombras. Continuamos a acreditar que outro paradigma é possível. Aliás, não só é possível, como é inevitável.

Então acredita, sem dúvida, que é possível erradicar a pobreza?
A pobreza é consequência de vários fatores. O Homem por si só é imperfeito; pensar no Homem perfeito é uma utopia. Acredito que o caminho do ser humano, liberto de tudo, é a realização do sonho e o sonho é caminharmos no sentido de erradicar a pobreza; este esforço tem de ser feito ativamente, de forma concertada, inteligente e justa.
A evolução e o conhecimento humano são uma constante e temos de pensar o Homem na dimensão do que o ser humano é e o que pode e deve ser. Ou seja, temos de redimensionar alguns conceitos e trabalhar outros de modo a que não se isolem em determinada categoria. Temos de trabalhar convictamente na promoção integral de todo o ser humano e na sua efetiva dignificação.
É um trabalho multidimensional na busca de efetivar a relação com o Outro, permitindo o amar livremente, porque não se consegue ser feliz vivendo subjugado, na procura da sobrevivência.
Diria que hoje a EAPN Portugal precisa de se empenhar, ainda mais, na luta incansável pela saúde global das pessoas, atuando em múltiplas vertentes. Quando digo saúde refiro-me à saúde em sentido lato. A falta de dinheiro, emprego, família – veja, a família é um pilar importantíssimo, quem não tem família é pobre; se a família não é estruturada a pobreza galga outras fronteiras, outras dimensões.
A luta contra a pobreza só interessa pelas pessoas; lutar por uma ideologia não importa. Nós não lutamos contra os outros, lutamos pelos outros. É por isso que, muitas vezes, as políticas não funcionam. As pessoas, a sua dignidade, tem de ser colocada à frente, a união tem de ser feita em torno do ser humano, da sua unicidade enquanto pessoa. A luta de causas isoladas não promove essa dignidade que não podemos deixar minar por egoísmos pessoais ou de grupo ou de fações. Se conseguirmos transformar políticas e seres humanos, ao mesmo tempo, no mesmo tempo, então é possível erradicar a pobreza.

25 anos EAPN

 

É otimista?
Sou realista. E vejo a realidade perigosa. Mas sou otimista porque tenho fé e acredito num mundo de amor e não em marionetas de falsa felicidade.

Como se explica que o Governo ainda não tenha adotado a estratégia nacional de luta contra a pobreza que tanto defendem?

Combater a pobreza nunca foi uma prioridade dos Governos. Essa é a nossa bandeira. Existimos, também, para tentar alterar essa posição e evidenciar o quanto é benéfico e urgente adotar tal estratégia.
Lutamos por mudanças estruturais, sempre difíceis. Ao invés de suavizarmos os problemas sociais a partir de uma perspetiva assistencialista e altruísta (que sendo necessária, não é suficiente), o nosso projeto ético-político passa por reivindicar uma mudança de paradigma da sociedade, alterações profundas nas prioridades estabelecidas em termos do desenvolvimento económico e mudanças na forma de conduzir as políticas, recentrando as prioridades nos indivíduos e não nos mercados. Por outras palavras, “descoisificar” o ser humano. E este é um caminho que necessita de muita persistência e conhecimento.

Mas, mesmo a olho nu, o flagelo da pobreza é tão evidente…

A pobreza é evidente mas a compreensão dos fenómenos de pobreza e da exclusão social não é fácil. Vivemos tempos difíceis, a crise afetou uma parte substancial da economia global tendo reflexos profundos no nosso país, traduzindo-se numa clara inversão do ciclo de diminuição da pobreza e no regresso a uma abordagem marcada pelo assistencialismo e por medidas de emergência social. Foi provocado um recuo inesperado, após várias décadas de vigência de um ideário de inclusão social reconhecido constitucionalmente desde 1976.
E é neste sentido que nos temos debatido pela inscrição do combate à pobreza como objetivo prioritário do programa de qualquer Governo, pelo reforço da cidadania e da participação da sociedade civil, tendo em vista uma melhor governação e o reforço da componente participativa da democracia. A bem de uma boa governação, é fundamental que se inclua na agenda política a erradicação da pobreza e se encontrem os adequados suportes institucionais para fazer valer os direitos humanos e sancionar o seu respetivo incumprimento.

Tem sido simples trabalhar em rede? (essa palavra que nomeia a organização e sugere uma permanente teia de relações)

Não. O trabalho em rede que defendemos e praticamos além de ser uma forma privilegiada para somar forças é, também, uma maneira de trabalhar articulada permitindo garantir uma maior eficácia no trabalho e eficiência nos resultados. Mas não é fácil. Apesar de ser cada vez mais comum falar de “trabalho em rede” e até se ter generalizado a importância das parcerias formais no desenvolvimento de projetos sociais, a verdade é que o alcance daquilo que se pretende com esta forma de organização do trabalho, ainda está longe de ser uma realidade. Temos procurado através de processos intensivos de informação e formação influenciar novas formas de estar e uma nova cultura de intervenção.

Por isso se criaram, em diferentes tempos, os 18 núcleos distritais da EAPN Portugal, para operacionalizar esse trabalho em rede?

Sim. O nosso trabalho não está centrado numa sede (na cidade do Porto); os Núcleos distritais permitem disseminar e alargar a nossa ação a todo o território nacional.  É basilar.

Nestes 25 anos há algum momento que o tenha marcado especialmente?

A postura do coletivo de pessoas que fez e tem feito esta organização.
Opções conjuntas que tomamos em equipa e, por isso, aproveito desde já para agradecer a todas essas individualidades que estiveram nesses momentos decisivos.
Sempre estivemos abertos a todas as participações, parcerias, correlações no sentido de melhorar e de gerar conhecimento para a construção de uma nova ordem social. Fomos tentados por caciques, interesses, podíamos até ter desaparecido. Mas não cedemos. Mantemos a identidade e a independência e fizemos alguns caminhos dolorosos e, de certa forma, ressurgimos mais convictos, ainda mais fieis à nossa missão. Por isso, reitero, nunca aceitamos, para além dos técnicos, que o nosso trabalho não obedecesse a essa gratuitidade que para nós é ponto de honra. Trabalhamos com todos e não estamos reféns de ninguém.

Não acha que o trabalho da EAPN Portugal ainda é pouco conhecido, apesar de, em 2010, ter ganho o Prémio de Direitos Humanos e, mais, não sente que há dificuldade em entender o que fazem?
Talvez. Mas andamos mais preocupados em atuar, centrados na nossa missão, mais do que promover o que andamos a fazer. Por outro lado, quando se trabalha na produção de conhecimento é mais difícil fazer passar a mensagem. Temos grupos de trabalho, por exemplo, pobreza infantil, envelhecimento ativo, ciganos, etc, que estão permanentemente a estudar estes fenómenos para depois a atuação ser feita com conhecimento e não de forma aleatória. A produção de conhecimento é fundamental. Não se pode falar e agir sem fundamento científico. Isto até nos permite desmontar a falsidade de projetos que se apresentam bondosos. É preciso critério e, por exemplo, as regras só se podem aplicar tendo conhecimento da realidade sob a qual se está focado e a pedir intervenção.

Nesta luta, o que mais lhe causa receio?

As políticas desregradas. Empobreceram as pessoas de forma cega. Por isso é necessária a denúncia pela verdade. Temos demonstrado, em muitos momentos, que houve ignorância ou incompetência. Não podemos deixar que distraiam as pessoas com medidas populistas.
E preocupa-me também a desumanização da sociedade. As pessoas morrem abandonadas nos hospitais; os pais não têm tempo para os filhos. Viu em Espanha a greve dos pais aos trabalhos de casa? É preciso viver em família, ter tempo para ela e, no caso das crianças, é, em rigor, fundamental. São mesmo o futuro. Não se pode educar crianças só no sentido de serem as melhores, no sentido de as tornar desmesuradamente competitivas. Tem de se educar para a felicidade verdadeira, a que nos permite sermos livres; não podemos criar estruturas desumanas, que engaiolem a nossa dignidade.

Como projeta, pelo menos, mais 25 anos?
Podem e devem ser a expressão de parcerias privadas e públicas que permitam questionar. Formular questões é muito importante porque reflete atenção e permite estarmos atentos e vigilantes à forma social de viver ou de se viver em sociedade. Temos, como disse, de estar ao serviço do Ser Humano, da sua saúde integral. Temos de fazer ainda mais parcerias transparentes e ativas.
Ao longo destes 25 anos procuramos ser uma organização independente, pluralista, voltada para a defesa dos direitos de cidadania e dos direitos dos mais vulneráveis, atuando no espaço público construindo redes de solidariedade, numa perspetiva progressista e de desenvolvimento humano e o caminho, na sua estrutura, deve continuar por aí, melhorando.

Já disse por diversas vezes, nas suas intervenções públicas, que “a Igreja tem de ser o luzeiro que vai à frente…”

Eu acredito que a Igreja tem de ter um papel exemplar. Tive o privilégio de ter conhecido e falado com Dom Hélder da Câmara, no Concílio Vaticano II, onde a Igreja se comprometeu a ser servidora do Mestre, espírito amoroso de Deus. Se os Homens perdem a confiança em Deus instala-se a escuridão. Rezo para que a Igreja seja esse luzeiro de esperança fundada na fraternidade de um Pai comum. Acredito na igreja do Pacto das Catacumbas, fiel a Jesus Cristo, despojada, servidora e libertadora. Como diz o Papa Francisco, a igreja tem de ser pobre no amor misericordioso de Deus Pai.

25 anos EAPN

 


Faz 75 anos agora em Novembro. Já que não faz planos, quais são os seus sonhos?

Viver neste mundo e fora dele, também. (sorriso) Ficar só por aqui é muito pouco.

Onde vai buscar tanta energia?

À vontade de viver. Esta passagem por aqui é única. A vida só vale a pena ser vivida para fazer alguém feliz. Temos de partilhar a vida e a felicidade que vamos tendo. E, no meu caso, também a partilho com Ele.

Mas isso é porque tem fé. E quem não a tiver?
Que a procure. Que pense a quem devemos a existência, no porquê de estarmos aqui. E vá à luta e procure respostas. No fundo, que haja…que acolha a Deus.

Alia a sua espiritualidade a um grande pragmatismo…
A fé sem obras é inútil. A fé é ativa. A contemplação não se desvincula da ação. Reza e trabalha. São lemas da minha vida, nos quais acredito.

É um homem realizado?

Acho que sim. Nunca me senti frustrado na minha luta pela dignidade do ser humano. Acredito que continuo a dar o meu contributo para uma sociedade fraterna, justa e equitativa.

E defeitos, quais reconhece em si?

Também os possuo e podem até ser motivo de menos sucesso. Tenho as minhas limitações e, com a idade, as físicas aumentam. Mas temos de ter a humildade de gostar de quem somos.

Como gostava de ser lembrado?

Como alguém que lutou pelo bem do próximo e não desanimou.

Gostaria de responder a alguma questão que não lhe coloquei?
Não.

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