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FOCUSSOCIAL

Carla Maia de Almeida, escritora e jornalista, acaba de editar Em Nome da Filha

“A minha casa é a minha escrita”

por Marta Vaz
Fotografias: Egidio Santos

“Alguma coisa surgirá, se eu pensar e esperar um pouco”, lê-se em A Princesinha, livro de Frances Hodgson Burnett. E Carla Maia de Almeida, escritora e jornalista, que o leu na infância e o guardou para todo o sempre, sabe disso muito bem. É mulher de pensamento cavado, de pousio, de ritmos e rituais que desdenham o tempo alucinado e voraz. Silêncios e contemplações são fundamentais na sua escrita, quer seja dirigida a crianças, jovens ou adultos. Quer no registo literário, quer no jornalístico. Dona de uma boa memória sensorial e sinestésica, recorda com facilidade momentos fundadores, instantes catárticos: o local exato onde lhe nasceu uma história; a sensação de abraço retribuído, do outro lado do mundo, deitada num campo da Nova Zelândia; a singular postura corporal de um entrevistado que a tenha marcado; um gesto que contrarie, acentue ou confirme a palavra dita. Atentíssima ao mundo, tudo à sua volta é um terreno em compostagem, fértil e benigno, como o do jardim da casa que sonha e procura. Valoriza o ser em permanente construção; a linguagem simbólica; o inconsciente coletivo e individual; a família tribal e a solidão de “saber estar só”. Aliás, os sítios com muita gente causam-lhe “angústia”, o que não que dizer que não aprecie comunicar. Gosta muito de dar palestras, de interagir, de colocar algo em comum com o Outro.

E tem alma colecionadora. Colige - mas nem sempre expõe - palavras encantadas, como “mansarda”, por exemplo, e guarda imagens, como postais a ilustrarem épocas. Guarda objetos da infância numa mala pequenina, vermelha – a sua mala de escritora –, que às vezes a acompanha às escolas onde a convidam a ir. E conta as histórias livres desses objetos presos a um tempo, carregados de significado.

Tem doze livros publicados, todos dirigidos à infância e juventude, com exceção da reportagem Em Nome da Filha. Considera que Irmão Lobo é a sua obra-prima. Traduzido para diversos idiomas, conta, com luz ao fundo, a história de uma família a desmoronar-se. A boa notícia é que vem aí a sequela. Mais dia, menos dia. Que a água, fluída, elemento presente no final da história, permite abrir caminho com mais facilidade. E Carla Maia de Almeida conhece e respeita o poder do simbólico. E o da água, origem e veículo de toda a vida, não lhe é indiferente. Talvez por isso, o seu olhar humedecido, ora terno, ora acutilante, possa ser o solo líquido da flor de lótus. Como na mitologia egípcia: “um grande lótus saído das águas primordiais, berço do sol na primeira manhã”.

Em Nome da Filha - Retratos de Violência na Intimidade, reportagem que fez para a Fundação Francisco Manuel dos Santos, foi o mote para esta entrevista. O livro reúne testemunhos de mulheres vítimas de violência doméstica, entrevistadas em diversos pontos do país. “Ainda me está colado à pele; estou desejosa de que se me descole. Convocou muito de mim, dos meus valores, do meu percurso pessoal como mulher e como filha. Quando o acabei, nem queria acreditar”. E depois de o lermos, também não queremos acreditar na violência suportada por tantas vidas. Carla Maia de Almeida quis contar a história destas mulheres com justiça, sem lamechice e com rigor. Conseguiu. E deu-lhes dignidade.

Carla Maia de Almeida

Este é um livro bastante duro. Histórias reais, violentíssimas. 
Como foi ouvir estas mulheres?
Em primeiro lugar, gostava de dizer que demorei bastante tempo a escrevê-lo, mais do que a Fundação Francisco Manuel dos Santos gostaria. Não tenho o dom de pensar depressa e bem. Depois, não escondo, este livro teve em mim uma grande repercussão interior. Foi um trabalho jornalístico bastante difícil; e do ponto de vista emocional, o mais difícil que fiz. Ouvir estas mulheres, olhos nos olhos, teve um impacto atroz, com consequências a diversos níveis. Cheguei, inclusivamente, a somatizar o processo de escrita. Nunca contei isto publicamente: eu estava muito envolvida com este trabalho, muito mesmo, e, a dado momento, tinha uma entrevista marcada numa instituição. Na noite anterior, ao sair do meu quarto, fui contra a esquina de uma porta e magoei-me bastante. Sangrei muito, fiquei visivelmente pisada. De manhã, não estava em condições de sair de casa. Telefonei a dizer que não podia comparecer. Compreenderam. Quando consegui sair, coloquei base, disfarcei, saí de óculos escuros. Enquanto caminhava, sentia-me como uma mulher agredida. Foi muito estranho, mas aconteceu. Eu acredito muito na linguagem do corpo.

Foi difícil chegar a estas mulheres?
Segui a via institucional. A APAV, o que achei extraordinário para uma instituição tão comprometida com o combate à violência, não quis colaborar, dizendo-me que naquele momento não tinha disponibilidade. Também não aprecio o rosto público da APAV e não digo isto por impressão subjetiva. Mas, à semelhança de outras instituições, não colaborou. Daí ter começado pelo topo. Contactei a então Secretária de Estado dos Assuntos Parlamentares e da Igualdade, Teresa Morais, através de um formulário do site do Governo. A resposta foi incrivelmente rápida e, depois, encaminharam-me para a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género. Através do Núcleo de Prevenção da Violência Doméstica e da Violência de Género, cheguei às casas de abrigo. De seguida, enviei para todas as casas de abrigo um e-mail a explicar o projeto, a garantir o anonimato das mulheres que quisessem falar e a asseverar que não seriam recolhidas imagens. Enviei também uma lista de critérios: mulheres de todo o país, mulheres de diferentes idades, mulheres que sofreram violência no namoro, mulheres que só após o casamento foram maltratadas... Obtive muitas respostas, mais do que esperava, fiz a minha seleção e fui para o terreno.

Começou por onde?
Numa cidade do interior do país, onde consegui falar com três pessoas. E, logo ali, o testemunho destas mulheres foi de um enorme impacto. Eu não estava minimamente preparada para aquilo que ouvi, foi logo a minha primeira conclusão. Ouvi duas mulheres jovens e uma mais velha. Uma dessas histórias acabou por não entrar no livro, pois não se tratava de violência doméstica, mas de alguém que não conseguia manter um relacionamento funcional. Em comparação com os outros relatos, havia ali um desvio de significado. No final das entrevistas, meti-me no carro e chorei largos minutos. Depois, antes de arrancar, telefonei a um amigo com quem desabafei e que me amparou nos primeiros golpes. Mas percebi logo que não podia voltar a fazer aquilo, até porque não sou muito de precisar de palmadinhas nas costas para continuar. Mas não estava mesmo preparada para ouvir a brutalidade das histórias que me foram confiadas.

Mas o que lhe doeu mais?
A injustiça imposta àquelas mulheres. A aleatoriedade de decisões pessoais que, muitas vezes, levam a becos sem saída e a armadilhas. A fragilidade económica em que essas mulheres se encontram e que é comum a todos os casos, transversal a todas as situações. E, ainda, a culpa ancestral que parece ser carregada por todas. Se não há comida feita ou para fazer, se a criança cai, se a criança chora… A culpa é sempre das mulheres. E também me doeu a consciência que cada uma tinha da crueza da sua própria situação. É como estar permanentemente voltada para um muro; o muro a arranhar-nos a cara e uma pessoa não consegue sair dali. De repente, eu, que tenho a liberdade como um valor fundamental, ver-me no lugar daquelas mulheres, arrasou-me. São colocadas em casas de abrigo distantes da sua geografia familiar e da do agressor, na companhia de outras mulheres igualmente agredidas, acompanhadas dos seus filhos. Vive-se um clima turbulento, apesar dos esforços dos técnicos, cujo trabalho fiquei a admirar. Não é um ambiente natural. Marca-nos.

E, mesmo assim, é melhor do que estar na própria casa.
Sim. Pelo menos, estão em segurança, vivem essa sensação, apesar de nem sempre ser assim tão líquido. Muitas vezes, têm de mudar de casa de abrigo porque são perseguidas pelo agressor.


Todas as mulheres entrevistadas tinham filhos?

Sim. Algumas mais do que um.

E no comportamento do agressor, percebeu traços comuns?

O narcisismo, o egoísmo, a manipulação e uma predisposição para o conflito, que facilmente dispara para a violência física ou verbal. 

E as crianças, filhas de vítimas e de agressores? A dado momento, na introdução, diz: “São crianças, percebem tudo”.
As crianças acabam sempre por sofrer de muitas formas. Às vezes são usadas como justificação para as mães permanecerem na situação de vítima; outras vezes, são a força e o pretexto para elas romperem com a situação de violência. Muitas vezes, só quando as mulheres percepcionam que a vida dos filhos também corre riscos, é que tomam a decisão dificílima de abandonar a sua casa. Por outro lado, ouvi relatos de mães com filhos pré-adolescentes que as apoiaram na decisão de sair de casa; e outros filhos que fizeram pressão psicológica para que elas regressassem, mesmo sabendo da violência vivida em casa.

E depois do impacto contundente desse primeiro dia?

Segui caminho. Fui a mais três casas de abrigo, noutros pontos do país. Fiz mais entrevistas e organizei-as por ordem cronológica. A primeira história da segunda parte da reportagem corresponde à primeira entrevista que fiz. Recordo-me de ter chegado a essa primeira cidade do interior e de ter perguntado a um velhote onde ficava a instituição «x», e ele respondeu-me: «Mas a senhora anda à procura da casa das raparigas… coiso?» Contei isso no livro, oestigma social destas mulheres que não têm nome, que são seres em transição. Depois, fui encadeando as histórias. Procurei pontos de referência comuns e fui tecendo o meu trabalho, fazendo a reportagem fluir. Todos os depoimentos foram brutais. E foi muito difícil transcrevê-los, deter-me, organizar o meu pensamento e escrever. Voltei a chorar muito. Fiz pausas, recompus-me, avancei. Perguntei-me, muitas vezes: como é que eu vou escrever isto?

Mas de todos os relatos, houve algum que a tivesse impressionado mais?
Impressionaram-me todos. No entanto, há um caso, o da Fátima (nome fictício), que me sensibilizou muito. Tinha um ar muito envelhecido e o corpo dela parecia o seu próprio esconderijo. Numa reportagem, observar a linguagem corporal é importante e, no caso, estava em absoluta consonância com a expressão verbal. Lembro-me de, ao escrever, me recordar de tudo isto e de o corporizar, de alguma forma, pois tenho uma grande memória sinestésica. Talvez por isso tenha, também, tomado as “dores do outro”, como se costuma dizer. O certo é que a situação da Fátima me marcou. Como me marcou o de uma senhora mais velha, de uma delicadeza incrível, que aguentou uma vida inteira de agressões. Ou o caso de uma jovem que me mostrou, no telemóvel, a fotografia dela, agredida na cara, e que não tinha consciência disso. Dizia-me: «Eu não sei se sou vítima de violência doméstica, mas, para estar aqui, é porque sou.» Isto é a negação, acontece muito com as vítimas de violência doméstica. É a dissonância cognitiva, algo que não está a ser entendido conforme a realidade vivida.

Mas o que lhe pareceu toldar essa visão? Vislumbra-se amor, em algum momento?
O amor…(pausa) Não. Eu não posso acreditar, de acordo com os meus valores, que o amor passe por aqui. Não concebo que uma relação amorosa sadia comporte controlo e violência exercida conscientemente sobre o outro. Uma das dúvidas que assalta as pessoas que estão de fora é «mas será que eles tem consciência?» Há uma tendência para ver o agressor como um maluco, um inimputável, mas o facto é que os casos patológicos ocupam um espaço mínimo. Friso que não sou nem pretendo falar como especialista na matéria. Mas percebi que a visão dessas mulheres está toldada porque se habituam a padrões de comportamento completamente disfuncionais e normalizam situações que, de normal, não têm nada. Contaram-me o caso de uma senhora que telefonou para a Comissão da Igualdade de Género a dizer que o marido, propositadamente, não a deixava dormir, e que estava muito preocupada porque podia vir a tornar-se uma vítima de violência doméstica. Quer dizer, a senhora já estava a ser vítima de uma das maiores torturas que se podem infligir a um ser humano e ainda não estava consciente disso.

Essa falta de consciência deve-se ao medo?

Deve-se a diversos fatores. Estes processos, apesar de individuais, têm padrões comuns. A armadilha emocional é montada e é tudo muito rápido. Nós temos tendência a repetir padrões e o que acontece é que há muitas mulheres a caírem reiteradamente em situações de violência doméstica e precisam de ajuda para quebrar esse ciclo. Há muito medo do agressor, e com toda a razão, mas há também muita solidão, muita falta de rede comunitária, institucional e familiar.

Carla Maia de Almeida



É um fenómeno que atinge todas as idades.
É verdade. Mulheres de todas as idades são vítimas de violência doméstica. Já há novos números, mas não diferem muito. Mais de metade das mulheres tem entre 25 e 54 anos. A percentagem mais elevada acontece na faixa etária dos 18 aos 24 anos. São 91%. É preciso uma atuação imediata, para que estas jovens mulheres, aos quarenta e tal anos, não estejam a repetir o padrão.

Ainda há pouco tempo saiu um estudo sobre violência no namoro…

É assustador. Miúdos com 15, 16 anos, que ainda pensam como há 50 anos. Assisti há dias ao caso de um rapaz de 19 anos que tem uma namorada que estuda e é modelo, e que à hora da refeição disse à família: «Eu não gosto que mexam naquilo que é meu.» E eu perguntei-lhe: «Mas a tua namorada é propriedade tua? É tua, como? Como uma t-shirt?». Parecem situações inofensivas, mas encerram um sentido de posse do outro que está moralmente errado, que é disfuncional. E muitos não dizem que pensam assim e só não pisam mais o risco por medo do julgamento dos seus pares, da família, da sociedade. E, atenção, isto não é diabolizar os homens; é ver que a sociedade ainda está organizada de forma a pô-los no centro do mundo, e quando são ligeiramente desviados, sentem-se ofendidíssimos. O homem ainda ocupa o lugar cimeiro, o plano central e, apesar de múltiplos esforços no sentido da igualdade de género, ainda estamos longe de uma sociedade justa e igualitária.

Sim. Refere que uma verdadeira mudança de mentalidades já não é para o seu/nosso tempo. Mas o que defende que façamos, agora?
Este trabalho de mudança de mentalidades tem de ser feito no pré-escolar, desde cedo, desde já. Não é falar de violência doméstica a crianças de três ou quatro anos, claro. Mas é falar-lhes de igualdade de género. É educar, desde logo, para os valores de uma sociedade justa onde não há lugar para diferenças do tipo «este é um trabalho para a menina e este é um trabalho para o menino». A escola tem de mudar os curricula e já está a fazê-lo, creio. Começando por aí, será mais fácil, mas o núcleo familiar tem de acompanhar, tem de estar sensibilizado para estas questões. O mundo ainda é muito binário: cor-de-rosa e azul; livros para princesas e livros para aventureiros; bonecas para meninas, carrinhos para meninos. Temos de caminhar no sentido de fazer da escola um inquestionável espaço de cidadania e igualdade. E da família também. Isto seria o desejável. Temos de começar o quanto antes, em nome de um futuro mais justo para todos. Porque ainda não estamos a viver numa sociedade que favoreça a autonomia e o livre pensamento – e para começar, tem de ser pelo início, pela semente.

E depois da pré-escola ir por aí fora, até atualizar todo o sistema educativo…
Evidentemente. Temos um sistema educativo absolutamente serôdio, decalcado do século XIX. As crianças e os adolescentes ainda decoram coisas em vez de as compreenderem. E aqui o professor tem de ter consciência do seu papel fundador na autovalorização de uma criança, na formação da sua consciência enquanto indivíduo, enquanto ser para si e ser para o mundo. As mentalidades não podem continuar a ser formatadas e a escola tem um papel fundamental nesta mudança, bem como a família. Nunca as podemos dissociar. A família e a escola, em sintonia, são uma dupla imprescindível na formação de cada criança. Pareceu-me que as coisas já estiveram melhores, mas depois a crise instalou-se e as pessoas tiveram de acionar mecanismos de sobrevivência. E estas mudanças não podem ser feitas em sociedades precárias, que não podem dar prioridade ao essencial – e a educação é essencial.

Dados da OMS, cita no seu livro, dizem que, no futuro, uma em cada três mulheres será vítima de agressões físicas, psicológicas, sexuais pelo simples facto de ser mulher.

Já estão a ser vítimas. Mas isso significa, também, que vivemos uma época em que não há grande respeito pelo Direitos Humanos. Assistimos a atrocidades alucinantes e à sua banalização, e a violência de todos os tipos afeta sempre, e em primeiro lugar, os mais vulneráveis: crianças e mulheres. E volto a referir que a mudança é lenta, a viragem é difícil mas não se pode baixar os braços, desmobilizar. Os saltos de mentalidade são vagarosos mas são possíveis. Nos anos sessenta do século vinte, por exemplo, os aborígenes eram considerados parte da fauna e da flora australiana… Não foi assim há tanto tempo…

E a legislação portuguesa em matéria de violência doméstica?

Ao que dizem, é muito avançada. Mas depois se não há meios para a fazer cumprir… e se há formas de a boicotar…enfim... O problema da violência doméstica é muito complexo, tem muitas frentes. É claro que temos de tratar, no imediato, da segurança física destas mulheres, mas é necessário articular todo um sistema de processos distintos com diferentes instituições. 

Em Nome da Filha será apresentado no Porto?
Creio que não. Nos últimos anos houve uma modificação dos hábitos culturais. Não sei se é por tédio, preguiça ou cansaço, mas esta prática dos lançamentos de livros acabou por se tornar um problema, tanto para quem lança o livro como para quem vai ao lançamento. As pessoas já não estão tão disponíveis. Ou porque lhes falta curiosidade, ou paciência ou tempo, já não é tão comum juntar meia centena de pessoas num auditório para apresentar um livro. Por isso, marcar apresentações para sermos preteridos por um dia de sol, por exemplo, é um tanto desmotivante. Já não há a sede de uma pessoa sair de casa para estar ali, numa troca de conhecimento pelo conhecimento. E isso entristece-me um pouco. Não o digo como forma de censura; é apenas uma ponderação. E, ponderando, decidi inverter o processo. Eu estou disponível para falar do livro. As instituições, caso encontrem interesse no tema, podem convidar-me no sentido de se proporcionar um debate interessante. Logo após o livro ter sido apresentado em Lisboa, fui convidada por uma instituição particular de solidariedade social de Miranda do Corvo, e correu muito bem. 

Enquanto escritora, tem na família um tema literário forte, transversal aos seus livros. Comecemos por Irmão Lobo, a história de uma família disfuncional. Um livro comovente e libertador, a meu ver. Triste, mas com uma luz ao fundo…

É um livro que suscita reações díspares, sobretudo pelo final. Há quem diga que o final é demasiado duro e dramático, e há quem não o entenda assim. Claro que depende do grau de maturidade leitora, mas eu quis evocar a capacidade de mudança de cada indivíduo. Não é por acaso que há ali uma saída, pela via da água – a natação –, por ser matéria fluída, maleável e que permite, com mais facilidade, abrir caminho. É verdade que trata do desmoronamento de uma família, mas este livro reflete os meus valores. Se eu não acreditasse na profunda capacidade que o ser humano tem de resistir e de se reinventar a si próprio, não teria escrito o Irmão Lobo

A Ilha dos Diabretes 
Atento ao Medicamento são livros diferentes.
Sim, são livros de carácter informativo, não tanto de ficção. É que eu também preciso pagar as minhas contas! (risos) Mas é um registo de que gosto muito, porque implica pesquisa jornalística. Depois, é acrescentar a criatividade. Estão recomendados pelo PNL para trabalhar projetos de saúde, por exemplo. Estes livros permitiram-me trabalhar com a equipa da editora Pato Lógico, e quero fazer referência a isto porque eu só aprecio trabalhar com pessoas de quem gosto.

Carla Maia de Almeida

E como é que isso se faz?
Fazendo opções. Mais ainda nesta área, onde entendo ser necessária uma relação positiva e pessoal com os editores . Quando isso não acontece, não é que o meu trabalho fique prejudicado; quem fica prejudicada sou eu. E isso, claro, traz-me um desconforto que tendo a evitar. É como o trabalho em si. Se eu vir que não gosto, que não me identifico, não aceito. Porque sei que se aceitar, vou chegar ao ponto em que o trabalho não avança. E não vale a pena.

Há algum livro, entre os doze que já editou, pelo qual sinta uma predileção especial? Parece-me que estou a perguntar à mãe qual o filho de que mais gosta, mas pronto… Fale-nos de três.

Mas há, claro que há. O livro do qual ainda não me desvinculei é o Irmão Lobo. Continua a viver em mim, tanto que me pede uma continuação. E vai acontecer. Eu nunca forço nada na escrita; não ando à procura de ideias mas mantenho-me atenta e disponível. E se as ideias ficam lá, durante algum tempo, dou-lhes atenção. Se elas se evaporam, deixo de pensar nisso. O Irmão Lobo foi importante porque me fez sair de uma zona de conforto; pode ser uma banalidade dizer isto, mas foi assim. Ao escrever, pela primeira vez, um livro para adolescentes e adultos, desviei-me do meu registo habitual, o álbum para crianças. O Irmão Lobo está dentro de mim e continuará a correr ao meu lado.

E sente esse retorno?

Um dos maiores retornos é saber que o livro foi traduzido na Colômbia, no México, na Alemanha, na Sérvia, em Itália. Este circular de um livro pelo mundo é muito bom, muito gratificante. Tal como dar conta de que a sua autenticidade atingiu o leitor. 

E o segundo?

Também gosto muito do Onde Moram as Casas. Dos meus álbuns, é um dos mais arriscados. Apesar de a ilustração ser bastante figurativa, entendo ser uma proposta diferente.

Por não ter personagens?

Sim. As casas são as personagens e isso, só por si, torna-o original, creio eu. Mas recordo sempre o momento em que o terminei e o entreguei ao meu antigo editor na Caminho – o José Oliveira, uma pessoa marcante no meu percurso inicial – e notei que a primeira reação dele ao texto foi de estranheza. Eu estava segura da minha originalidade e, quando o ouvi dizer que talvez não fosse para crianças, fiquei desolada! Porque ao lado do escritor caminha sempre esta sombra do fracasso, da dúvida, da possibilidade concreta de morrer na pobreza… (risos) Não se ria, é verdade…

É um riso incongruente, por entender que é uma possibilidade bem real…

É o nosso medo mais atávico. Temos muitos exemplos ao longo da história. Herman Melville morreu sem ser reconhecido, e, noutro extremo, Truman Capote foi esmagado pelo sucesso de A Sangue Frio. Escrever exige-nos uma grande exposição, um abrir de entranhas, um caminhar numa linha muito ténue entre o poder e a extrema vulnerabilidade. O poder de tocar os outros e a vulnerabilidade de nos derrotarmos. Esta profissão é de uma tremenda imprevisibilidade. E precisamos de lidar com isso todos os dias.

É uma profissão sui generis. Não se estuda para se ser escritor, não se procuram escritores nos anúncios de emprego...

Exato. Tira-se um curso de medicina ou engenharia e, se se for bom profissional, tem-se todas as hipóteses de ser bem-sucedido. Com um escritor, não é assim. Há demasiados fatores aleatórios. Pode-se ser muito bom e ser-se ignorado pela crítica, por exemplo. Mas não só. Há outras contingências. É uma profissão de uma fragilidade incrível. Por isso é que eu faço outras coisas. Por não me apetecer morrer na pobreza (risos).

E o terceiro livro qual é, de entre os que escreveu?

O que motivou a nossa entrevista: Em nome da Filha. Ainda me está colado à pele; estou desejosa de que se me descole. Foi um livro muito sufocante. Mais, até, do que o Irmão Lobo. Convocou muito de mim, dos meus valores, do meu percurso pessoal como mulher e como filha. Quando o acabei, nem queria acreditar. E quando o apresentámos, no auditório do Liceu Camões, em Lisboa, foi libertador.

E onde mora a sua casa? Qual é a casa a que sempre regressa?

(Suspiro) Acho que ainda a procuro. De qualquer forma, a minha casa é a minha escrita. Porque entendo que a escrita corresponde ao tempo dilatado da infância, e eu não me posso esquecer desse tempo de paz – de uma paz intermitente – em que me aconteceram coisas muito boas e coisas muito más. As minhas dualidades também tem a ver com essas vivências extremadas. Momentos de muita paz, harmonia, afeto e, outros, muito disruptivos, solitários, de alguma tristeza. Momentos em que precisei de me recolher para sobreviver. Creio que foi aí que fui para os livros; os livros foram a minha tribo e o meu totem. Foi lá que encontrei uma família de personagens com as quais me identificava. O encanto de Sara Crewe foi um abrigo; a cabana do Robinson Crusoe, também; o colégio interno das Gémeas, enfim… Eu ainda ando à procura da minha casa. O meu primeiro livro, O Gato e a Rainha Só, ainda não terminou. As crianças às vezes perguntam-me: «Mas como é a casa do gato?» E eu respondo: «É como vocês quiserem.» O importante é que o gato encontrou a casa. Eu estou a caminho da minha casa real. É isso. Fui tendo várias casas, fui conquistando o meu território. Mas ainda não tenho a casa que idealizo, a que chamo a minha «casa de escritora». E não sei se alguma vez a terei. Mas tenho uma casa de escrita que mora dentro de mim. De onde parto, mas onde regresso sempre. 

A sua infância é o seu farol?

Sim. Aí está uma boa imagem. Tanto nas partes iluminadas como nas escuras. Lá está: a intermitência. Engraçado que, durante bastante tempo da minha juventude, eu dizia que queria ser faroleira, pelo fascínio que sentia pelos faróis. Eu cresci muito perto de um farol. Ainda ontem pensava nisto enquanto passeava por aqui, perto de diversos elementos da natureza que me são fundamentais, como o mar. E as pedras e os paus e as plantas. Como na casa onde eu cresci, uma casa com quintal. E uma outra casa onde também passei parte da infância, uma casa da aldeia, rodeada de montes, campos, pinhais. Cresci com uma liberdade que hoje se poderia considerar perigosa. Vivi com os meus medos. Tinha medo de cães, de cobras, dos mistérios dos pinhais. Não era uma floresta cerrada, mas era um grande pinhal. A casa era antiga, o soalho rangia, havia compartimentos sem luz, um quarto escuro... Levávamos uma vida modesta, a minha mãe era professora. Tudo isto são lugares da minha infância.

A que lugares pertence? 

Lugares físicos?

E anímicos, se quiser.

Pertenço claramente à terra onde nasci, Matosinhos, apesar de achar a cidade desfigurada, muito diferente daquilo que era há vinte ou quarenta anos. E pertenço à casa onde nasci, que ainda existe, na Rua Silva Cunha; e à aldeia dos meus avós, em Monção; e pertenço à Nova Zelândia, o meu antípoda. 

À Nova Zelândia?

Sim. É o fascínio dos opostos. Numa altura em que nada me dizia para lá ir, fui e nem sequer me preparei muito. Sabia pouco, sabia que encontraria muita natureza, mas quis ser surpreendida. Reconheço que houve aqui um gesto simbólico. Pensei: se eu conseguir ir sozinha à Nova Zelândia, conseguirei ir a todo lado. E atravessei o mundo. Guardo recordações fortes, como a de estar deitada na terra, na ilha Sul, e de a abraçar, como se parte de mim, do outro lado, o fizesse também. Foi uma viagem dura, mas de forte simbolismo. Viajar sozinho não é a melhor maneira de conhecer pessoas e, em muitos momentos, senti-me extremamente só. Mas estava num momento da minha vida em que precisava dessa experiência. Andei um mês e meio de mochila às costas. Fiz alguns trabalhos em quintas, para me sustentar e conhecer pessoas. Foi muito importante para mim. Quando regressei já não era a mesma. É engraçado ter conhecido o meu ex-marido um dia antes de partir para esta viagem. Quando voltei, começámos a namorar e depois casámos. Este acontecimento e o início do Irmão Lobo são dois momentos fulcrais na minha vida.

Porquê?
Porque quando escrevi o Irmão Lobo, também nada indicava que o devesse escrever. Não tinha trabalho quase nenhum; emocionalmente passava por um momento brutal e tudo me impelia para procurar trabalhos temporários. Mas um dia senti, com clareza, é agora ou nunca. Pensei. “Tu és escritora, não és? Então, escreve”. Quando comecei a escrever, já sabia o que queria contar, porque a história andava há uma ano e meio na minha cabeça. Eu não avanço para uma história sem saber o que quero dizer. Fiz muitos esquemas, apontamentos diversos e, depois, durante cerca de cinco meses, dediquei-me a escrever o livro.

E, afinal, tornou-se na sua obra-prima...

Aprendi que, às vezes, é em momentos de transição e de desequilíbrio que temos de dar grandes passos. Dos passos simbólicos e hesitantes, surgem outros, bem concretos, que fazem emergir uma estrutura de apoio. Talvez por isso, tenha sempre presente a viagem à Nova Zelândia e o início do Irmão Lobo.

“Ter amoras, folhas verdes, espinhos com pequena treva por todos os cantos.” Para onde remete a epígrafe do seu blogue, O Jardim Assombrado?

Carla Maia de Almeida Esses versos do Herberto Helder, um dos meus poetas de eleição, remetem para um cenário de infância, um terreno por domar. Hoje, as infâncias são muito domesticadas. Muitas ordens, muitas regras, muitas atividades. Muita vontade de responder ao que é exigido num registo de comparação, perdendo-se uma certa vontade própria. Dou como exemplo as festas de aniversário das crianças, cá ou noutro país. Quando estive na Alemanha, no Festival White Ravens 2016, a atriz convidada a ler o meu livro, e com quem falei longamente, contava-me que quando fazia as festas de anos dos filhos se recusava a oferecer a todos os convidados um pacote de guloseimas, como é costume ali, por entender que já tinha uma grande despesa com a festa. E explicou aos filhos que não iria, como todos os pais faziam, oferecer a tal bolsinha de «goodies». A primeira reação dos miúdos, claro, não foi boa, mas depois compreenderam. Isto para dizer que entendo ser necessário um regresso ao essencial. E esse retorno tem muitos caminhos.

Qual é a sua matéria-prima, na escrita?

As pessoas, o tempo e a minha vida interior. O tempo é a nossa matéria-prima agridoce. Gosto de me procurar num tempo dilatado, subjetivo, muito livre, que nada tem a ver com prazos e pressões. E eu associo isto ao tempo infantil que me foi dado viver. Tive muita sorte, nesse aspeto. E uma das minhas preocupações, enquanto escritora, é a de atribuir significados, por isso é que não gosto nada de dividir as coisas em boas e más. A maior parte das coisas que nos acontecem dão-se num registo pleno de ambiguidades. Às vezes há coisas brutais. Perder um filho, por exemplo, deve ser brutal. No entanto, que força de superação está aqui contida? A que corresponde esse inominável, essa força superior contida, também, nessa dor?

O que é que eu não lhe perguntei e que gostaria que tivesse perguntado?

Talvez... O que é que eu desejo para a minha carreira literária.

Muito bem. O que é que deseja?

Não ando aqui a brincar... (sorrisos) Tenho uma ideia de um percurso e sei que já construí um caminho. Gostava muito de não depender apenas da escrita, por isso faço também traduções, algumas formações, cada vez menos jornalismo. Quem me dera ganhar, quem sabe um dia, quando for velhinha, o prémio ALMA (Astrid Lindgren Memorial Award). Além de ser um reconhecimento literário, permitia-me, com cerca de 520 mil euros, ter tempo para escrever sem me preocupar. Digamos que não é um desejo modesto... Mas eu nunca gostei de falsas modéstias.

 


 

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