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FOCUSSOCIAL

Campanha contra a Discriminação das Comunidades Ciganas

“ Olha o Almerindinho no autocarro! “

por Marta Vaz

…e outras crianças como ele a reivindicar, com sonhos, o futuro

O que mais gostou foi de ouvir dizer: “ Olha o Almerindinho no autocarro! ” 

Da sua participação na campanha contra a discriminação das comunidades ciganas, Almerindo, 7 anos, destaca o espanto de familiares e amigos ao verem a sua fotografia num cartaz apenso na traseira dos autocarros que circulam por algumas cidades do país.

A irmã de Almerindo, Márcia, 12 anos, também participou. Diz que quer ser atriz e ao dizê-lo convoca, genuinamente, sonho e vontade; muita vontade de que essa ambição se transforme em realidade e não conheça obstáculos – pelo menos, advindos do puro preconceito - pois “tenho a certeza de que quero ser atriz. Na escola até já participei num teatro que fizemos, A Bela e o Monstro”. Como tantas outras meninas da sua idade gosta de brincar, saltar à corda e jogar às caçadinhas. Na escola, nunca se sentiu discriminada. Mas sabe o que isso é, o que significa, e fica “triste quando as pessoas dizem que não gostam de ciganos”.

Campanha contra a Discriminação das Comunidades Ciganas

A Focus Social falou com algumas das crianças de etnia cigana que deram a cara pela campanha nacional levada a cabo pela EAPN Portugal em parceria com a Secretaria de Estado para a Cidadania e a Igualdade, visando assinalar o Dia Nacional das Comunidades Ciganas, 24 de junho, que se celebra todos os anos, em Portugal, com certa informalidade, pois não se sabe ao exatamente quando começou a ser evocado. Já o dia internacional, dedicado a esta etnia, comemora-se por indicação das Nações Unidas, desde 1971, a 8 de abril.

Os olhos de Almerindo, sentado à minha frente, ao lado do seu pai, são inquietos, brilhantes e lindos como os olhos de qualquer criança cheia de vivacidade e fantasia. Almerindo é o menino que, quando crescer, quer ser médico. “Vou curar pessoas”, diz, sem rodeios. Para já, apesar de ter nos estudos a sua ocupação diária, gosta de jogar à bola, de cantar e dançar, de jogar no telemóvel e de ouvir música. Aceita, depois de um olhar permissivo de Almerindo pai, uma das minhas bolachas de chocolate; pede água, por favor e, novamente por favor, pede licença para sair da mesa quando a nossa conversa acaba. Assim mesmo.

Já Naíma, 8 anos, o que mais gostou, de toda a sua participação na campanha foi de “brincar com a Catarina. Fizemos a espargata e tudo”. Está visto que Catarina, essa mesma que dispensa apresentações, sabe brincar. Naíma, que quer ser professora, garante que sim. “Não é fácil fazer a espargata, mas conseguimos”, revela com o seu ar tão ternurento quanto triunfante.

Com este depoimento da Naíma, ficamos a saber da apetência de Catarina por brincadeiras um tanto difíceis! Mas mais conhecida é a sua dedicação a causas desta natureza, que apresentam elevadíssimo grau de dificuldade; causas maiores, como esta, em prol de grupos minoritários, desfavorecidos. Catarina Furtado e Francisco George, outro rosto bem conhecido, aceitaram o convite da Secretaria de Estado para a Cidadania e a Igualdade, para participarem nesta campanha que nos diz, sem rebuço, que “todas as pessoas têm direito a ser o que quiserem”. Todas. E, pelo menos alguns de nós, acreditam piamente que sim, independentemente de tudo. Mas se, por curiosidade, espreitarmos comentários nas redes sociais, percebemos que muitos não só entendem que não é assim, como praguejam, insultam, atiram pedras; pesadas pedras verbais, a ver se os ciganos “vão para a terra deles” como se a terra deles não fosse a de todos nós. Ler alguns comentários a esta campanha nas redes sociais, retrata bem o quanto é urgente combater estereótipos. Se mais nenhum medidor de pertinência houvesse, este seria bem elucidativo. Há violência latente e patente. Também há ignorância, maldade e cinismo. Coisas bem do ser humano, independentemente das etnias do mundo.

Campanha contra a Discriminação das Comunidades Ciganas

Naíma quer ser professora porque “ gosta de ajudar” e “gosta muito de aprender coisas na escola” onde os amigos lhe pediram “autógrafos por ter participado nesta campanha”, diz com uma pontinha de vergonha e muita satisfação, sob o olhar embebecido da mãe, Marlene Cabeças, 39 anos, seis filhos. “Sinto-me muito feliz por a minha filha participar na campanha tal como me sinto muito orgulhosa por ter uma família cigana. Somos diferentes, sim, mas muito unidos e valorizamos muito a família”, diz uma Marlene completamente aculturada desde que se casou, aos 18 anos, com Eduardo Cabeças, cigano, que gostou dela, mulher loira, pele branca, olhos azuis e a arrebatou para a sua “tribo”. Marlene é também mãe de Jesus, 7 anos, loiro como ela. Na campanha diz a verdade, como todos: quer mesmo ser polícia e depois “passar para a tropa”. Da sua participação na campanha o que mais gostou foi de “ir à RTP e ver a Catarina, que parece muito novinha”. Do que menos gostou foi “da comida, da que tinha legumes”. De resto, na sua inocência de criança, expedita e de sorriso universal, não tem ainda noção do passo gigante que está a ajudar a dar, a uma sociedade ainda muito coxa, manca, desigual.

“Estamos integrados mas ainda não estamos incluídos”

“O combate à discriminação passa necessariamente por uma intervenção que promova a informação e o conhecimento sobre os cidadãos ciganos portugueses, pois a sua ausência contribui, consequentemente, para o desenvolvimento e o agravamento de estereótipos e preconceitos”, explicou o presidente da EAPN Portugal, Pe. Jardim Moreira, no lançamento da campanha, em junho, em Lisboa.

 “Influenciar positivamente a imagem social das comunidades ciganas, apelando para uma mudança de comportamentos por parte da sociedade maioritária” é uma das linhas mestras da campanha. Não é fácil, leva muito tempo mas é exequível. Neste sentido, trabalha-se, por diversas formas, nomeadamente, através da Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas (ENICC), aprovada desde 2013, no âmbito das políticas públicas relativas à integração destas comunidades e no seguimento da comunicação da Comissão Europeia, intitulada “Um quadro europeu para as estratégias nacionais de integração dos ciganos até 2020”.

Aliás, todo estre trabalho em prol das comunidades ciganas orgulha Almerindo Prudêncio, pai do Almerindinho que, juntamente com a sua mulher, abraça esta causa e participa ativamente em todas as iniciativas que visam dignificar a sua etnia. “Estou muito orgulhoso pelos meus filhos participarem nesta campanha, pois queremos justiça e um futuro melhor. Nós estamos integrados mas ainda não estamos incluídos”, explica Almerindo Prudêncio, ciente de que falta ainda palmilhar um longo caminho.
Do mesmo modo pensam Sónia e Bruno Prudêncio, pais de Bruna, 12 anos, e de Alaíde, de 8, que também participam nesta campanha que quer ajudar a desconstruir estereótipos e representações, “pondo em evidência a sua existência e alcance, interpelando discursos que legitimam o desenvolvimento de atitudes de discriminação face a estas comunidades”.

“Foi uma boa experiência. Gostei muito de estar com o Diretor Geral da Saúde”, diz Bruna, a menina, de aspeto frágil, que revelou ao mundo querer ser bióloga e cientista. “Sinto que há muito mais a descobrir”, afirma segura. Na sua escola, todos a “incluem muito” mas sabe que ainda é necessário “sensibilizar as pessoas de que somos todos iguais”. Ao lado, a sua irmã, Alaíde, ouve-a com atenção. E depois diz: “eu também gostei muito de participar. Fiquei alegre e gostei de tudo”. Alaíde quer ser professora de ginástica, “para ajudar as crianças a serem saudáveis”. Gosta de estudar matemática e a sua brincadeira favorita é “jogar às caçadinhas”.

Uma minoria também sonha

Os pais, claro, sentem orgulho. São ativistas assumidos. “ Venho de uma família culta, curiosa, que sempre lutou pela igualdade de direitos. Representamos uma minoria, mas também sonhamos e acreditamos que o futuro pode ser melhor, por isso, quando nos falaram desta campanha decidimos que as nossas filhas participariam”, explica Sónia Prudêncio, apoiada pelo marido, Bruno Prudêncio, que reforça: “foi mais um passo que demos no sentido de alertar a sociedade em geral para o facto de que, como seres humanos, temos os mesmos direitos e deveres. É por isso que estamos a lutar”.

“Como se trata de uma campanha relativamente pioneira, optamos por colocar todo o enfoque numa questão basilar: há vontade, há sonhos, há esforços, há percursos, mas há igualmente ainda enormes barreiras a uma integração económico-social de plena cidadania”, esclarece a EAPN Portugal, na voz do seu presidente.

Campanha contra a Discriminação das Comunidades Ciganas

Esta é a “primeira vez que o governo português se associa e promove uma campanha contra a discriminação nas comunidades ciganas”, algo que, em declarações à agência Lusa, a secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade considerou simbólico.

“Temos consciência de que as comunidades ciganas são as que sofrem mais discriminação em Portugal, entendemos que é preciso uma mensagem clara  que, independentemente da etnia, reforce que todas as pessoas têm o direito de ser aquilo que querem, a ter um projeto de vida e um futuro”, sublinhou Catarina Marcelino.

A disseminação da campanha está a ser feita via, televisão, internet, cartazes e nas redes multibanco e de transportes públicos. A ver se comunidades minoritárias e maioritárias reparam e começam, de verdade, a abandonar estereótipos. Afinal, o percurso escolar e académico das crianças e jovens ciganos pode fazer toda a diferença e desbloquear, ainda que lentamente, preconceitos enraizados que nos fazem projetar, por exemplo, essas crianças e jovens numa qualquer feira do país, junto dos pais, a vender isto e aquilo.
Já não é assim, felizmente. Eles podem mesmo ser o quiserem: médicos, professores, futebolistas, advogados, atrizes, cientistas. Como qualquer outra criança a quem se dê chão para andar, em segurança, sempre muito apoiados, rumo a um futuro digno, onde de facto se concretize a tão proclamada igualdade.


Marta Vaz

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