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FOCUSSOCIAL

Rosana Cássia Kamita, investigadora brasileira

apresenta Mariana Coelho, portuguesa nascida em Vila Real, em 1857

Tem toda a sua vida profissional consagrada ao ensino e à investigação. Rosana Cássia Kamita é professora associada na Universidade Federal de Santa Catarina e pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Foi nestas andanças - de não deixar que a memória se apague – que conheceu e se apaixonou pela vida e obra de Mariana Coelho, uma portuguesa nascida em Sabrosa, Vila Real, que emigrando para o Brasil se tornou referência na história do feminismo brasileiro. Rosana Kamita eternizou o seu percurso no livro “Resgates e ressonâncias: Mariana Coelho”, a partir de sua tese de doutoramento, orientada por Zahidé L. Muzart. Trabalhar na produção de conhecimento apaixona-a e a literatura também.

Está em Portugal a fazer um pós doutoramento junto ao Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, da Universidade do Porto, orientado por Ana Luísa Amaral e subordinado ao tema da crítica literária feminista sob a perspectiva do sublime, com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

O Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa convidou-a para publicar a sua investigação sobre Mariana Coelho e, ainda, para integrar o Grupo de Investigação “Brasil- Portugal: cultura, literatura e memória”, ao abrigo do projeto que este centro de investigação desenvolve, intitulado «Senhoras do Almanaque», coordenado por Vânia Pinheiro Chaves e Isabel Lousada. O projeto será desenvolvido em parceria com o Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais e a Biblioteca Nacional de Portugal.

Entre os diversos cargos ocupados, Rosana Cássia Kamita, integra o Instituto de Estudos de Gênero (do qual foi co-coordenadora, entre 2016-2017), a edição da Revista Estudos Feministas; o Grupo de Trabalho A Mulher na Literatura, da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística e coordena o Núcleo Literatual - Estudos Feministas e Pós-Coloniais de Narrativas da Contemporaneidade.

Profa. Dra. Rosana Cássia Kamita
(Universidade Federal de Santa Catarina/CAPES/CNPq)

Rosana Cássia Kamita

MARIANA COELHO
(uma referência na história do feminismo brasileiro)

Mariana Coelho nasceu em Portugal, em 10 de setembro de 1857, em Vila de Sabrosa, distrito de Vila Real. Partiu de Portugal ao Brasil em 1893, onde veio a falecer em Curitiba, Paraná, em 29 de novembro de 1954. Sempre se destacou por adotar posicionamento favorável à emancipação feminina. No entanto, seu inconformismo em relação ao papel secundário da mulher na sociedade não se limitava apenas a uma conduta pessoal, mas vinculava-se inclusive com sua postura de escritora. Dentre os muitos artigos escritos e palestras proferidas, a obra de maior relevo dedicada aos ideais feministas foi o livro A evolução do feminismo: subsídios para a sua história, cuja primeira edição data de 1933 (i).

A escritora elege dois pareceres sobre sua obra elaborados por Rocha Pombo e Dario Veloso. Rocha Pombo foi um dos primeiros a elogiar a presença intelectual de Mariana no Brasil e a escritora demonstra valorizar sua opinião ao publicar a apreciação crítica feita por ele, da qual destaco o seguinte trecho:

Acabo de ler os originais do livro que vai publicar sob o título de Evolução do Feminismo. Não me limitei a tomar-lhe as proporções: li integralmente todos os capítulos; e não posso reprimir a minha satisfação ao reconhecer o valor desta obra, em que V. Ex.a revela ainda uma vez as suas qualidades de escritora, a sua vasta erudição histórica, e a segurança com que versou o seu assunto. Julgo que é este um trabalho que tem de ficar em nossa história literária.(ii)

Rocha Pombo demonstra em seu parecer ser simpatizante ao movimento feminista que estava se gestando no Paraná com a liderança de Mariana Coelho, ou seja, assim como havia críticas em relação ao feminismo, havia igualmente aqueles que consideravam legítimas as aspirações femininas para uma ampliação do espaço na sociedade. O comentário de Dario relaciona o movimento feminista com outros ideais defendidos pelo escritor e livre-pensador:

É o criterioso e valioso labor de sua existência, consagrada honestamente ao trabalho e ao estudo.
Publicado, prestaria admirável serviço à causa liberal, pelos conceitos emitidos, pelo conjunto de assuntos tratados com largueza, elevação e sinceridade.
Não conheço, no gênero, obra tão completa, de tão rica documentação. Quem a imprimisse e vulgarizasse, renderia, além de um preito a seu talento e esforço, nobre auxílio à causa magnânima da emancipação do espírito humano.
O mérito de quem a pudesse publicar se realçaria à luz da própria obra.
[...]
Seu livro, como as obras dos escritores gregos, tem a mais o mérito de haver sido longamente pensado. Fruto de anos de pacientes pesquisas, exigiu ainda numerosas cartas de informações, toda uma correspondência intensa que a relacionou com o alto mundo feminista, e despertou em dezenas de pessoas o desejo de conhecer o seu trabalho. (iii)

Dario Veloso evidencia o fato de que Mariana mantinha intenso contato através de cartas, telegramas e viagens com pessoas que possuíam ideais em comum. Portanto, não é o caso aqui de alguém que agisse intuitivamente pela emancipação feminina, mas uma estudiosa do feminismo, que levava adiante seus projetos de ampliação do espaço de atuação para a mulher, estendendo sua postura engajada para os ofícios que exercia, enquanto profissional ligada à educação e escritora. Rocha Pombo e Dario Veloso interessavam sobremaneira à Mariana porque representavam uma elite intelectual masculina e nesse aspecto é possível pensar que isso esteja diretamente relacionado com o fato de conseguir respaldo para sua demanda em favor do feminismo. Não seria inteligente de sua parte isolar-se e tornar-se mártir de uma causa perdida, portanto, melhor estar próxima a pessoas que garantissem apoio a seus escritos, pois assim poderiam ser lidos, e sendo lidos sempre haveria aqueles que refletiriam sobre antigos conceitos e quem sabe julgassem como oportuno o momento de modificações em seu modo de pensar. A obra não era, portanto, “para” mulheres, mas dirigida aos leitores em geral, com a intenção de que seu conteúdo fosse discutido e não se restringisse ao modo de pensar de uma pessoa, mas que representasse um anseio legítimo, a ser encarado de maneira séria. O conteúdo da obra nos mostra o quanto a postura de Mariana Coelho estava bem à frente das discussões empreendidas à época, seu contato com outras feministas e novas ideias não se limitavam a torná-la uma pessoa informada, mas a partir do conhecimento do que ocorria em relação ao movimento feminista ela ia além, empreendendo caminhada própria, contribuindo diretamente para escrever a história do título do livro.

A obra é extensa e por certo demandou muito tempo de dedicação para que fosse concluída, uma vez que a autora se dispôs a realizar um histórico sobre a participação feminina na sociedade através do tempo e em países diversos. Impressiona o quanto ela demonstra ter conhecimento das principais questões feministas em diferentes pontos geográficos.

Na “Introdução” do livro, Mariana aproveita o espaço para responder a uma pergunta que vem sendo insistentemente feita a ela: “Por que somos feminista? – Eis uma pergunta ingênua de que várias vezes temos sido alvo, por parte do sexo masculino.”(iv) Mariana mostrava-se preocupada com o tom de deboche com que as ideias feministas eram recebidas, uma vez que se fossem tidas como motivo para chacotas, o caminho para a ampliação do debate estaria comprometido, e as feministas permaneceriam com a imagem estereotipada, de mulheres feias e mal amadas que se recusavam a compreender o valor de serem as responsáveis pelo lar e pela perpetuação da espécie.

A autora destacou o que significou para a mulher a Primeira Guerra Mundial (1914- 1918), ao obrigar muitas nações a se reestruturarem e de uma forma coercitiva admitirem uma ampliação da participação feminina na sociedade, uma vez que os homens estavam às voltas com o conflito. Dessa forma, a ela foi garantido o direito ao trabalho fora do lar, ainda que isso causasse novos impasses no decorrer do tempo, como a questão da menor remuneração ao trabalho feminino e a dupla jornada de trabalho. Mariana lamenta a posição subalterna da mulher:

A fatalidade da lei sociológica que fez a divisão do trabalho, estabeleceu a diferença de deveres entre os dois sexos, dando à mulher os serviços caseiros e, naturalmente, os encargos da maternidade, colocando na arbitrária mão do homem o cetro do domínio – e sentenciando à sua companheira uma existência de submissão – que os legisladores de todos os tempos exageraram a ponto de a reduzirem ao deprimente papel de verdadeira e indefesa escrava.(v)

A subordinação da mulher é histórica, como histórica é a predominância masculina no centro das decisões, com raras exceções a uma e outra assertiva. A indignação de Mariana ao discorrer sobre o modo como muitas mulheres eram tratadas ainda nas primeiras décadas do século XX demonstra claramente o inconformismo perante essa situação, principalmente porque homens – compreensivelmente – mas mesmo mulheres não viam, ou recusavam-se a ver, a total falta de equidade nas relações entre os sexos.

Sempre que ela aludia ao conflito mundial, mostrava a preocupação em esclarecer que se tratava de uma terrível experiência, que as nações jamais deveriam ter chegado a esse ponto. Depois de reiterar seu posicionamento pacifista, expunha os motivos pelos quais a guerra, de certa forma, havia impulsionado a emancipação feminina. Como os homens estavam mais diretamente envolvidos nos confrontos, restava delegar às mulheres tarefas até então cerceadas à sua atuação. Assim sendo, elas passaram a ocupar diferentes esferas, no trabalho fora do lar ou mesmo na administração dos bens da família. Isso fez com que fossem mais valorizadas e também ofereceu a oportunidade de mostrarem que seriam capazes de exercer outras funções além daquelas ligadas aos afazeres domésticos. Mariana preocupou-se em frisar o patriotismo feminino e tomou por exemplo Rosa Luxemburgo, socialista com coragem suficiente para questionar o autoritarismo militar alemão e lamentou a forma como pagou com sua vida a dedicação a uma causa. Novamente a autora explicita suas convicções pessoais:

Conquanto nos seja simpática a causa do socialismo moderado, racional, não perfilhamos, absolutamente, o terrorismo, pela repugnância que nos inspira – pois que não pode achar guarida num bem formado espírito feminino. Consequentemente Rosa Luxemburgo nos parece uma das exceções estupendas que por vezes surgem no cenário das grandes revoluções sociais. Mas também não abdicamos o direito que nos assiste, e cuja elevada significação cala em nossa alma, de admirar todo o adepto de uma causa pela qual ele sacrifica o que tem de mais precioso – a própria existência.(vi)

Mariana nos dá conta de que acompanhou os acontecimentos, a atuação de Rosa Luxemburgo até sua morte e o funeral, através de “telegramas de Berlim”. Ao tratar dos direitos políticos das mulheres, a autora apresentou um minucioso estudo com a situação de vários países: se concediam ou não o direito de voto, em que ano isso se deu, quais conquistas advieram depois disso, com destaque às que integravam os parlamentos. Um argumento relevante que ela oferece para as mulheres com o objetivo de que se deem conta do valor do voto, diz respeito aos projetos de leis que, com a atuação feminina direta – através do voto ou como política – teriam maiores chances de serem aprovados e postos em prática. Seu espírito dinâmico e vanguardista empreendia esforços para que as atenções fossem direcionadas a questões como o amparo à velhice, a proibição da prostituição, investigação de paternidade e reconhecimento dos filhos ilegítimos e direito ao divórcio. Mariana Coelho estava bem à frente de seu tempo ao defender essas ideias, as quais exigiriam muito empenho para que se tornassem uma realidade. Em relação ao Brasil, o Estatuto do Idoso foi sancionado no ano de 2003; a prostituição mantém-se como um problema a ser resolvido; a partir da década de 1980 o exame de DNA facilitou o estabelecimento de vínculo genético, porém, ainda hoje as mães com menor poder aquisitivo aguardam meses para terem acesso a essa comprovação científica; quanto ao divórcio, foi uma conquista em 1977. Esses dados contribuem para estabelecer a importância de pessoas como Mariana Coelho, que com seu arrojo impulsionaram debates de questões de suma importância, as quais ainda levariam décadas para serem encaminhadas de maneira efetiva e outras que permanecem até hoje aguardando solução.

A autora demonstrava profunda crença na capacidade feminina, por isso expôs que a civilização era a responsável por conceber as mulheres enquanto sexo frágil, o que levou muitas a se reconhecerem nessa assertiva. Em seu entender, ao contrário, faltava educação, uma profissão e autoconfiança. Não admitia ideias que se pretendiam científicas, as quais afirmavam a inferioridade física e intelectual da mulher.

O princípio maior que norteava os pensamentos feministas da autora referiam-se à capacidade feminina para desempenhar qualquer função. Por isso o livro traz diversos exemplos da ação da mulher em vários pontos geográficos de diferentes continentes; foi uma tentativa de mostrar a validade de sua premissa. Quando ela examinou o civismo em tempos de guerra, fez a seguinte afirmação: “A mulher das nações beligerantes provou admiravelmente o valor do seu alevantado civismo e da sua indiscutível capacidade no desempenho de todas as profissões masculinas.”(vii) Em excerto de um texto publicado à época, registrou-se:

Quem compulsar a “Evolução do Feminismo” fica conhecendo a história e a evolução completa da mulher, desde as suas mais remotas origens até aos nossos dias. Verá nele que houve países onde a mulher foi igual, se não superior, ao homem, particularmente na Índia onde chegou a ter culto supremo. “a humanidade só progride pelo martírio”, afirma Mariana Coelho. Efectivamente – e ela o constata no seu livro – uma das consequéncias imediatas da Grande Guerra foi a alforria social e política da mulher.
Toda a mulher deve ler “Evolução do Feminismo” onde encontrará a sua história e a razão que a todas assiste de serem feministas. Ali verá quantas das suas irmãs iluminadas pela luz da sciéncia e da história, com coragem e perseverança inauditas trabalharam pela vitória das ideas que hoje nos felicitam a todas. Mariana Coelho merece o reconhecimento de todas nós, mulheres, a quem ela oferece uma bíblia das suas liberdades e dos seus direitos. – 7/2/934.
Ermelinda dos Stuarts Gomes – Africanista e indianista portuguesa. – (Do Diário de Coimbra) (viii).

São muitas as qualidades de Mariana Coelho, assim como fundamental sua influência à época, bem como as ressonâncias de sua contribuição. O seu tempo muito lhe exigiu, e a convicção na validade de seus ideais lhe permitiu afirmar: “não subordino o meu ‘modo de ver’ ao de pessoa alguma, por mais autorizada que pareça.” (ix) (COELHO, Mariana. O Paraná Mental, p. 45). Somente assim – pensando de maneira autônoma e confiante – foi possível deixar um legado de tão grande importância, não apenas no sentido intelectual, mas enquanto pessoa que ensina também por sua biografia. Mariana Coelho era,  apropriando-me de uma expressão que ela mesma utilizava para as pessoas que considerava especiais, uma mulher “de escol”.

(i) Este texto é a reelaboração de um capítulo de minha tese de doutorado intitulada “Resgates e ressonâncias: Mariana Coelho”. Orientação: Profa Dra Zahidé Lupinacci Muzart. UFSC, 2004. E-mail para contato: rosana.kamita@ufsc.br
(ii) COELHO, Mariana. A evolução do feminismo: subsídios para a sua história. 2a ed. Org. Zahidé L. Muzart. Curitiba: Imprensa Oficial do Paraná, 2002, p. 25.
(iii) Ibid., p. 27.
(iv) Ibid., p. 29.
(v) Ibid., p. 37.
(vi) COELHO, Mariana. A evolução do feminismo: subsídios para a sua história, op. cit., p. 89-90.
(vii) Ibid., p. 81.
(viii) COELHO, Mariana. Cambiantes (contos e fantasias). Curitiba: Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1940.
(ix) COELHO, Mariana. O Paraná Mental, p. 45.

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