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FOCUSSOCIAL

Semana da Interculturalidade

Visa dar contributo na construção de uma sociedade mais justa e igualitária

Todos sabemos que a mesma realidade ou realidade semelhante pode ter um significado ou interpretação diferente entre pessoas de diversas culturas. A interculturalidade propõe abertura - um olhar que promova pontes e encontros – respeito mútuo, no reconhecimento da igualdade. Para tal é necessário que se ponha em prática uma atitude de escuta, de diálogo, de empatia, de solidariedade, capaz de nos colocar no lugar do Outro. E num mundo tão em conflito, tão insuflado de egos e desequilíbrios é imperativo ter um olhar benigno que permita compreender e, essencialmente, dar à pessoa, a qualquer pessoa, a dignidade que merece. Quer pela via dos direitos humanos quer por normas e valores que protegem a convivência, a igualdade de oportunidades e o bem-estar social.

 

“Sensibilizar todos os cidadãos para a importância da construção de uma sociedade mais justa, igualitária e intercultural” é o grande objetivo da EAPN Portugal ao organizar, desde 2014, a Semana da Interculturalidade mobilizando, este ano, 11 dos 18 distritos portugueses num total de 65 eventos.

Esta iniciativa só tem sido possível porque existem inúmeras parcerias ativas sintonizadas nos mesmos propósitos: promover a partilha de experiências e a construção de sinergias ao nível local; realizar um conjunto de atividades de carácter social e lúdico que envolvam diferentes públicos no sentido de apelar à igualdade de oportunidades e para a necessidade do diálogo intercultural; contribuir para a desconstrução de estereótipos ainda existentes relativamente a alguns grupos sociais, nomeadamente imigrantes e comunidades ciganas; promover o debate acerca de diferentes temáticas sociais e refletir sobre os desafios que uma sociedade intercultural enfrenta e fomentar espaços interculturais que permitam a consolidação de valores comuns e o respeito pela diversidade e pela diferença.

Tertúlias temáticas, peças de teatro, exposições diversas, espetáculos musicais e literários, cinema, sessões de sensibilização e informação direcionadas para públicos diversificados, mostras gastronómicas de diferentes países, enfim, atividades ecléticas, direcionadas a todos, miúdos e graúdos, contribuem para um maior conhecimento e desmistificação de certas representações e preconceitos que separam em vez de unir pessoas e povos.
De acordo com a EAPN Portugal “o desenvolvimento de ações desta natureza é percebido como tendo um impacto significativo na opinião pública, fomentando, por um lado, uma maior sensibilização para a importância do combate à pobreza e da exclusão e, por outro lado, um maior incentivo ao trabalho em parceria e à criação de sinergias ao nível local”.

 A iniciativa permite, em diversas áreas, sensibilizar os cidadãos para a necessidade de uma sociedade intercultural que tenha presente os valores da solidariedade, da igualdade, do respeito pela diferença e pela diversidade, de forma a garantir uma cidadania mais inclusiva e mais igualitária.

Portugal é, por tradição, um país intercultural que acolhe, desde sempre, culturas diferentes. A interculturalidade está presente na sociedade portuguesa e, como tal, é necessária uma consciência responsável deste fenómeno que exige um conhecimento mais aprofundado não só do facto social em si como das várias culturas que se agregam à cultura vigente. De notar que é através de um maior conhecimento de outras culturas e das pontes que fazemos com elas que nos enriquecemos enquanto cidadãos. A interculturalidade tem a missão de promover o respeito pelas diferenças e a Semana da Interculturalidade, um pouco por todo o país, tem sido exemplo disso.

Sarau com música, poesia, contos e cantos

O que aconteceu, no auditório da Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, foi uma festa que celebrou, a cada momento, a diferença e o respeito. Foram as danças do mundo, pelo Grupo 7 Ofícios do Centro Social e Paroquial de São Nicolau, cantos e desfile de trajes típicos da Ucrânia, pelos imigrantes ucranianos da Póvoa de Varzim, música cigana por jovens do Bairro de Contumil, declamação de poemas por Ana Homem de Albergaria e Infante Dom Henrique, entre outras intervenções. O projeto Sinergi@s, por exemplo, apresentou o vídeo intitulado “Tu Fazes a Diferença”, que arrancou à plateia uma singular salva de palmas. Palmas estridentes e convictas, em alguns casos, emocionadas. O filme toca. A mensagens passa de uma forma muito simples e criativa. Chega num ápice ao coração. 

O projeto Sinergi@s nasceu na 5ª geração do Programa Escolhas te tem vindo a desenvolver um trabalho concertado que permita adquirir um conhecimento significativo da população da freguesia de Campanhã, no Porto. Assim, esta 6ª geração visa a manutenção de atividades que contribuem para o enriquecimento das competências sociais e culturais e para uma aproximação das famílias e alunos à comunidade escolar.  Por sua vez, este é um dos projetos acolhidos e dinamizados pela ARRIMO  - Organização Cooperativa para o Desenvolvimento Social Comunitário, que tem como objeto intervir com as pessoas, comunidades e instituições e/ou associações em diferentes áreas: a promoção da saúde e erradicação da pobreza, da exclusão social, da injustiça; a promoção da igualdade entre os géneros e o combate à violência doméstica; a promoção dos direitos fundamentais à democracia, à educação, ao trabalho, à cultura, à influência nas transformações sociais, em suma, à participação nas diferentes esferas de atividade e no exercício de uma cidadania ativa. A cooperativa tem ainda por objeto a promoção da intercooperação, de acordo com os princípios cooperativos, designadamente no âmbito das relações com os movimentos sociais e associativos nacionais e estrangeiros, pautando-se por valores de respeito mútuo, equidade e justiça social, honestidade, transparência e solidariedade. Os parceiros Sinergi@s são a Junta de Freguesia de Campanhã, a EAPN Portugal, a NorteVida – Associação para a Promoção da Saúde; o CPCJ - Porto Oriental; o Agrupamento de Escolas António Nobre; a Associação Fios e Desafios e a ACES - Porto Oriental.

Este sarau intercultural contou, ainda, com a “Hora do Conto”, momento dinamizado pela Associação Mais Brasil que contou com a participação de dezenas de crianças. No final houve um lanche “Cinco Continentes” onde se pusderam experimentar iguarias gastronómicas dos cinco cantos do mundo.

“Onde está a malta que queria ser astronauta?” 

Foi de verdade uma tertúlia. Organizada pela Associação Plano i. Pessoas em círculo à volta de um tema: educação e interculturalidade. Palavra puxa palavra, ideia motiva ideias e aconteceu que ficaram no ar questões pertinentes para algo maior. Soube a pouco; apetecia aprofundamento dos temas abordados em tom tertuliano, como se prometia. Quem, por exemplo, não conhecesse a Escola da Ponte ficaria com vontade indómita de conhecer. Entrar escola adentro, espreitar os cantos, demorar-se por lá, conhecer efetivamente. Mas todos ali sabíamos desse projeto educativo tão especial, fundado em 1976, por José Pacheco. Mas uma coisa é saber, assim, pela rama; outra coisa, distinta, é ouvir falar quem sabe, quem lá trabalha e acompanha o projeto escolar, por dentro, neste percurso de quatro décadas a ensinar de forma diferente, a criar um novo paradigma de ensino, tantas vezes posto em causa e outras tantas admirado, estudado, apontado como exemplo superior. O modelo de ensino a que a alguns provoca medo, inseguranças e desconfianças; a outros dá vontade de cantar, com musiquinha antiga a adaptar palavras: é uma escola muito engraçada não tinha aulas não tinha nada [do vigente paradigma do ensino em Portugal]. Mas é assim mesmo, da natureza humana, diferentes sensibilidades para a mesma questão.

Ana Moreira e Eugénia Tavares falaram com conhecimento dessa causa que abraçam de alma e coração, a Escola da Ponte; das oportunidades educativas de excelência que proporciona; do papel ativo dos alunos na vida da escola e nas diferentes matérias que escolhem estudar; da responsabilização de toda a equipa; da peculiar gestão escolar; da iniciação; da consolidação e do aprofundamento, fases distintas a estruturarem o projeto; dos 74 dispositivos pedagógicos; dos alunos a escolherem o professor-tutor. E, atenção, estamos a falar de uma escola pública. E como é que uma escola destas promove as questões da diversidade? “Porque parte de um referencial básico: os direitos humanos. E porque trata a individualidade de cada um com primazia. Não há, não pode haver uma tábua rasa para todos”, explicou Ana Moreira, acrescentando que, apesar da Escola da Ponte, ser um caso de estudo, pioneiro, tem observado por aí “muito boas práticas, exemplos de trabalho muito interessantes”. A mudança está em curso, mas é lentíssima. Não é fácil uma mudança inteira e de uma só vez, muito menos, no sistema educativo de um país. E a conversa prosseguiu sempre num tom informal - “como as cerejas” – e Francisco Machado, professor na ISMAI, foi introduzindo ideias muito sérias, algumas em tom jocoso: “Onde está a malta que queria ser astronauta?” Os alunos de agora querem todos ter uma profissão “real” que permita não andar a contar os euros. Falou-se da colisão do sonho com a realidade. E falou-se da cultura da participação, da imperativa necessidade de participar e, novamente de outra colisão, a da participação com o poder, com as relações de poder. “A boa educação dá trabalho”, sublinhou Francisco Machado que falou de algumas boas práticas americanas e acrescentou que nos falta uma escola mais sistémica. Falta coesão e identidade.  Falta participação. Novamente. “Mas quem quer participar, quando em causa está o seu poder, as diversas relações de poder estabelecidas, geralmente numa hierarquia vertical?”, interrogou Cláudia Albergaria, socióloga da EAPN Portugal. E a conversa, prosseguiu aqui e ali, com a constatação de boas práticas dispersas, exemplos solitários e, ainda, sem força congregadora. Ouviu-se que as universidades ainda não desenvolvem os seus alunos na esfera pessoal e social, que falta também dar esse passo; que o melhor mecanismo de inclusão é uma boa conversa com o aluno; que o professor deve assumir que também aprende com os alunos; que a educação especial deve arrogar um lugar indiscutível nas escolas; que a inclusão e a cidadania não se ensinam, praticam-se todos os dias. Em reciprocidade. “E o ensino ainda não é nada inclusivo; gostam de dizer que sim, mas não é”.

E para que ao olharmos à nossa volta não desanimemos, Ana Moreira aconselhou a trocar a angústia pela determinação e contou a lenda do beija flor: empenhado em ajudar a apagar o fogo da floresta, com pequenas gotículas de água que carregava no seu bico, voava de um lado para o outro, incansável. E interrogado por outros, sobre o que andava a fazer; sobre a validade da sua minúscula ação, respondeu que estava a fazer a sua parte…

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