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FOCUSSOCIAL

Projeto “Retratos Tecidos em Manta” visa trabalhar dinâmicas familiares

“O facto de as entidades envolvidas serem diferentes, atuarem em territórios diferentes e com comunidades diferentes, concede ao projeto uma grande riqueza, tornando espelho da diversidade no distrito”

Imagine: um retalho de vestido de noiva que um dia foi o mais lindo vestido do mundo; mais um pedaço de uma bandeira que um dia drapeou ao vento em nome de uma pátria; mais um pedacinho de tecido da primeira camisinha de um bebé; mais uma nesga de uma toalha de mesa que testemunhou alegria, tristeza, qualquer outro estado de espírito quando, sentados, tomamos uma refeição ou simplesmente pensamos na vida. Consegue imaginar? Pedaços e mais pedaços de tecidos, unidos, a contarem uma história. Coloridos ou não, de textura macia ou não, melhor ou pior conservados, são retalhos de tecido que tecem a história de cada pessoa, que são mote de conversa, ponto de partida para a compreensão. Uma manta gigante, memória tátil e visual de diversas famílias, de uma comunidade inteira que encontrou neste projeto a forma ímpar de se expressar. De narrar a sua individualidade e a da sua família.

 

“Retratos Tecidos em Manta” assim se chama este projeto, uma das muitas iniciativas do Núcleo Distrital de Setúbal da EAPN Portugal, em parceria com outras instituições. “Nasceu em 2014, perante a hipótese de 2015 vir a ser consagrado Ano Europeu da Família. Não o foi, mas optámos por não deixar cair por terra toda a reflexão, sobre intervenção com famílias, que vínhamos fazendo com algumas entidades nossas associadas e alguns profissionais no distrito de Setúbal”, diz Ana Vizinho, socióloga a trabalhar no Núcleo Distrital de Setúbal da EAPN Portugal.

Promover a família nas suas diferentes tipologias e naturezas, enquanto elemento estruturante das pessoas e da comunidade, facilitar momentos de reflexão sobre interação e relações familiares e, do ponto de vista individual, potenciar a autoestima da pessoa. “Existia a vontade de “trabalhar” com famílias de uma forma mais criativa que pudesse ultrapassar constrangimentos sentidos em intervenções mais tipificadas e sob regras específicas de algumas medidas e programas de intervenção social. Este projeto permite-nos ultrapassar dificuldades de intervenção com alguns grupos e comunidades específicas e com ele chegarmos com mais facilidade a todos. A ideia central é facilitar a abordagem e reflexão sobre cada família, a partir dela mesma e com ela própria, independentemente de limitações físicas ou condicionantes socioeconómicas, através de caminhos ou das diferentes vias sensoriais, pois por meio dos cinco sentidos o ser humano conhece e reconhece as coisas e pessoas que a rodeiam”, explica Ana Vizinho, sorriso aberto e confiante num projeto acarinhado por todos e onde todos se revêm.

Esta é uma iniciativa de capacitação comunitária, de adesão voluntária, que facilita a autorreflexão e partilha de e sobre família(s) tendo como ponto de partida os tais retalhos de tecido, fotografias, sonoridades, aromas, sabores e pessoas que reportam a memórias, histórias, valores e princípios orientadores das diferentes estruturas familiares.

Tomada de consciência individual e em família pode levar a decisões e identificação de necessidades e desejos de mudança ou de adaptações com vista ao bem-estar comum

É visível que se trata de um projeto de afetos e de proximidade que chama as pessoas para uma abordagem mais sistémica da família onde – tão importante – os sentidos são estimulados e se dá primazia ao ser. A diversidade de caminhos, por via sensorial facilita a reflexão sobre a família e o núcleo familiar mais alargado, permitindo ir ao encontro das especificidades de cada uma, facilitando processos e das dinâmicas intrínsecas às entidades que trabalham com essas mesmas famílias.

Quisemos saber como surgiu esta ideia de traçar retratos através de tecidos e assim trabalhar diferentes questões familiares. “O livro “A Manta – uma história aos quadradinhos (de tecido)” de Isabel Minhós Martins e Yara Kono, ofereceu-nos a inspiração, a mim e à Maria da Liberdade Carlos da ACM/YMCA de Setúbal. Foi através deste livro que desenhamos e concebemos o primeiro estímulo. Nele cada pessoa / família é desafiada a trazer um retalho de tecido que se refira a uma memória; história; origem; raiz familiar. Assim, através da criação de uma manta de retalhos procuramos chegar à história ou a estórias de família, ao conhecimento e valorização das pessoas que a constituem e à tomada de consciência coletiva dos valores que a sustentam. Desde esse momento foram criados mais dois desafios em conjunto com as entidades que foram sendo parceiras durante o percurso do projeto. Um desses desafios foi operacionalizado recorrendo sobretudo às fotografias captadas pelas famílias como passaporte para a reflexão sobre si e as suas vivências (“Partilhas Fotográficas”); o outro leva-nos aos lugares e patrimónios edificados nas histórias e memórias familiares (“Roteiros de Família”). Desde 2017 passaram também a integrar a dinâmico do projeto, momentos de reflexão, partilha e aprendizagem entre profissionais de intervenção com famílias e facilitação de tertúlias e encontros de família(s)”, desvenda Ana Vizinho.

Esta tomada de consciência individual e em família pode levar a tomadas de decisão e identificação de necessidades e desejos de mudança ou de adaptações com vista ao bem-estar comum, facilitando a capacitação de profissionais e voluntários em metodologias colaborativas e criativas de abordagem às famílias, ferramentas que viabilizam um trabalho participado e continuado, eficaz e eficiente, acrescentando valor à intervenção desenvolvida. 

 

Sonho e felicidade, o último desafio

“Falar sobre si e a sua família, partilhar memórias e intimidades não é fácil. Ainda que cada pessoa e/ou família adira voluntariamente ao projet, e que cada um fale de si e dos seus, na medida do que considera correto e aceitável, é sempre objeto de exposição. As estratégias do projeto facilitam a partilha e esta partilha e reencontro com o passado, com alegrias, tristezas e perdas, tem permitido a algumas famílias trazer clareza e “olhar com outros olhos “, pensar e sentir a sua família para lá do que se encontra cristalizado em cada um. Este é o principal impacto”, explica Ana Vizinho, acrescentando que a exposição coletiva de todos os produtos que resultam das reflexões de todas as pessoas e famílias envolvidas no projeto, desde a 1ª edição (mantas de retalhos, narrativas, fotografias, objetos, sinalização de lugares e patrimónios) tem permitido a sua legitimação, o reconhecimento da importância das reflexões e partilhadas geradas”.

A exposição de todo este trabalho acaba por mobilizar toda a comunidade e todos os que direta ou indiretamente se implicam na iniciativa. Os espaços escolhidos procuram ser lugares centrais, de afluência e que integrem os percursos das próprias famílias, como por exemplo, o Mercado do Livramento e o Centro Comercial Alegro Setúbal. ” Por outro lado, o projeto tem permitido a aproximação e a maior compreensão entre profissionais e famílias de intervenção, uma vez que os técnicos participam em todas as dinâmicas e respondem aos mesmos desafios lançados às famílias. O diálogo e a compreensão mútua que o projeto permite pelas partilhas geradas e pelo contexto de informalidade e de exploração sensorial é inequívoca, tendo permitido ultrapassar «a barreira e a distância da secretária». O facto de as entidades envolvidas disporem de características diferentes, atuarem em territórios diferentes e com comunidades diferentes, concede ao projeto uma grande riqueza, tornando espelho da diversidade no Distrito, algo que transparece nos produtos criados mas também nas tertúlias e encontros. Um dos impactos gerados está relacionado com o encontro e reconhecimento do Outro, permitindo, por exemplo, abordar preconceitos e estereótipos. Por sua vez, os momentos de promoção de troca e partilha de conhecimentos, estratégias e ferramentas de intervenção com famílias entre profissionais, tem permitido a recolha de vários instrumentos e estratégias de intervenção e a sua disseminação no território, bem como o empoderamento e reconhecimento do trabalho desenvolvido pelas entidades que partilham práticas e know-how”, conclui Ana Vizinho.

A atual edição do projeto termina em 2019. Até lá, vários desafios vão acontecendo em diferentes organizações e territórios. “Este ano, pretendemos desenhar e conceber o quarto desafio do projeto, já não tanto associado à memória e história das famílias, mas procurando projetá-las no futuro. Será um exercício dedicado ao “Sonho e à Felicidade”. Pretendemos desafiar as famílias neste caminho. Que sonhos, que passos dar rumo à felicidade?” O repto está lançado. Marta Vaz

 

São parceiros do projeto: APPACDM de Setúbal; Centro dos Reformados e Idosos da Baixa da Banheira; Centro Social e Paroquial de São Sebastião; Agrupamento de Escolas Ordem de Santiago e Cercizimbra

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