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FOCUSSOCIAL

SEIES – Sociedade de Estudos e Intervenção em Engenharia Social

Colaboração em nome de uma participação cidadã

Isabel Rebelo acredita em compromissos e não em consensos. “Acreditamos na formulação do dissenso, na expressão da própria voz para alcançar um objetivo comum e acreditamos na revelação das diferenças para permitir reconhecer um poder partilhado” diz com convicção inabalável nestes princípios que norteiam a ação da SEIES - Sociedade de Estudos e Intervenção em Engenharia Social, que ajudou a fundar. “O poder nunca se dá. No momento em que o fazemos estamos a tirar poder ao outro, a desempoderar, porque nos estamos a dar a nós o poder supremo de o dar. O poder concedido não é um poder real.

A partir do momento em que o damos, também o podemos tirar e portanto é uma não-verdade”, explica Isabel Rebelo que acredita nos processos que abrem e criam caminhos para que o poder do outro emerja ou seja conquistado. Na atuação social, em particular, temos que acolher o conflito para empoderar e para que esse empoderamento seja legitimado e para que, assim, se encontrem soluções colaborativas”.

Fomos conhecer a SEIES e ficaríamos por lá mais tempo, se o tempo não escasseasse. Deixamos-lhe alguns projetos, fruto de um longo trabalho, reconhecido e validado em prol da diversidade. E no caminho que a SEIES acredita levar à realização de cada pessoa, em prol do bem-estar da coletividade.

 

Marcámos a entrevista com a Isabel Rebelo e com a Ana Morgado, técnica da Cooperativa de Serviços e Solidariedade Social, fundada em 1980, em Lisboa, visan­do apoiar dinâmicas locais de promoção do exercício da cidadania ativa, bem como a investigação e a intervenção para o desenvolvimento das instituições, das associa­ções, das comunidades e grupos. A conversa decorreu no Centro de Cidadania Ativa, em Setúbal, financiado pelo Centro Distrital de Segurança Social. Trata-se de um espaço multifuncional, adaptável, moldável como um lego, sempre pronto a ajustar-se às necessidades das pessoas, onde todas as atividades são gratuitas. Cidadãos jovens e menos jovens fazem daquele espaço um lugar de encontro, de ideias, de debate, de trabalho e de lazer.

Quisemos saber o que é isto da engenharia social? “É um conceito dos anos 70 sobre a intervenção social, esco­lhido pelo fundador da SEIES, José Hipólito dos Santos, e que nos diz por um lado que a intervenção social não é uma ação espontânea, exige técnicas e profissionalismo, mas por outro lado, é a vertente social que “manda” e não técnica, ou seja, não existe a melhor solução técnica a aplicar a todas as situações, tem de ser formas de ação adaptadas e apropriáveis em cada situação. Reporta a uma aprendizagem e não a uma mera transmissão de conhecimentos, é uma questão técnica, com me­todologia e estratégia, mas é um processo em que todas as pes­soas intervenientes aprendem e transformam-se mutuamente. Essa aprendizagem tem a forma de espiral porque significa que, no processo, passamos várias vezes pelos mesmos luga­res, mas de formas diferentes. O ajuste ao grupo, a cada pessoa, tem de ser efetuado, no seu contexto, para existir condições de colaboração”, explica Isabel Rebelo.

A filosofia de intervenção da SEIES tem como pilar es­truturante a convicção de que na base da mudança existe um eixo transversal gerador de dinamismo: a participa­ção das pessoas, mulheres e homens. E acreditam que é através das pessoas que se tornam possíveis mudanças significativas na forma habitual de viver e de lidar com as várias situações problemáticas. “Já vai longo o tempo em que as alternativas são apenas duas: ou se dá o peixe ou se ensina a pescar. É preciso saber se querem pescar. É preciso que o queiram, e saber se é esse o momento. É preciso descobrir sob o visível, o invisível. É preciso imaginar novas formas de o fazer, descobrir motivações, reinventar. É preciso chegar ao imprevisível, aprender a amar paisagens ainda imaginárias”.


A valorização da pessoa está no ADN da SEIES

Tanto do ponto de vista da equipa de trabalho como, ainda, o olhar para todas as outras pessoas que fazem parte do tecido social onde atuam. Buscam na experiência de cada pessoa, na sua aprendizagem, na sua capacidade de partilha e mudança, valores capazes de fazer crescer, de constituir um coletivo com novas dimensões de inter­venção e pensamento. Desde logo, a forma de trabalho transdisciplinar requer formações diversas e a equipa de colaboradores é de áreas tão diversas como economia, gestão, biologia, psicologia, sociologia, filosofia, ciências da educação e ação social, entre outras. Cada elemento traz um valor acrescentado à equipa e enriquece a ati­vidade desta cooperativa que teve a sua origem na voz comum de insatisfações profundas e recorrentes de um conjunto de profissionais, homens e mulheres, das mais diversas áreas.
O trabalho da SEIES é reconhecido em diversas fren­tes de atuação, mas igualmente exigentes. Diziam-nos que eramos “especialistas em partir pedra”. Muitas vezes somos chamados para intervir em problemáticas cujas respostas clássicas não se adaptam, conta Isabel Rebelo.

SEIES

A partir de 1985, colaboraram com o IEFP e centros protocolares em projetos-piloto no âmbito da igualdade de oportunidades entre mulheres e homens, o que levou à formulação da vontade de uma intervenção integrada, visando a Igualdade entre Mulheres e Homens.

Desde 1993 passaram a intervir de forma continuada em Setúbal, com um projeto inovador de intervenção territorial para a igualdade entre mulheres e homens. Desenvolveram várias ações e deram corpo a um centro de informação para mulheres desempregadas – Passo a Passo Ousar Mudar o Presente; criaram o Março Mulher, envolvendo dezenas de instituições, empresas e pessoas voluntárias, que se realiza anualmente em parceria com a Câmara Municipal de Setúbal. Na sequência desen­volveram o projeto Trilhos, financiado pela iniciativa comunitária Equal, concebido e promovido em parceria, entre organismos públicos e privados, impulsionador de um novo salto qualitativo ao nível da intervenção co­munitária nas freguesias da Anunciada em Setúbal, e da Marateca e Poceirão em Palmela, dando origem ao Centro de Cidadania Activa.

Desde 2006, intervêm na prevenção e desocultação da violência doméstica e de género. Esta é desenvolvi­da integrando: Sensibilização comunitária através de campanhas, ações de rua e programas de prevenção da violência com funcionamento regular em meio es­colar; Acompanhamento social e psicológico a vítimas; Capacitação das instituições e equipas técnicas, nos concelhos de Setúbal e Palmela. Atualmente procuram formas de financiamento para dar continuidade a este trabalho.

Promoveram em parceria com a Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade a Campanha Nacional Contra a Violência no Namoro “Muda de cur­so – Violência no namoro não é para ti” cujo objetivo é o combate e consciencialização à violência no namoro entre os jovens universitários.

A cooperativa SEIES é entidade coordenadora do pro­jeto CLDS de Setúbal e têm no terreno o projeto Jovens Impulsionador@s.

E do ponto de vista da sustentabilidade? “É um pro­blema. Sempre tivemos periodicamente dificuldades fi­nanceiras e, muitas vezes, encontramos entre nós, forma de as resolver. De dar respostas.

A sustentabilidade é sempre um processo muito com­plicado porque, por exemplo, só desde 2006 temos um acordo atípico com o instituto de segurança social, o qual financia de forma continuada o funcionamento base do Centro de Cidadania Ativa.

Até 1993 eramos um organismo intermédio, a coope­rativa tinha sede em Lisboa e agíamos como organismo consultor tanto em Portugal como no estrangeiro, a pe­dido de outras organizações. Quando Portugal aderiu à Comunidade Europeia, começamos a trabalhar com o financiamento europeu, dos diversos quadros comuni­tários de apoio e de iniciativas comunitárias”, diz Isabel Rebelo, secundarizada por Ana Morgado que refere: “atualmente os financiamentos são como um sopro no ar, ou seja, são de um ano, um ano e pouco e isto também se reflete, obviamente no nosso trabalho, porque – nun­ca esquecer – trabalhamos com pessoas. Ora isto, tem resultado no impacto que se obtém quer na comunida­de, quer nas pessoas, individualmente. Por exemplo, se não formos nós a procurar financiamento para o projeto Jovens Impulsionadores, a escola não consegue dar essa resposta”.

 

Jovens Impulsionador@s de Direitos Humanos e Igualdade

Ana Morgado, brilho nos olhos, explica que o pro­jeto Jovens Impulsionador@s de Direitos Humanos e Igualdade é uma resposta complementar às escolas e proporciona “uma forma de trabalhar temas que embora sejam transversais a algumas disciplinas, muitas vezes não são trabalhados de forma coerente, aprofundada e refletida.”

Tem como objetivo a promoção da participação cí­vica e democrática juvenil e da educação não formal em contexto escolar.

O projeto é coordenado pela Cooperativa SEIES, é implementado em parceria com algumas Escolas Secundárias da Rede Escolar de Setúbal, de Sesimbra e, mais recentemente de Palmela, com o financiamento da Secretária de Estado da Cidadania e Igualdade.

É um projeto que teve a sua origem no ano de 2015 e ganhou força para continuidade quando fomos desafiados pelas escolas em dar continuidade ao nosso trabalho em prol dos Direitos Humanos e Igualdade em meio escolar.

“Esta nossa atuação acontece na senda da atividade anterior com escolas e de diversas campanhas contra a violência doméstica levadas acabo pela SEIES desde 2006”, explica Ana Morgado.

As etapas de implementação iniciam com uma apre­sentação nas escolas, em contexto de turma (9º, 10 e 11º anos), e as e os jovens inscrevem-se para participar no projeto como voluntários. “As atividades iniciam com uma formação em direitos humanos, igualdade, preven­ção de violência no namoro e participação juvenil. Este é o primeiro passo. Depois sim, sentem-se mais preparados para fazer sessões de sensibilização em turmas de jovens mais novos e atuarem enquanto educadores entre pares”, refere Ana Morgado.

É um projeto de educação não formal, durante o ano letivo e nas férias o projeto colabora com as e os jovens na concretização das suas ideias e iniciativas, individuais de pequenos grupos e coletivas, no âmbito da escola e na comunidade.

SEIES

“No terreno, o que acontece é que, muitas vezes, esse jovem voluntário é procurado para lhe reportarem uma situação de violência no namoro, por exemplo, e é reco­nhecido enquanto agente impulsionador e multiplicador de uma cultura de igualdade e de defesa dos direitos hu­manos na sua escola. Todo este trabalho é acompanhado em permanência respeitando a confidencialidade de cada caso. Não só pela escola, nos casos em que há resposta (em articulação com um docente), como também pela própria SEIES.”

Estamos a falar de oito escolas envolvidas nos con­celhos de Setúbal, Palmela e Sesimbra e de cerca de 300 jovens, sendo que 150 já passaram pelo processo forma­tivo. De referir que o projeto já abrange 3 anos letivos.

Ainda no âmbito do projeto Jovens Impulsionador@s de Direitos Humanos e Igualdade é anualmente realizada uma marcha, em parceria com diferentes agrupamentos de escolas, escolas secundárias, escolas profissionais, Câmara Municipal de Setúbal, organizações da sociedade civil, coletivos de cidadãos e diferentes entidades públicas com responsabilidades a nível local.

O tema da marcha é proposto pelos jovens, e a cada coletivo convidado e que adere à iniciativa é pedida uma reflexão sobre a temática e a sua apropriação trazendo o seu olhar e palavras específicas (cada marcha teve a sua temática: Não à violência | Direito à felicidade | Pela Igualdade e Direitos Humanos).

O Núcleo Distrital de Setúbal da EAPN e o Conselho Local de Cidadãos em Situação de Pobreza são uma das organizações e coletivos que participam na reflexão dos temas.

A iniciativa começou em 2016 e todos os anos tem vin­do a ganhar mais adesão. Anualmente, tem sensibilizado a comunidade local para promoção da igualdade, respeito e efetivação dos direitos humanos e para a desconstrução do adultismo face ao envolvimento e interesse dos jovens sobre estas problemáticas sociais. “Este ano voltámos a dizer sim à igualdade e aos direitos humanos e tivemos vontade que organizações de âmbito nacional ou com sede noutros pontos do país, se juntassem à nossa voz com diferentes iniciativas que possam assinalar e valorizar o papel de jovens na luta pela Igualdade e respeito pelos Direitos Humanos”, diz Ana Morgado.

Está em curso uma avaliação externa dos impactos de projeto no sentido de se poder reequacionar o trabalho com jovens e escolas e dar visibilidade aos resultados alcançados.

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