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FOCUSSOCIAL

Inclusão pela arte, pelo desporto e pela música

Trabalho desenvolvido por associação juvenil de Almada - agita - muito bem - a vida de um bairro, das suas crianças e jovens

por Marta Vaz

 

Patrícia Gil, coordenadora de projetos, transborda energia e isso não só é consentâneo com o perfil de uma ativista juvenil como com o próprio nome da Lifeshaker, associação cultural e recreativa, sem fins lucrativos, onde trabalha, formada e reconhecida pelo Instituto Português da Juventude (IPDJ) como associação juvenil, em 2009, em Almada, freguesia da Caparica,  vocacionada para minimizar o impacto da exclusão social em crianças e jovens com menos oportunidades por via da sua participação em múltiplos domínios da sociedade.

“O nosso trabalho visa facilitar o acesso a direitos, meios, espaços e oportunidades que permitam processos de desenvolvimento de capacitação individual, assim como o maximizar de competências, conhecimentos e habilidades dos jovens, atribuindo-se a estes o protagonismo na construção do seu percurso inclusivo em paralelo com a exploração do seu potencial para transformar positivamente a sua comunidade, tornando-a mais ativa e resiliente”, explicam Patrícia Gil e Keveni Fernandes, monitor no projeto Upgrading Participation E6G, desta associação. Transversalmente à idealização e implementação de projetos, “nas nossas práticas estão inerentes os valores da justiça, da igualdade e da democracia, pois acreditamos que através da sua transmissão, reforçamos uma atmosfera associativa onde a cooperação e a solidariedade entre todos produzem um benefício pessoal e coletivo inegável”, diz Patrícia Gil.

Recentemente, a Lifeshaker viu-se entre os projetos selecionados no âmbito do programa “Academias Gulbenkian do Conhecimento” que apoia projetos que promovem competências em crianças e jovens, nomeadamente a promoção de competências sociais e emocionais em crianças e jovens até aos 25 anos: adaptabilidade, autorregulação, comunicação, pensamento criativo, resiliência e/ou resolução de problemas. Mas nestas andanças do reconhecimento a Lifeshaker não é estreante. Em 2015, por exemplo, venceu o prémio "Almada, Cidade Educadora", do concurso jovens talentos de Almada e com a sua Escolinha de Rugby venceu o primeiro prémio Nacional "Desporto e Juventude pelo Desenvolvimento", atribuído pelo Instituto Português do Desporto e da Juventude. 

A associação que deve o seu nome ao acaso – aquando do registo, era este um dos nomes disponíveis - , apesar de lhe assentar como uma luva, insere-se em contextos socialmente desfavorecidos do concelho de Almada, sendo o enfoque prioritário da intervenção a população juvenil, adaptando-se iniciativas e dinâmicas aos desafios e problemáticas emergentes. É inerente às suas práticas a implementação de princípios igualitários, que minimizem a ação de factores de exclusão social no acesso e no usufruto de Direitos Constitucionais e Humanos.  Em alguns projetos, particularizam o enquadramento de grupos sub-representados ou especialmente vulneráveis à exclusão, como são exemplos os projetos “Sim!” e “Roma+”, orientados para a participação associativa da comunidade cigana. “Atualmente o projeto “Upgrading Participation E6G” do programa Escolhas, financiado pelo Alto Comissariado para as Migrações, ocupa o maior protagonismo nas nossas atividades regulares, sendo dirigido à exploração da participação em múltiplos domínios da sociedade por parte dos mais jovens”, explica Keveni Fernandes, monitor no projeto Upgrading Participation E6G.

Ao sábado à noite, por exemplo, desenvolvem uma iniciativa que costuma ter bastante adesão. “Vemos filmes sobre os direitos humanos e, depois, promovemos o debate. A inclusão de crianças e jovens através da participação juvenil a diversos níveis, é a nossa meta”, explica Patrícia Gil, acrescentando que “enquanto estamos aqui a conversar, está um grupo de jovens meninas a ensaiar as suas coreografias das atividades de dança. E com a dança trabalhamos também as questões da igualdade de género, por exemplo, abordando e discutindo situações que fazem parte do quotidiano. A abordagem destas questões através da educação não formal, facilita um estilo de vida mais positivo, mais saudável, mais atento a situações concretas do género, da cidadania, dos direitos humanos”.

A Lifeshaker tem várias parcerias que legitimam e viabilizam o trabalho desenvolvido, nomeadamente com a Câmara Municipal de Almada, a CPCJ – Almada, a Direção Regional de Lisboa e Vale do Tejo do IPDJ, a União de Freguesias da Caparica e Trafaria e o Agrupamento de Escolas Miradouro de Alfazina, sendo que com este último parceiro, trabalham turmas mais problemáticas que, de forma geral, estão votadas à exclusão social e à criação de estigmas que interessa combater. Por aqui, “cultiva-se a compreensão mútua, o respeito pela diferença, a paciência e a tolerância ao erro”, diz Patrícia Gil que tem constatado que o espírito de equipa é algo que tanto os formadores, os monitores e todos os envolvidos tentam cultivar tendo resultados positivos.

As marchas populares de Almada, apesar de serem dirigidas aos mais jovens (maiores de 12), contam com o envolvimento de todos, nomeadamente dos mais novos que trabalham em equipa para que se obtenham bons resultados. É sempre um momento onde toda a comunidade se envolve e quer participar, sendo que os dias que antecedem a marcha são de entrega absoluta, dia e noite, para que o trabalho de todos seja projetado o melhor possível. Não se poupam esforços e esse lema é válido para que a vida da associação se mantenha ativa e conte com o envolvimento e a criatividade da comunidade. Desde os jovens, ao tio e tias, à costureira do bairro, aos pais, familiares e amigos, todos se envolvem na feitura dos arcos, nas coreografias e na confeção dos trajes, tudo e todos dão o seu contributo para o brilho da grande marcha final.

Esta associação juvenil que tem visto o seu trabalho reconhecido pelas boas práticas e pela via da inovação social tem, também, equipas de rugby masculino e feminino. Primeiro começaram os rapazes, depois foi a vez de elas aderirem a este desporto de contacto. E tudo porque, lá atrás, um certo clube de andebol não teve os mesmos princípios de inclusão e integração da Lifeshaker. Queriam formar uma equipa só com as melhores atletas e com as que tinham um comportamento mais fácil, excluindo as outras. “Naquela altura falamos com as miúdas e contamos-lhes o que estava a acontecer e que tipo de seleção queriam fazer. Tal como nós, elas também não concordaram com o processo e resolveram manter-se juntas optando por jogar rugby. Repare: isto tem a ver com a ideia base das nossas atividades, dar a oportunidade a todos e a todas independentemente das suas características pessoais. Perante a injustiça, emergiu e sobressaiu o espírito de equipa e a capacidade critica das nossas atletas”, explica Patrícia Gil. E assim foi. A Bruna e a Melissa abriram alas no rugby. Mais ainda: contribuíram para que, depois, todo o trabalho desenvolvido colocasse a equipa criada num contexto de um bairro social “no patamar do rugby nacional – vencendo o Torneio Nacional Feminino Sub17 (2017), e possibilitando a três atletas a participação em Campeonatos da Europa em representação de Portugal”.  E assim, o desporto confirma ser uma mais-valia nos processos de inclusão, nomeadamente no que diz respeito, ainda, ao desenvolvimento de competências. Por exemplo, “em alguns casos, para capitanear a equipa escolhemos jovens que não tem as características naturais de liderança. Contudo, a responsabilidade acrescida, “obriga-os” a crescer, a marcar pela diferença, a serem eles e elas, o exemplo. E com isso temos obtido resultados surpreendentes – emergindo líderes que ultrapassam as fronteiras do campo e tornam-se elementos indispensáveis na nossa Associação e Comunidade”, explica Patrícia Gil.

Patrícia Gil

No que diz respeito à inclusão pela arte, o trabalho desenvolvido pela associação também é conhecido, sendo explorado pelo projeto Upgrading Participation E6G. A fotografia – Caparica Photovoice – é um dos exemplos. “Grupos identificam o que há de positivo e de negativo aqui no bairro e na comunidade em geral e depois procedem ao registo fotográfico. “Fazemos exposições e debatemos e criam-se oportunidades para melhorar, diz Keveni Fernandes , acrescentando que em breve se poderá ver a exposição “Personalidades do Monte”, retratos de pessoas do bairro que, sob o olhar deles, é uma coisa positiva e não negativa como, tantas vezes, o olhar externo ao bairro.

Patrícia Gil

Neste capítulo está ainda em curso uma atividade que visa dar novos e mais coloridos espaços ao bairro. Uma das técnicas de artes plásticas anda com eles a pintar jogos tradicionais como a macaca, o caracol entre outros. “Esta nova utilidade dos espaços é também muito interessante e conta com a participação deles, que não só lhes dão cor como utilidade para a diversão e os tempos de lazer”.

Patrícia Gil

 

Também na música se espera por um DJ que em breve ajudará a fazer ouvir novos ritmos e a construir novas atividades. O importante é não desanimar e apostar no trabalho de equipa. A Lifeshaker já mostrou como se agita a vida de um bairro, das suas crianças e jovens. Com atitude e participação. E, claro, que a participação política também tem lugar. “Somos persistentes no diálogo com os decisores políticos, importa sensibilizá-los para a realidade que muitas vezes ultrapassa a sua sobrecarregada agenda de trabalho”, diz Patrícia Gil, para quem o saber estar de forma crítica e construtiva é muito importante. “Em última análise, tentamos que cada jovem perceba que as suas necessidades e motivações podem chegar à esfera de poder a nível local, nacional e europeu, sendo de facto possível, na perspetiva individual, contribuir para a melhoria da qualidade de vida da sociedade em geral”. Agora, por exemplo, estão envolvidos no desenvolvimento de uma petição pública para a instalação de um campo desportivo na freguesia. “Há aqui tanto potencial desportivo e já o dissemos ao atual e ao anterior vereador da Câmara Municipal de Almada, responsável por este pelouro. O desporto é uma ferramenta privilegiada para trabalhar com jovens, sobretudo no domínio da inclusão social como apontam diversos artigos científicos e resoluções da Comissão Europeia. Provámos pela nossa experiência que esta via é pertinente e precisamos do apoio autárquico para ir mais longe. Acreditamos que pudemos passar das dezenas para as centenas de praticantes num curto espaço de tempo e, desta forma, contribuir para a revitalização social e económica da nossa comunidade”, remata Patrícia Gil.

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