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FOCUSSOCIAL

Conversa sobre humor e religião

Padre Rui Santiago fez rir e sorrir (e pensar)

“Graças a Deus, muitas; graças com Deus, poucas”. E o provérbio fez-se pergunta, dirigida ao padre Rui Santiago, que confessou não concordar, explicando porquê durante uma conversa intitulada “Aquele que habita os céus sorri”, iniciativa organizada pelo Centro Dehoniano, no Porto, no passado dia 22 de Novembro, no âmbito da “Noite 4x4”, evento que faz parte das atividades daquela organização religiosa dedicada à Pastoral Universitária Dehoniana.

«Graças com Deus, muitas! Com quem é que a gente mais brinca? É com quem mais gosta. Brincar com Deus? Claro que sim; eu brinco com quem gosto. O que é que Deus acharia se eu não O achasse digno de brincar com Ele? Acho que ficaria triste. Portanto temos de brincar com Deus. Jesus diz-nos que temos de ser amigos, que temos de ser crianças, e o que é mais sério para uma criança do que o brincar?», interrogou Rui Santiago, explicando o seu ponto de vista, a uma plateia atenta que lotou a sala do Centro Dehoniano.

Numa entrevista conduzida por Joana Alves e Regina Branco, o padre Rui Santiago foi confrontado com questões que geraram grande descontração e curiosidade sobre temas muito sérios e de grande atualidade. Falou pontualmente do seu percurso como sacerdote, das suas distrações irrisórias, recordou sorridentes episódios da infância, deu conta do que mais o faz rir e revelou o que lhe tira o sorriso do rosto. «Verdadeiramente o que me faz perder o sorriso é saber que no centro da Europa está acontecer uma guerra e que ninguém fala dela; não é notícia e isto choca-me muito. Todos dias morrem pessoas na Crimeia e não vem nos jornais porque não interessa noticiar. E também me choca muito fazerem de conta que já acabou a vaga de refugiados a entrar na Europa, também já não é notícia».

 

Humor e Religião

 

E na sua opinião, ao que se deverá a falta de sorrisos no quotidiano? Na rua, no metro, no trabalho poucos ou quase nenhuns são os sorrisos, interrogaram as entrevistadoras. Rui Santiago não hesitou na resposta: «Normalmente não sorrimos muito fora da relação. E o certo é que andamos todos um bocado cansados; um bocado escravizados e por isso temos comportamentos de escravos. Reparem que o mundo do descanso e da relação é furtivo. E o território do descanso, da relação gratuita, o não fazer nada, não é promovido. Nós temos vergonha de não fazer nada. E neste sentido está em crise o mandamento bíblico do descanso. No caminho da libertação, Deus manda parar, Deus manda descansar».

E de pergunta em pergunta, de riso em sorriso, fez-se um serão de reflexões muito atuais. “O humor abre espaço nas nossas vidas à surpresa. Rimo-nos porque, sem esperarmos, uma palavra cheia de graça vem ao nosso encontro. Na verdade, também a fé não é, de todo, uma experiência previsível, um mapa prévio muito detalhado, mas uma abertura à surpresa de Deus”, escreveu um dia, o padre poeta, Tolentino Mendonça. E foi por aqui que o caminho continuou levando a refletir sobre se poderá ou não haver relações sem o humor? Rui Santiago não hesitou: «Infelizmente é possível, mas correm mal, porque sem humor a gente não se safa. O humor é capacidade de diante de uma situação olhar na perspetiva da graça. É necessário olhar as situações pela graça».

E que propostas para que a Igreja possa rasgar um sorriso ou até colocar um nariz vermelho? Quiseram saber as entrevistadoras no interesse de todos os que ali se deslocaram. E, mais uma vez, o padre Rui Santiago revelou o seu ponto de vista, afirmando a necessidade de uma “proposta muito radical, até, talvez, um bocadinho escandalosa, que é recuperar o evangelho (se calhar estou a abusar no desejo, no sonho) mas eu acho que nos afastamos um pouco do evangelho e é o contacto com ele que nos põe no nosso devido lugar; há uma quantidade de acessórios que nós começamos a levar a sério de mais e depois começamos a levar-nos a nós próprios a sério de mais, também; e perdemos aí uma leveza, perdemos uma graça. É necessário voltar à graça do evangelho, pois a convivência primordial com Jesus muda tudo. Mas creio que o caminho possa ser por aí, por “desarreligiozamos” um bocadinho para podermos tocar pele, carne; para percebermos que Deus é mais humano do que nós».

E foi assim um serão onde se ficou de alma cheia porque, afinal, “onde existe fé, também existe riso”. A irreverência do riso é uma maneira interessante de exprimir e refletir sobre as coisas da fé e até de fazer alguma teologia.

 

Fotografias: Pastoral Universitária Dehoniana

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