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FOCUSSOCIAL

Pausa com… Miguel Carvalho

Fotografia: Lucília Monteiro

Miguel Carvalho, 41 anos, é Grande Repórter/Redator Principal da revista Visão. Jornalista desde 1990, trabalhou no Diário de Notícias e no semanário O Independente. Tem o Curso de Radiojornalismo do Centro de Formação de Jornalistas do Porto. Venceu o Prémio Orlando Gonçalves (modalidade Jornalismo) da Câmara Municipal da Amadora (2008) e o Grande Prémio Gazeta, do Clube dos Jornalistas, em 2009. É autor das obras Dentada em Orelha de Cão – Histórias do Mundo com Gente Dentro (Campo das Letras, 2004), Álvaro Cunhal – Íntimo e Pessoal (Campo das Letras, 2006) e Aqui na Terra (Deriva Editores, 2009). Este é o seu quarto livro, o primeiro para a editora Quidnovi.

Tem vários textos jornalísticos e literários dispersos por obras e publicações nacionais e estrangeiras.

Nasceu no Porto, cidade que ama e onde gostaria de viver até ser pó, cinza e nada.

(…) Dos cabarets à pintura, do ballet ao cinema, da escultura à fotografia, a comunidade russa contamina a França, de Cannes a Paris, com seus talentos, encantos, misérias e cheiro a mofo.

A capital é a nova casa de mulheres fatais, sofisticadas, ex-condessas e ex-damas da corte russa.

Músicos russos seduzem os parisienses com as suas melodias tradicionais. Antigos generais czaristas, engalanados como no tempo do Império, são agora porteiros da lendária vida noturna de Paris.

Todas as noites gera-se uma azáfama considerável na margem direita do Sena.

Homens de fraque e mulheres copiando as roupas e trejeitos das atrizes famosas confluem para a Rua de Liége, 3, onde uma enorme porta de grossa madeira cravada na parede simula o imaginário de um castelo. Entre os habitués do Cabaret Shéhérazade está Lúcio Feteira.

A porta abre-se num estalido.

Lá dentro, um cenário oriental com o charme da decadência acolhe a alta sociedade cosmopolita de Paris.

Tecidos luxuosos forram os tetos, em balão, e descem pelas paredes.

Pelas mesas, envoltos em névoas de fumo de cigarros, repousam os melhores champanhes em baldes de gelo.

O ambiente é sumptuoso, desde os trajes típicos dos empregados ao mobiliário. A Rússia czarista sobrevive no Shéhérazade num cenário de ceias pantagruélicas, com orquestras e balalaicas em fundo.

Lúcio viveu os seus últimos anos de juventude sem compromissos, sem regras e sem perder muito tempo a pensar no futuro.

«Fui muito feliz em Paris», recordará, melancólico.

Naqueles loucos anos 20, diverte-se até ao amanhecer, rodeado de tentações e fazendo as amizades mais improváveis, entre elas a do príncipe Carol, da Roménia, cúmplice de madrugadas e perdições, pouco dado aos rigores do matrimónio e famoso pela sua desconcertante vida amorosa.

Embriagado de boémia e rodeado de companhias que desafiam a libido, Lúcio demorará ainda uns meses a cair na realidade.

Mas o pecúlio acumulado na odisseia africana estava a finar-se e Feteira começa a perceber o estreito caminho em que se havia metido.

Embora relutante em abandonar uma vida de fausto, toma a decisão de embarcar no Sud-Express e regressar a Portugal.

Despede-se dos amigos e dos romances, compra o bilhete e parte. (...)

Miguel Carvalho in Lúcio Feteira, A História Desconhecida, pag. 101, QuidNovi, 2011

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