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FOCUSSOCIAL

Uma pausa com… Afonso Cruz

Fotografia: Maria João Lima

Além de escritor, Afonso Cruz, é também ilustrador, cineasta e músico da banda The Soaked Lamb. Em Julho de 1971, na Figueira da Foz, era completamente recém-nascido.
Haveria, anos mais tarde, de frequentar lugares como a António Arroio, Belas Artes de Lisboa, Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira e mais de meia centena de países. Recebeu vários prémios e distinções nas várias áreas em que trabalha, vive no campo e gosta de cerveja.

Fique com um trecho do seu mais recente romance.

 (…) A dentadura dentro do copo de água mostra o trabalho da morte, como ele é contínuo e não algo que acontece de repente. Os dentes já morreram todos, diz o copo de água com um sorriso lá dentro. Os cabelos morreram e ficaram brancos, as memórias foram engolidas. E aquela boca ri-se dentro de água, dentro do copo, mesmo ao lado da cama. E outras vezes ri-se dentro da nossa própria boca, e há nisso uma negra ironia.

Antónia está estendida na cama, a dormir. Há um gato selvagem que lhe aparece nos sonhos e urina nos cantos para afastar os outros sonhos. E há um corvo que vem todas as noites morrer de velhice num ramo de marmeleiro. Mas antes de morrer sonha com sapatos e com nuvens, e entre uns e outros há uma rapariga que não sabe o que fazer com a vida e tem sobrancelhas grossas e o cabelo preto como o esquecimento.

Por vezes, Antónia está parada, por vezes está lúcida, e, por vezes, está cheia de mortos dentro dela. São todos os que lhe morreram: o filho João Lucas Marcos Mateus, o marido, os pais, os avós, os irmãos ? que eram seis e morreram de tuberculose e de pneumonia e de escarlatina e de fome ?, os tios, as amigas de infância e duas vizinhas. o seu filho é o mais próximo, o que está mais dentro. Para Antónia, ele nunca cresceu e vê-o sempre criança. Nas suas memórias, João Lucas ficou atrasado no tempo, nunca se casou, nunca chegou a andar em rixas e nunca foi tolhido por um tractor. É assim que ele lhe aparece, e ela dá-lhe conselhos e dá-lhe beijos desajeitados na testa: quando cresceres vais para Lisboa, que o Alentejo é um cemitério. Tenta agarrar-lhe a cara, apertar-lhe as bochechas, mas as mãos são máquinas enferrujadas e custam a sair do colo ou de dentro do avental.

Afonso Cruz in Jesus Cristo Bebia Cerveja, Alfaguara

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