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FOCUSSOCIAL

Banco Social

Quando parece não haver mais nenhuma solução o Banco Social propõe e viabiliza responsabilidade coletiva no combate ao desemprego

por Marta Vaz

Fotografia: Egídio Santos

A conjuntura sócio-económica europeia, como sabemos, não é a melhor. A Europa está a passar por fortes provações e o sistema de proteção social está, em muitas frentes, periclitante. Faltam novos modelos, resultantes da rutura dos anteriores paradigmas. Uns falidos, outros à beira da falência. Faltam respostas, nomeadamente para o crescente desemprego. Portugal já passa os 15 por cento. O direito ao trabalho anda muito torto e, num ápice, perde-se o emprego, interrompe-se o caudal quotidiano “sine die”. Uma aflição. Maior para quem tem contas para pagar, uma família para alimentar e, de repente, se vê sem rendimento nenhum. Um cenário que se tem tornado comum. E já não é só a comunicação social a trazer-nos essas realidades. O nosso vizinho, a mulher do colega de trabalho, o familiar, o amigo, o amigo do amigo. E isto também diz o quanto o fenómeno do desemprego é real e galopante.

Tantas vezes, famílias inteiras desamparadas, vítimas de desemprego de longa duração, sem direito a nenhum subsídio. Sem nenhum amparo enquanto a vida não lhes devolve a “normalidade” , permitindo-lhes um regresso digno ao mundo laboral.

É neste contexto que surge, acabado de nascer, o Banco Social, fruto da ideia das suas mentoras e coordenadoras, Claudia Rodrigues e Maria do Sameiro Moura. Depois, veio a “madrinha” e presidente, Maria Lopes Cardoso, completamente rendida ao projeto incubado na Universidade Católica, ao abrigo da iniciativa Spinlogic, promotora do empreendedorismo social. Aliás, o Banco Social, foi um dos projetos premiados.

«Queríamos trabalhar num projeto em que acreditássemos e que fosse capaz de preencher uma lacuna. Fizemos uma longa pesquisa e descobrimos que não havia nada do género em Portugal», explica Claudia Rodrigues, acrescentando que «sempre soubemos que seria um desafio estimulante, muito mais na atual situação em que o nosso país se encontra».

O Banco Social, ainda não tinha nome, nem tinha nada, mas já estava predestinado a tornar-se realidade. As suas mentoras cruzaram-se, por acaso, no mestrado de Ciências da Educação e, ainda sem se conhecerem, tinham o mesmo anseio. Motivações diferentes para o mesmo sonho por cumprir. Encontraram-se, de um momento para o outro, cúmplices de uma vontade que tornaria o projeto viável. Depois, acrescentaram-lhe rigor, conhecimentos técnicos e teóricos, experiência e muita vontade de fazer acontecer.

«Não queríamos, nem podíamos fundar uma empresa que não fosse sustentável e que não fosse, de facto, uma resposta necessária a um determinado problema. Também não queríamos, nem podíamos apostar numa solução que fosse o mero dar», explica Maria do Sameiro, coadjuvada por Claudia Rodrigues: «as parcerias que procuramos fazer são parcerias que não se limitam à teoria. São parcerias efetivamente participativas, cientes da produção de resultados, da responsabilidade partilhada. Existem parcerias que não são reais. Em alguns casos, até existem os mecanismos, mas não funcionam. Nós queremos algo mais. Não somos a favor da “subsidiodependência”».

E, na prática, como funciona o Banco Social? Simples. De um lado, estão colaboradores sociais, do outro, investidores sociais. No meio, a equipa do Banco Social a fazer a mediação. E não só. Quem são e como se articulam, eis a questão.

Colaborador social pode ser qualquer pessoa que não beneficie de nenhuma fonte de rendimento e que, por isso, se encontre em dificuldades como resultado de uma situação inesperada de desemprego, doença e/ou divórcio. Desamparada, de “um dia para o outro”, sem capacidade financeira para dar resposta aos compromissos assumidos, pode procurar o Banco Social, expor a sua situação e pedir auxílio. Depois, são efetuadas algumas entrevistas, pedida alguma documentação e, após a aceitação das condições, há que assinar “uma declaração de honra”. À luz deste compromisso, o colaborador social executa funções que lhe serão atribuídas, preferencialmente de acordo com a sua experiência profissional. «Passará a trabalhar em favor de instituições de solidariedade, sendo-lhe atribuídas tarefas durante um determinado período de tempo ou pedido para concretizar novos projetos, utilizando e reabilitando os recursos existentes nas instituições que lhe serão apresentadas», explica Claudia Rodrigues. «O Banco Social não dará dinheiro, mas pagará as necessidades reais de quem o procura, em contrapartida pelo seu trabalho, e isto, entendemos nós, dignifica quem pede ajuda, tornando o processo útil e justo», reforça Maria do Sameiro Moura.

Por outro lado, empresas e/ou particulares podem tornar-se investidores sociais através do seu contributo monetário. Quem encontrar neste projeto sintonia de princípios e acreditar que pode, de fato, ajudar a transformar a sociedade, propõem-se como investidor social. Em contrapartida, receberá retorno e reconhecimento sociais.

«Para além de ajudar à diminuição do endividamento familiar, o investidor contribui para uma sociedade mais responsável e pró ativa, ajudando a criar condições para uma maior estabilidade familiar e social, tornando viável o crescimento e autonomia das instituições de solidariedade », diz Claudia Rodrigues.

«E temos, também, de ter em conta a responsabilidade social, cada vez mais importante para as empresas. Da nossa parte, a este respeito, o compromisso é de lhes enviarmos relatórios periódicos, dando conta da evolução das ações que patrocinam. Para além de que todas as transações financeiras são devidamente auditadas, até com o objetivo de, por exemplo, apoiar os relatórios de sustentabilidade social das entidades que investem em nós», detalha Maria do Sameiro Moura.

De referir que a ideia do Banco Social não é substituir ninguém nos seus postos de trabalho, mas sim ajudar a resolver, ainda que pontualmente, a situação fragilizada destas pessoas, encaminhando-as e acompanhando-as até conseguirem regressar ao mercado de trabalho. «O que mais valorizamos e tentamos concretizar é que, depois, as pessoas possam ficar integradas em projetos sustentáveis, com continuidade. Por outro lado, é importante sublinhar que não somos nenhuma agência de trabalho temporário», diz Maria Lopes Cardoso, acrescentando que «a estimativa da ajuda, nunca esquecendo que cada caso é um caso, é mais ou menos de seis meses». No entanto, refere, «isto não é matemática, é a vida das pessoas» e cada caso será analisado à luz dessa singularidade. É fundamental atentar que este processo, desde a aproximação da pessoa que pede ajuda à resposta do Banco Social, se desenvolve em volta de valores. Nomeadamente, à volta da confiança. Ao confiar os seus problemas ao Banco Social, a pessoa está à procura de uma solução, também ela sustentada na fidúcia. «O Banco Social gosta de pessoas, trabalha com elas e para elas. Foi exatamente para isso que o Banco Social surgiu. Acreditamos que a mediação é uma energia muito positiva, um instrumento que, bem usado, pode construir pontes fundamentais, criar exércitos de investidores sociais, verdadeiramente vocacionados para, em parceria, encontrarmos soluções para os problemas gerados pela sociedade atual», diz Maria Lopes Cardoso.

Fica claro que confiança, credibilidade e transparência são valores basilares em todo o processo desencadeado por esta empresa social. E, apesar de terem começado a funcionar há pouco mais de um mês, apenas no Porto e na área metropolitana, o Banco Social já está a analisar pedidos de ajuda. E quer contribuir para que as políticas sociais sejam mais ajustadas às necessidades de cada pessoa e que não tenham por base a “caridadezinha”, mas sim o investimento na capacidade de retribuição do ser humano. «Queremos ajudar quem quer ser ajudado. Bem sabemos que, às vezes, numa situação fragilizada, dar o primeiro passo para pedir auxílio é difícil. Mas desespero sem humildade é arrogância», afirma Maria Lopes Cardoso, convidando a uma abordagem desempertigada, mas confiante.

Conheça o Banco Social em http://banco-social.org

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