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FOCUSSOCIAL

A problemática do envelhecimento na literatura e a comunicação entre gerações

(…) Destacámos o trabalho de quatro escritores, dois portugueses, um colombiano e um italiano com uma enorme paixão pela literatura portuguesa.

por Cláudia de Sousa Dias

Socióloga e crítica literária

Face a uma questão tão complexa e tão determinante no quotidiano dos cidadãos como é o envelhecimento e a comunicação inter-geracional, optámos por fazer uma viagem mental pelo Universo da Literatura, da forma como é tratada a questão por alguns escritores de altíssima performance artística. Consequentemente, destacámos o trabalho de quatro escritores, dois portugueses, um colombiano e um italiano com uma enorme paixão pela literatura portuguesa:

Valter Hugo Mãe, Luísa Monteiro, Gabriel García Márquez e Antonio Tabucchi.

I - Valter Hugo Mãe aborda o problema sob uma perspetiva evolutiva, ao longo da sua obra de ficção publicada até à data, começando por O Nosso Reino, aquele a que chamo de o livro da inocência. Trata-se de uma história contada pelo ponto de vista de uma criança, introvertida e com uma invulgar capacidade de observação, que parece não compreender o mundo dos adultos, cheio de contradições. Crianças e adultos coexistem como que em mundos separados, sendo que a relação com os mais velhos se processa em termos de transmissão de normas e padrões de conduta, mas levada a um extremo tal, que leva à anulação da personalidade e à ausência de sentido crítico. No seu segundo romance, O Remorso de Baltasar Serapião, o autor fala do amor durante a fase da adolescência. Este é o livro do ciúme e do amor possessivo, decorrente da imaturidade, onde a localização temporal parece situar-se na Idade Média, podendo, no entanto, passar-se na atualidade, já que aborda um problema que assola a sociedade contemporânea: a violência nas relações, fruto da imaturidade, falta de diálogo e desigualdade de oportunidades. Em Apocalipse dos Trabalhadores Valter Hugo Mãe incide já sobre a idade adulta e a precariedade que condiciona os afetos, sendo esta a primeira das suas obras onde faz uma abordagem direta ao problema do envelhecimento, dando-nos uma visão do amor numa franja da sociedade onde a existência é muito precária: o quotidiano de duas mulheres-a-dias já saídas da juventude, por um lado, e a vivência do imigrantes do Leste, pelo outro. Um dos aspetos mais cativantes deste livro é a referência a uma vida inteligível ou pelo menos espiritual, após a morte, com capacidade de pensar e raciocinar dotada de sentido de humor, sentido crítico e, até, de algum “veneno.” Mas é com A Máquina de fazer Espanhóis, cuja ação é passada num lar de idosos, que VHM mergulha diretamente na problemática da velhice e do amor na terceira idade, enquanto que no romance anterior incidia apenas sobre o amor entre duas pessoas de gerações diferentes. Por fim, em O Filho dos mil Homens, após tratar das quatro fases do ciclo da vida nos romances precedentes, o autor regressa ao ponto de partida: a infância. Mas, desta vez, contada por um homem que, chegado os quarenta anos, sente o impulso de se tornar pai e criar uma família.

II - A escritora Luísa Monteiro é originária do Minho, embora resida há largos anos no Algarve. É detentora de uma visão alargada e profunda acerca das diferenças de mentalidade e cultura adentro do País, assim como dos respetivos tabus sociais, tendo já uma extensa lista de obras publicadas. Da sua obra, destacam-se O Estranho Amável e As Sobredotadas, como as mais explicitamente relacionadas ao binómio cooperação/conflito de gerações. Em O Estranho Amável, a autora serve-se da intertextualidade com a obra de Lewis Carrol, Alice no País das Maravilhas e de Vladimir Nabokov em Lolita. No Estranho Amável, Luísa Monteiro mostra-nos a Alice de Lewis Carrol aos oitenta anos, encerrada num lar em terras algarvias, onde continua a viver o seu mundo de sonho e maravilhas. O pré-surrealismo de Carroll alia-se, aqui, ao surrealismo de Luísa Monteiro através da adição à personagem do conto juvenil de uma audaciosa nota de provocação, expressa na defesa do direito ao Sonho pela exploração da fantasia e da imaginação. Uma temática ousada numa sociedade onde os idosos são, na sua maior parte, excluídos, é tratada pela pena da autora com surpreendentes metáforas, personificações e sinestesias, para melhor exprimir a cisão com o princípio de uma realidade cartesiana. Trata-se do direito ao prolongamento da infância na vida adulta e na velhice – o principal motor do conflito na obra de Luísa Monteiro. Depois, há o marido de Alice, Fernando, e Luís, um estranho amável que a visita no sanatório. Tanto um como outro tendem a gostar de mulheres-crianças. O primeiro para se sentir senhor da situação, pelo desejo de exercer domínio em relação à parceira; o segundo para poder partilhar o gosto de vaguear pelo mundo da fantasia. Um quer possuir, o outro, partilhar. Talvez por isso, Luís, o estranho amável, nunca passe ao ato de união física com a “menina” por quem nutre “um afeto tão grande que não cabe dentro de si”. Um afeto que se prolonga pela vida inteira até mesmo depois daquela idade em que a beleza e a juventude abandonam definitivamente o corpo, mas não a mente. Os amantes idosos são alvo dos gracejos dos Anjos da limpeza e do despeito inicial de Lolita, a supervisora da instituição. O sono conciliador de Alice, condicionado pelos ansiolíticos, lança-a, mais uma vez, no mundo, onírico, surrealista, cheio de linguagem codificada, onde tudo é metáfora de tudo. É neste plano, que ela reencontra Luís, transfigurado, envelhecido. Luís é preso nos voos azuis (a cor da morte) de Alice, embora tenha já sido despojado do sentido da vida ao ser separado de Alice. A Alice idosa é dona de uma impressionante lucidez que a faz distinguir a verdadeira e a falsa amabilidade, as fases do amor convencional, previsível e destinado a transformar-se em tédio, a esvaziar-se do seu conteúdo. Mas enquanto Alice é a mulher do amor perfeito, absoluto, Lolita é a mulher das loucas paixões. Trata-se de um outro arquétipo, tratado e revisto por Luísa Monteiro em várias das suas obras, mas que aqui surge também envelhecida. Mas apesar de aparentemente submissa, Alice consegue inspirar Lolita (ou Carroll inspira Nabokov). Na fase do alheamento, Alice amplia o processo de cisão com a realidade que culmina com o segundo AVC, após o qual mergulha definitivamente num mundo só seu. Mas a obra de Luísa Monteiro onde o Amor opõe duas gerações diferentes, intitula-se As Sobredotadas onde assistimos ao conflito de gerações, na qual a mulher mais velha, Aurora, a mãe, tenta aniquilar a vontade própria da mulher mais jovem, a filha, sobredotada Hildegarde, tentando fazer dela um prolongamento de si mesma. A autora faz sobressair a diferença de personalidade entre ambas, até na forma de apresentação exterior. Enquanto o vestuário de Aurora faz lembrar um uniforme militar, Hilddegarda exibe laços amarelos, a fazer lembrar borboletas, nas tranças correspondendo ao arquétipo do Inverno ao qual sucede a Primavera, respetivamente.

III – Para Gabriel García Márquez a relação entre gerações é sobretudo de cooperação, intercâmbio de elementos culturais e afectivos, marcadamente presente em toda a sua obra, mas da qual destacamos, O Amor nos Tempos de Cólera, Cem anos de Solidão e Memória das minhas Putas Tristes. Numa série de entrevistas concedidas ao jornalista Plínio Apuleyo Mendoza em O Aroma da Goiaba o autor salienta a influência da avó Tranquilina, responsável pela transmissão do património imaterial local que lhe impregnou o imaginário das lendas índias dotando-o, ao mesmo tempo, de uma intuição fora do vulgar que não cabe nos estreitos limites do racionalismo cartesiano. Já do avô, partidário dos ideais socialistas de Garibaldi, Gabo herda as convicções políticas, a noção de solidariedade, à qual junta, depois, a sua pena de escritor e jornalista, como alavanca para mudar o mundo. N’ O Amor nos Tempos de Cólera foram salientados dois aspetos fundamentais da obra: o quotidiano das personagens e da povoação onde vivem; e os efeitos operados pela dança do tempo. No final do romance, assistimos ao triunfo do amor, após o desenrolar da saga de aventuras e desventuras, versando sobre a felicidade humana, a sublimação da mulher como peça fundamental numa sociedade matriarcal e por último, uma nova forma de olhar a velhice, desdramatizada e despojada da perspetiva decadentista tradicional. O tempo real do desenvolvimento da narrativa abrange um período de “cinquenta e um anos, nove meses e um dia” que vai desde a época dourada da belle époque até à primeira metade do século XX. Ao longo de toda a evolução da trama, o autor empenha-se em reconstruir o mito do eterno feminino, incarnado por Fermina, a protagonista, a qual surge, logo no início da história, como uma “deusa coroada”. Este é o romance do amadurecimento do amor ao longo do tempo e “um apelo desesperado da vida contra a morte e do amor contra a solidão.” Na história que começa por ser um desamor e termina com um epílogo feliz,assistimos à lenta evolução dos fatores que fazem um casamento aparentemente perfeito desmoronar a longo prazo: aquilo a que o autor chama de “o veneno da rotina” ou “as pequenas contrariedades do quotidiano”, que faz erodir um amor que parece perfeito. A habitual perspicácia de Gabo no tocante ao desenvolvimento das relações humanas evidencia que, contrariamente àquilo que seria de esperar, não são as grandes crises que afetam um casamento já que, após serem ultrapassadas, estas tendem a ser esquecidas mas antes, as pequenas ninharias do dia-a-dia, como podemos observar no divertido “episódio do sabonete”. Em Cem anos de Solidão deparamo-nos com dança entre o realismo e o surrealismo, tal como acontece na obra de Luísa Monteiro. Mas em Cem anos de Solidão o realismo de GGM manifesta-se na forma como é mostrado o alheamento progressivo das personagens (Jose Arcadio Buendía e Aureliano), à medida que se aproxima a velhice e a hora da morte. As mesmas personagens vão-se distanciando do mundo quotidiano enquanto se refugiam na nostalgia das histórias do passado. É com estas mesmas histórias que os anciãos conseguem deleitar a imaginação das crianças - como acontece com a avó Úrsula, que se torna uma autêntica boneca, com a qual os mais novos se divertem a brincar - em nítido contraste com a indiferença dos adultos, absorvidos com os problemas do dia-a-dia. Já em Memória das minhas Putas Tristes temos um jornalista nonagenário que deseja recuperar o vigor da juventude fazendo uma viagem pelo passado através dos sentidos. O protagonista goza, até aos noventa anos, de uma merecida fama de Dom Juan sem conseguir, ao longo da vida, espartilhar a própria sexualidade dentro da instituição do casamento. Este jornalista rebelde dedicou toda a sua vida à boémia e, por esse motivo, decide escrever a memória das suas “putas tristes” – ou seja, a história de todos os amores que poderiam ter sido e não foram. È por essa razão que, no dia do seu nonagésimo aniversário, decide visitar o bordel da sua velha amiga Rosa Cabarcasa. O objetivo desta visita é a comemoração da passagem à décima década de vida com uma noite de amor louco na companhia de uma adolescente virgem, como uma viagem no tempo. Gabo explora o tema do amor na terceira idade, mas de uma perspetiva totalmente diversa da de Valter Hugo Mãe ou Luísa Monteiro, ao relativizar ou atenuar a gravidade das consequências do envelhecimento, principalmente no tocante à dissolução da memória. Esta, no seu entender, torna-se volátil para o supérfluo e perene para aquilo que mais interessa o sujeito. A obra é a exaltação do amor físico que com o envelhecimento se torna idealizado, construído à base de um desejo onírico de uma grande beleza plástica. A descrição de Delgadina adormecida assemelha-se, quer pelas cores, quer pelas características físicas da jovem, a um quadro de Frida Kahlo. O protagonista ama mais Delgadina adormecida do que acordada, um quadro de beleza perfeita no auge da juventude. O jornalista e narrador é alguém sensível à meta-linguagem ou linguagem não-verbal, que possibilita outras formas de comunicação: “Tenho má química com os animais, assim como com as crianças antes de começarem a falar – pela dificuldade em negociar com eles”. Por este motivo demora a adaptar-se ao gato angorá, um presente que não pôde recusar e cuja presença o faz pensar em Delgadina que, tal como o gato, não fala na sua presença. É também através deste gato envelhecido e incontrolável que Gabo aborda neste romance o problema da eutanásia. O narrador identifica-se com o gato ao associar a sua condição de idoso à velhice decrépita do animal, aproximando-se do bicho por solidariedade.

IV - Por fim, o último autor que pretendemos aqui referenciar: Antonio Tabucchi, o mais pessoano dos autores de língua italiana. No seu romance epistolar, composto por fragmentos de memórias intitulado Está a fazer-se cada vez mais tarde assistimos ao exorcismo dos fantasmas nas relações amorosas que se vão esboroando no tempo e definhando até à dissolução final. Este é o fio condutor do romance, cuja localização espacial se distribui por vários locais da Europa Mediterrânica ou do Sul, Portugal incluído, passando por lugares como Creta, Heraklion, Lisboa, Veneza, Nápoles com uma escapadela a Paris. As personagens incluem um narrador cuja complexidade faz lembrar os heterónimos de Fernando Pessoa – desde o médico ao músico ou ao encenador -, embora possuindo sempre a mesma “voz” que exprime anseios, angústias e problemas existenciais muito similares: há duas esposas, uma amante de longa data, as amantes ocasionais, o rival, aqueles que zelam pela saúde mental e física do narrador e protagonista. Por outro lado O tempo perdido – uma piscadela de olho a Marcel Proust – pode ser recuperado através de um instante, suscetível de eclipsar toda uma vida de tédio. Esta expectativa parece ser aquilo que mantém o mesmo narrador agarrado à vida – e à escrita – cuja linha percorre os meandros do labirinto de emoções: o fio da vida, deixado por uma atenciosa Ariadne mas que, a qualquer momento pode ser cortado por uma das Parcas.
As intertextualidades estendem-se ao campo musical e às artes cénicas, nomeadamente na referência à Norma de Bellini, na carta intitulada “Casta Diva”, e à música popular italiana, com especial incidência no sentimentalismo das canções napolitanas.  Está a fazer-se cada vez mais tarde é uma obra composta por fragmentos e desdobramentos de identidade, deliciosamente complexa, labiríntica, tal como, aliás, toda as obra de Tabucchi. Átropos, a Parca que corta o fio da vida está representada, aqui, no papel de amante de um dos narradores, que é também o protagonista do romance epistolar de que aqui tratamos. Encontra-se em Creta, o local principal da ação – onde começa e acaba o romance - deixando-nos adivinhar um final sinistro, enigmático, mas implacável. A própria expressão que dá o título à obra soa, aqui, como uma sentença, acentuado a sua tragicidade. O fio perde-se. Parte-se. No labirinto mais conhecido da História do Ocidente, por esta sombria Ariadne.

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