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FOCUSSOCIAL

Um relógio a tiquetaquear

Texto: Paulo Kellerman Fotografia: Sonja Valentina

A minha avó morreu. Ontem.

Visitei-a dois dias antes. Não a via há meses e pareceu-me na mesma, como sempre. Conversámos as mesmas conversas do último encontro, fomos repetindo as mesmas insignificâncias delicadas e inconsequentes. Gostou especialmente de ver a minha filha; deu-lhe umas pantufas que recebeu num natal distante e que não lhe serviram, que por timidez ou generosidade não quis trocar. Daqui cinco anos já lhe servem, disse ela; e apertou-as muito bem no papel de embrulho, como se fossem preciosas. Pensei: que significarão cinco anos para quem pode viver apenas mais cinco horas? 

Não parei quieto, impaciente e envergonhado por estar com pressa de partir; como se o meu tempo fosse precioso. Indiferente à minha urgência, foi listando tudo o que iria oferecer à bisneta, tudo o que ainda queria fazer com ela, para ela.

Depois, falámos de médicos. Falámos de casas. Falámos dos vizinhos. Falámos de futuro.

De repente, disse: vou apanhar uma galinha para fazerem canja. E eu, que não saberia o que fazer com uma galinha, respondi, apressado, talvez contrariado: não, apanha-a noutro dia qualquer e faz a canja; depois, jantamos cá. Ela insistiu na oferta, eu insisti na recusa; incapaz de perceber que forçá-la a adiar era torturá-la. Por fim, desistiu. Insultou-me por não querer comer nada, por não querer beber nada. Deu guloseimas à bisneta e ficou triste por eu não permitir que lhe enchesse os bolsos de rebuçados. Prometi que voltaríamos daí a uns dias. Voltámos costas. Não viu o último adeus que a minha filha lhe acenou.

A galinha lá andará, ainda.

O caixão é transportado por nós, os netos. Terão passado anos desde a última vez que estivemos todos juntos, com ela. Caminho e vou pensando, tentando distrair-me da dor que o peso da morte provoca, mas não me lembro da última vez em que estivemos todos reunidos. Um jantar qualquer, em que todos, ou quase todos, estaríamos contrariados, a comer a galinha com arroz e batatas fritas, à espera da libertação. Como se fosse penoso estar com quem nos ama. Terá sido essa a última vez. E agora: todos juntos, agarrando o caixão. 

Tenho a certeza que ela gostaria muito de ver todos os netos reunidos em seu redor, reunidos para si. Claro que agora é tarde demais; e pergunto, indignado comigo próprio: teria custado assim tanto?

Penso na fotografia que ela guardou durante anos em cima da televisão: os cinco netos, sorrindo. Sorrisos condescendentes, de quem não teme o futuro; sorrisos arrogantes, de quem ainda não aprendeu a saborear o presente, o momento, a insignificância. 

Sorrisos de idiotas.

Pediu: dá corda ao relógio que eu já não tenho força. E eu dei, devagarinho, para não estragar um relógio que é, com toda a certeza, mais velho do que eu. Ela disse: mais. E eu fui dando.

Quando vim embora, o relógio ficou a trabalhar. Certamente que, agora, ainda está a trabalhar. Não sei para quê. Não sei se faria alguma diferença se todos deixássemos de dar corda aos nossos relógios.

Imagino o quarto escuro e silencioso, vazio; o relógio a tiquetaquear, monotonamente. 

Imagino o relógio a assinalar as horas que vão passando, com a sua melodia ingénua e melancólica. E pergunto-me: o que lhe diria se soubesse que a morte rondava? Não estava especialmente doente, nada indiciava que a morte pudesse estar tão próxima; mas se tivessem existido sinais, se me passasse pela cabeça que dois dias mais tarde estaria morta, que lhe diria? O que se diz a uma pessoa que vai morrer?

O padre diz: a família deve estar agradecida porque esta nossa irmã partiu em paz.

Não compreendo isto. Não consigo estar agradecido. Porque haveria de estar agradecido?

Desligo, não quero ouvir mais. Tento recordar a última vez que me sentei num destes bancos; não consigo, tenho a memória vazia; reparo que a pintura das paredes é nova; ou talvez não, talvez esteja enganado. O cheiro é o mesmo da infância. Penso: passaram tantos anos; mas o tempo não passou, realmente. Depois, penso isto: a próxima vez que entrar nesta igreja será porque mais alguém morreu. E não consigo suportar o pensamento, não consigo forçar-me ao jogo mórbido de adivinhar quem.

Regresso ao padre, em busca de distracção. Vai alinhavando insignificâncias, improvisando banalidades generosas mas inconsequentes. Surpreende-me que as pessoas se sintam confortadas por esta série de lugares-comuns, de generalidades aparentemente bem intencionadas mas, na verdade, cruelmente restritivas e condicionantes. Penso: belo palavreado, bela encenação, bela distracção. Olho em redor: o padre balbucia justificações, os ouvintes escutam; porque é essa a sua função, o desígnio que o seu deus lhes destinou: escutar e aceitar. 

Todos escutam. E aceitam.

Deu-me uma nota de cinquenta euros. Fiz-me difícil mas aceitei. É a prenda de natal, disse ela. É a prenda de despedida, penso eu. Agora.

Não sei que fazer a esta nota.

Há homens que choram. Homens de aldeia, rijos e firmes, orgulhosos, homens sofredores, homens pacientes e lutadores, homens cansados e tristes. Entram resistentes e formais, cerimoniosos; saem a chorar.

Choram silenciosamente, com embaraço mas sem vergonha: é assim que choram estes homens. E pergunto-me: como seria o meu choro, se conseguisse chorar?

Algures a meio da adolescência iniciei o percurso que me conduziu a um ateísmo que, de momento, me parece indefectível. Ela percebeu o meu afastamento e temeu a minha salvação; sei que fez promessas. E também mandou rezar missas; por mim, para mim. E eu, do cimo da minha arrogância, sorri.

Agora, apetece-me pegar nos cinquenta euros e mandar rezar meia dúzia de missas. Cinquenta euros de missas: por ela, para ela. 

Porque amar também é isso: fazer o que se sabe que o outro desejaria, por mais insignificante ou até burlesco que nos pareça. Desistir daquilo em que acreditamos ou prescindir daquilo que somos, mesmo que momentaneamente: e oferecer ao outro um sorriso, ou uma possibilidade de sorriso. Esquecermo-nos: e saborear o sorriso do outro.

Caminhamos pelas ruas tranquilas da minha infância. 

O caixão avança devagarinho, atrás a multidão geme silenciosamente. Um silêncio feito de murmúrios e rumores, de chilreares de pássaros invisíveis e da cantoria fantasmagórica dos sinos, de arrastares de pés e estalos de bengalas. Há, também, lágrimas que se ouvem. Há tristezas que pairam, que convidam à desistência, à rendição; ou talvez sejam apenas nuvens a passar, apressadas e opressivas.

Algures, um chiar que se intromete na banda sonora da morte: o guincho dos meus ténis, sempre que o meu pé esquerdo pisa a estrada. Irrito-me. Penso: uns ténis comprados na feira custariam um décimo do preço e talvez não chiassem, talvez fossem igualmente confortáveis. Penso nisto, nos meus ténis de marca, porque é uma maneira de não pensar em mais nada. Atrás de mim caminham os velhos lavradores que eram amigos da minha avó; caminham cabisbaixos, olhares firmes na estrada, perguntando-se quando deixarão de pisar chão firme; talvez algum deles olhe os meus ténis, talvez algum deles repare nas letras orgulhosas, na marca, talvez algum deles consiga ler essas letras; e não deixará de se interrogar. Diesel? Agora também há sapatilhas diesel? E funcionarão com gasóleo agrícola?

Sorrio. E não tento esconder ou disfarçar o sorriso.

O caixão avança, empoleirado numa carrinha rodeada de flores. E eu atrás, sorrindo. Agora, que ela já não o pode fazer, sorrio eu; por ela, para ela.

Nas ruas tranquilas da minha infância, onde ficou o meu passado.

Não sei para que estou a escrever tudo isto. A minha avó não sabia ler.

 

 

AVÓS: fale-nos dos seus!    

26 de Julho celebra avós do país e do mundo Mas, para nós, dia dos avós, é quando um neto (a) quiser!

Desde 2003 que, em Portugal, foi instituído, através do projeto de resolução nº 142/IX, o Dia Nacional dos Avós que, aos poucos, tem servido de inspiração a muitas iniciativas de norte a sul do país. Todas elas visam o mesmo: reconhecer o papel fundamental que os avós têm no seio familiar e na sociedade. Diz assim o documento aprovado pela Assembleia da República, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição da República Portuguesa:

  1. O artigo 67.º, n.º 1, da Constituição da República Portuguesa define a família como elemento fundamental da nossa sociedade.
  2. Ora, os avós constituem ainda, em Portugal, um pilar importante da família enquanto elementos transmissores de valores sociais e também de valores fraternos da família que importa fortalecer.
  3. Acresce que, num país onde ainda escasseiam as estruturas de apoio familiar, concentradas sobretudo nos meios urbanos e onde os pais têm cada vez mais necessidade de trabalhar fora de casa para auferir um rendimento familiar capaz de suprir as necessidades básicas da vida atual, os avós desempenham muitas vezes um papel primordial na educação dos seus netos, substituindo os pais ausentes do convívio familiar a maior parte do dia.
  4. Por outro lado, a instituição do Dia Nacional dos Avós ajudará a quebrar a solidão de muitos avôs e avós, ao menos um dia por ano.
  5. Cientes da importância destes membros mais idosos da família e da seu papel no seio do agregado familiar pelo menos desde 1996 que várias entidades vêm manifestando interesse pela institucionalização deste dia, nomeadamente junto da Assembleia da República.
  6. Refira-se, a título de exemplo, que em vários países com grandes comunidades de emigrantes portugueses este dia é já celebrado, sendo que em todos os casos a comemoração é realizada a 26 de Julho, por ser este o dia de Santa Ana e de São Joaquim, avós de Jesus.
  7. Em suma, no amplo conjunto de dias comemorativos de vários acontecimentos e de personagens importantes, a criação deste dia será uma iniciativa que chamará certamente a atenção para o papel dos avós, quer ao nível da família, como agentes de equilíbrio de relações afetivas, bem como de trocas de saberes e experiências intra e inter-familiares, quer ao nível da sociedade, como grupo etário fundamental à transmissão de valores e culturas que permitem a sua continuidade.

Com vista a celebrar os avós e a sua importância na vida de cada um, a FOCUSSOCIAL convida todas as pessoas, de todas as gerações a escreverem um texto sobre os respetivos avós. Não importa se tem 8 ou 80 anos. O importante é que nos conte uma história (máximo 3 folhas A4, letra times new roman, corpo 12) à volta dos seus avós/avó/avô. E, se possível, com o texto, nos envie uma fotografia. Teremos o maior gosto de o publicar na focussocial on-line. Envie-nos, por favor, texto e fotografia para redacao@focussocial.eu

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