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FOCUSSOCIAL

Jornalismo é compromisso

por Sofia Branco

Fotografias: Sonja Valentina

O jornalismo é, acima de tudo, um compromisso. Com a liberdade e a independência. Com a transparência e a democracia. Com a pluralidade e a diversidade. Com a dignidade humana. Com um mundo melhor.

O jornalismo é, acima de tudo, um compromisso. Com a liberdade e a independência. Com a transparência e a democracia. Com a pluralidade e a diversidade. Com a dignidade humana. Com um mundo melhor.

É por estas razões que o jornalismo deve ser militante. E só por estas. Pelos direitos e liberdades das pessoas. Pela procura da verdade, ou, pelo menos, da versão mais aproximada da verdade.
O jornalismo tem um contrato social, com a sociedade em que se inscreve, mas também com o mundo global. Inserido num contexto concreto – num espaço, num tempo, numa cultura –, o jornalista tem o dever de se interessar por tudo o que se passa no mundo e de não ser indiferente a nada.

A disponibilidade – para o outro, para todos os outros – é essencial para retratar o mundo na sua complexidade.
Num momento em que a informação se democratizou – não só o seu acesso, mas também a sua produção –, o jornalismo não pode ceder ao facilitismo que pulula nas redes sociais, onde tudo e o seu contrário se podem dizer com um intervalo de apenas alguns minutos.
Os jornalistas são seres humanos e, portanto, como todos, têm cometido erros. A maior prova é que, hoje, já não gozam da aura de credibilidade do passado.
Ora, num mundo onde cada cidadão acha mais e mais que pode ser um jornalista, chegou a hora de recuperar a credibilidade perdida.

O jornalismo é uma profissão, uma missão até, que exige capacitação, competências e formação específicas e que obedece a um código de princípios éticos e deontológicos que compromete todos os que a exercem, independentemente de idades, estudos, plataformas de trabalho ou vínculos laborais.

Verificação de factos, confronto de dados e fontes, relato rigoroso e isento, observação direta, pluralidade de olhares e pontos de vista e denúncia de abusos, sem medos nem favores, são as garantias de um jornalismo ao serviço da cidadania, da democracia, da justiça social e dos direitos humanos.

Não podendo adivinhar que jornalismo existirá amanhã – com que suportes, que meios, que recursos, que públicos –, certo é que os princípios éticos, deontológicos e de humanidade que são os seus pilares fundamentais têm resistido ao longo dos tempos.

Certo é também que a informação continuará a ser essencial em democracia. Num momento em que tanto se discute o valor das coisas, é este o valor da informação: não garante comida na mesa nem lucros milionários, mas garante uma opinião livre e fundamentada.
Que desenvolvimento pretendemos e qual a responsabilidade do jornalismo para o alcançar? Há ou deve haver um jornalismo para o desenvolvimento?

Na relação com o desenvolvimento humano, o jornalismo tem de se preocupar tanto com o que está na porta ao lado como do outro lado do mundo.
Os jornalistas são seres humanos especiais, não porque tenham direitos especiais, mas porque têm deveres especiais. Porque a informação que prestam não é um serviço como outro qualquer.
O jornalismo tem a função de informar, mas também de formar. E a reflexão sobre os efeitos de cada política anunciada, assumindo uma visão a longo prazo, é um dos maiores contributos que o jornalismo pode dar a cada cidadão.

É sua função escrutinar os compromissos assumidos pelos vários poderes, vigiando se são cumpridos ou se se transformam em promessas vãs.
Comprometendo-se em refletir sobre a realidade da forma mais plural e diversa possível, o jornalista deve ser um porta-vozes – de várias vozes, de várias sensibilidades, de vários pontos de vista, de várias preocupações.

O jornalista tem responsabilidade na escolha de quem ouve – e no esforço para diversificar as vozes a quem dá voz. Porém, a prática atual revela um universo de soundbites cada vez mais afunilado por um punhado de gente ouvida sobre tudo e mais alguma coisa, num cenário de mimetismo, homogeneização e monotonia.
Por outro lado, a dimensão política e económica da realidade tem-se sobreposto à análise da dimensão social – a que apenas se recorre quando há vítimas ou heróis. E quanto à mais (in)comum das pessoas, onde está a sua voz?

Para além da disponibilidade para se deixar interpelar, uma aproximação ao outro implica calçar os seus sapatos, deixar-se entrar noutra realidade e imbuir de outro contexto.
Num mundo em mudança acelerada e crescente precariedade, o jornalista tem a responsabilidade individual de reclamar pelo tempo, essa condição necessária para observar para além da superfície e mergulhar na substância.
O rumo que o jornalismo atual tem seguido é cada vez menos o do tempo – e a informação veiculada não sobrevive para além da espuma de um tweet ou de um like nas redes sociais.

Mas não é só individual a responsabilidade pelo estado a que chegámos, também é coletiva, dos jornalistas como classe – que tem estado mais virada para o seu próprio umbigo do que unida na preocupação com a dignidade das pessoas que habitam o mesmo mundo –, mas também das empresas que escolheram fazer jornalismo e, assim, prestar um serviço público.
Ora, da minha experiência como jornalista, foram raros os casos em que os meus superiores hierárquicos assumiram publicamente uma preocupação concreta com os direitos humanos ou o desenvolvimento, vertendo-a depois por toda a cadeia hierárquica.
Tal não quer dizer que as direções de informação não se preocupem com as violações da dignidade humana aqui ou ali, mas estão ainda longe de promover a existência de um jornalismo conscientemente comprometido com a defesa dos direitos e liberdades das pessoas.

A comunicação social é um espelho do resto da sociedade e, portanto, é afetada pelos mesmos mecanismos de bloqueio, sendo, provavelmente, uma das instituições mais resistentes à mudança.
A ideia de que o jornalismo deve abarcar o todo social e representar o maior número de pessoas contribui para a preservação do statu quo.

Tanto a direções como a jornalistas falta formação em cidadania.

Aliás, o atual modelo de ensino universitário para as áreas da comunicação deixa muito a desejar, tendo vindo a perder qualidades.
Quando tirei o curso, em Coimbra, o currículo combinava os saberes de professores catedráticos com a experiência de profissionais qualificados, a academia com a práxis. Hoje, os últimos estão afastados das universidades, a braços com mais e mais doutorandos a quem têm de dar que fazer, ainda que isso seja lecionar jornalismo, independentemente de alguma vez terem posto os pés numa redação.

Para além disso, verifica-se uma total ausência dos currículos universitários de uma formação para a cidadania, deixada à sorte dos interesses individuais, da educação familiar e do encontro produtivo com certos professores.
Isto, aliado ao facto de a memória deixar de ser cultivada entre mais velhos e mais novos, resulta numa geração de jornalistas completamente ignorantes do ponto de vista histórico-político.
Mas a responsabilidade não é só do jornalista, seja ela individual ou coletiva. Cada cidadão e a sociedade no seu todo têm o dever de dizer que jornalismo pretendem.

A sociedade não pode continuar a culpar o jornalismo por tudo o que é mau e a assobiar para o lado, sem assumir a sua responsabilidade pelo jornalismo que tem.

O escrutínio público do jornalismo – das suas opções e práticas, dos interesses e poderes que envolve – é essencial, num mesmo quadro de transparência e prestação de contas que se exige a outras instituições da sociedade.
Para tal, falta igualmente formação para a cidadania – desta vez para cada cidadão, sobre o seu direito a ser bem informado e o seu dever se exigir uma boa informação.


*** Este artigo de opinião foi escrito a propósito da tertúlia “O Desenvolvimento e os Media”, organizada pela Plataforma Portuguesa das ONGD, a 24 de outubro de 2012, no Centro de Informação Urbana de Lisboa, com Adelino Gomes como moderador e Artur Cassiano, Paula Borges e Fátima Proença como companheiros de mesa.

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