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FOCUSSOCIAL

Escrita feminina em Portugal: da invisibilidade ao protagonismo – Parte I

Cláudia de Sousa Dias

Socióloga e Mestre Ciências da Linguagem (Linguística Comparada)

1.Quem olhar atentamente o panorama literário português a partir das principais obras de história da literatura Portuguesa publicadas nos últimos cem anos ficará com a impressão de que só a partir das últimas quatro décadas é que se começou a produzir literatura escrita por mulheres. Se é um facto que a pós da Revolução de Abril 1974 as mulheres escritoras começaram a ocupar um espaço de visibilidade junto publico leitor, seja nas montras das livrarias, seja na Imprensa, sobretudo escrita, estendendo-se progressivamente à publicação das suas obras e abrangendo os mais variados géneros – ficção, poesia, crónicas e narrativas, teatro, diários, autobiografias, cartas – o facto é que elas escreviam desde sempre. Isto é sempre que lhe era permitido o acesso à educação, à cultura e à escrita.

Se efectuarmos uma pesquisa exaustiva nos arquivos da Imprensa e na Biblioteca Nacional, recuando até à Monarquia (sobretudo a partir dos sécs XVIII e XIX) verificamos que a realidade é um pouco diferente do que vulgarmente se pensa: a escrita feminina surge-nos, então, como a matéria escura do universo literário, não detectável através de um vulgar telescópio doméstico.

2. Numa publicação de um conjunto de ensaios sobre literatura memorialista escrita por mulheres, lançada em 28 de Abril último no King's College London, com organização de Maria José Blanco (KCL – Spanish, Portuguese and Latin American Studies) e Claire Williams (Oxford University – Modern and Medieval Languages of St. Peter's College, Sub-Faculty of Portuguese) é realçada, logo na introdução, a particularidade de a escrita feminina em Portugal sempre se ter defrontado até finais do século XIX dois grandes obstáculos: a (in)visibilidade e o descrédito por parte das opiniões críticas dominantes, que as remetiam quase sempre para o espaço doméstico ou conventual e as impediam de serem colocadas em pé de igualdade face ao trabalho intelectual produzido pelos seus pares masculinos.

3. Nas palavras das autoras (1), foram a iliteracia e o acesso à educação das mulheres que actuaram, durante muito tempo, como os principais obstáculos que lhes restringiam a escrita ou o acesso a conteúdos escritos. Durante a idade Média, passando pelo Renascimento e até à Idade Moderna, a maior parte das mulheres às quais era permitido o acesso à cultura e o exercício de actividade intelectual, eram oriundas da nobreza encontrando-se, muitas delas, recolhidas em conventos, como a Marquesa de Alorna (a qual a escritora e poetisa Maria Teresa Horta resgatou do esquecimento com a publicação do romance As Luzes de Leonor pelo qual recebeu o Prémio D. Dinis) e Antónia Margarida de Castelo Branco. De acordo com Clara Crabbé Rocha (Blanco&Williams, 2017:62-63),ambas foram retidas em instituições religiosas, contra a sua própria vontade, durante uma parte substancial das suas vidas, ao longo das quais dedicaram o seu tempo à escrita e à produção de uma literatura de pendor fortemente memorialista. Da sua obra destacam-se as respectivas autobiografias onde se salienta uma escrita catártica (2) e as respectivas experiências de desenvolvimento pessoal. Estas seguiram, contudo, caminhos opostos: a via introspectiva, no caso de A. M. de Castelo Branco; e a via de desenvolvimento interpessoal e dialéctico, na escrita epistolar de D. Leonor Marquesa de Alorna, um verdadeiro espírito do Iluminismo, em contacto com os mais ilustres intelectuais europeus do século XVIII.

4. Ao longo do século XIX, surge uma nova classe social com poder económico a qual começa a juntar algum peso politico, e onde as mulheres começam a ganhar uma importância relativa no mundo das letras, nos países mais industrializados da Europa, embora, ainda assim, fora da esfera pública: a alta Burguesia, já com a Revolução Industrial (de segunda vaga) literal e figurativamente a todo o vapor. A imagem da “mulher cultivada” emerge então no seio de uma classe que iniciava, também na mesma época, a conquista o prestigio social. E, esta imagem feminina, chega mesmo a figurar representada em várias obras literárias escritas por homens como é o caso da protagonista do romance Madame Bovary de Gustave Flaubert. No entanto, a escrita feminina deste período, sobretudo na Península Ibérica, encontra-se ainda bastante mais limitada e restringida praticamente a assuntos considerados do âmbito “feminino” como a educação, a culinária, a saúde familiar, só para dar alguns exemplos. Fora disso é, não raro, rotulada pelos pares da época de “sentimental” e, por essa mesma razão, limitada à esfera das relações pessoais e excluída do cânone (Blanco&Williams, 2017:2) (3)
Esta atitude por parte do meio intelectual dominante masculino português em relação à literatura então escrita por mulheres tinha ainda um suporte ideológico firmemente apoiado pelo paradigma científico do Positivismo, que irradiava sobretudo a partir de intelectuais franceses como Proudhon e Comte, prolongando-se pela época de transição do século XIX para o século XX, conforme demonstrado por Edfeldt na sua obra ( 2006: 62-63). (4)

5. Um exemplo concreto daquilo que acabámos de afirmar é a crítica de teor negativo da autoria de Oliveira Martins, citada por Edfeldt (2006: 64-65), em relação a um livro de ensaios com o título aparentemente “inofensivo” de Cartas a Luísa pela autora Maria Amália Vaz de Carvalho na qual o crítico censura a escritora pela ousadia de, tratando-se de uma mulher, tomar a palavra para se dirigir publicamente a uma audiência. No entender de Edfeldt e, à luz do paradigma positivista, a escritora, tal como a activista dos direitos das mulheres, ao transgredir aos limites da acção restritos à esfera privada arrisca-se (tal como efectivamente aconteceu) a ser ridicularizada na esfera pública, sendo o seu comportamentoclassificado automaticamente de “patológico” ou “doente”, arriscando ainda a que lhe seja atribuído o estigma de “histérica” ou “prostituta” (2006: 64-65). (6)

6. Blanco & Williams (2017:5) também não deixam de fazer notar que, durante o século XIX, a produção literária feminina no universo Luso-Hispânico respeitante às mulheres que escrevem diários, é proveniente, em regra, de “mulheres confinadas”, embora “já não em celas conventuais, mas na vida familiar, inseridas no círculo doméstico” (tradução minha). As duas autoras, na “Introduction” da obra citada (Blanco & Williams, 2017:5-6), utilizando as palavras da ensaísta Carolina Sánchez-Pelancia, realçam o facto de as figuras femininas, representadas na literatura produzida por homens no universo Luso-Hispânico deste período, figurarem como o padrão de uma mulher idealizada, que é esposa e mãe, relegada para a esfera doméstica e surgindo como o “baluarte dos valores espirituais”. Não deixam, contudo, de realçar, de forma algo irónica, que este tipo de representação pode ser olhada de um outro ponto de vista: uma espécie de pintura mural a representar o retrato de um quotidiano onde domina o tédio familiar e as frustrações sexuais e sociais femininas. (7)

7. A propósito ainda do século XIX, a poeta e ensaísta Maria João Cantinho (2016:5), num artigo intitulado “Do Feminino na Literatura Portuguesa” publicado para a Revista Caliban em 30 de Julho de 2016, alude à obra de Helena Vasconcelos, Humilhação e Glória (Quetzal Editores, 2012), para classificar este período como “devastador” para a produção literária feminina, em virtude da concepção Romântica do papel da mulher na sociedade. (8)

8. A investigadora Chatarina Edfeldt (2006:29) após efectuar o estudo exaustivo (monografia) que lhe serviu de base à sua tese de doutoramento apresentada na Universidade de Estocolmo (depois publicada entre nós pela Câmara do Montijo com o título de Uma história na História) dedica-se a explorar a temática da representação da autoria feminina na historiografia da Literatura Portuguesa, examinando as causas do seu apagamento progressivo. A Autora chama a atenção para uma situação peculiar, apoiada numa muito bem arquitectada combinação de factores culturais e ideológicos, que mostra como muitas das autoras que começavam então a ganhar destaque nos finais do século XIX e na transição para o século vinte prolongando-se pelos anos da Primeira República, foram obliteradas da Historiografia da Literatura Portuguesa ou passaram apenas a ser mencionadas de forma muito breve em Dicionários de Literatura Portuguesa.   Mais ainda: à delimitação da esfera de influência feminina anteriormente referida, Edfeldt junta ainda um outro factor, que é o enquadramento da parte da produção literária masculina em correntes ou movimentos literários do seu tempo, enquanto que à autoria feminina é dado um tratamento “à parte”. Acresce-se ainda a inexistência de um fio condutor, a ligar uma geração de escritoras à seguinte, por “não terem uma história sólida própria” (Edfeldt 2006:29); e por último, nas palavras da investigadora, que esta marginalização feminina da historiografia literária se deve não tanto a razões estéticas mas muito mais a razões políticas e de tradição (Edfedt 2006:29-30). Edfeldt consegue ainda provar ter havido um corte temporal no discurso, presente neste tipo de obras, que torna possível verificar que foi dado tratamento diferente à autoria feminina publicada antes e depois de 1950.

9. Na verdade, após terminar a leitura do livro de Edfeldt é impossível não se ficar impressionado com a quantidade de nomes de autoras que vão progressivamente caindo no esquecimento com o passar das décadas. A disparidade da representação feminina e masculina é enorme. Edfeldt (2006: 75-76) fala abertamente de estratégias discursivas a que atribui a designação de “amalgamento e ambivalência” (Edfeldt 2006: 75), referindo-se concretamente a uma obra de Fidelino Figueiredo (1960[1944]), dando como exemplo casos tão díspares como o de Ana de Castro Osório e Branca Gonta Colaço: a primeira, republicana, sufragista e jornalista que, além da literatura de carácter político, escreveu também prosa ficcional; e a segunda, monárquica e poetisa. Contudo, ambas surgem mencionadas no mesmo verbete que actua como um autêntico “rolo compressor” (sic), ao juntar poetisas do século XX e prosadoras dos anos '40, sem sequer haver uma descrição específica das obras produzidas por qualquer uma delas. (9)

Bibliografia:

Blanco, M.J.; Williams, C. (eds.) “Introduction” in Feminine Singular: Women Growing Up through Life-Writing in the Luso-Hispanic World, 2017, Peter Lang, Bern.

Cantinho, M.J. “Do Feminino na Literatura Portuguesa” 2016, 30 de Julho, Revista Caliban.

Edfeldt, Chatarina, Uma história na História: Representações da Autoria Feminina na História da Literatura Portuguesa do século XX, 2006, Câmara Municipal do Montijo.

(1)        «Access to education and literacy are further obvious factors that limited women's expression, meaning that the first documents produced by women [in the Luso-Hispanic world]were written by nuns who originated from noble families. A pattern can be identified whereby women in medieval times where permitted to write religious or theological texts, confessions on account of their spiritual lives, then over the course of the eighteenth and nineteenth centuries, texts linked to philosophy education and health. By the end of the nineteenth century, women were able to work as writers of fiction and, in the twentieth century, journalists. The twenty-first century has seen fears of discovery replaced by innovative blurring of “truth” and fiction, and debate about rights to privacy (Blanco and Williams, 2017:2)

(2)       Rocha, Clara Crabbé, “Two Aristocrats in the Convent: the Autobiographies of Antónia Margarida de Castelo Branco and the Marchioness of Alorna” (translated by Karen Bennett) in Feminine Singular: Women Growing Up through Life-Writing in the Luso-Hispanic World (Blanco&Williams org), 2017, Peter Lang, Bern:
«They describe very different personal experiences and world views, and vary considerably as to their literary quality: the first was penned by a woman with no literary pretensions for whom an unhappy marriage was the central episode of her life, while the second was written in French by a young girl who would go on to become one of the most important figures of eighteenth century Portuguese culture.
(…)
Both illustrate the cathartic and restructuring potential of autobiographical writing, understood not only as an exercise of remembering lived experience, but also as a quest into the fundamental values of existence. (…) The autobiographies of Antónia Margarida Castelo-Branco and the Marchioness of Alorna are, therefore, texts that verbalise trauma and remake identities that have been threatened by hostile circumstances and by isolation (…).

(3)       «Women's writing have often been dismissed as sentimental, limited to the personal and excluded from the canon. (Blanco&Williams, 2017:2)

(4)        «A partir da segunda metade do século XIX, as ideias positivistas – ao substituírem as doutrinas religiosas – com a crescente importância de que se revestiam os discursos científicos, começaram a preocupar-se com a “verdadeira” natureza ma mulher, o seu papel e função na sociedade”.
(…)
Desta maneira, várias disciplinas das Ciências Sociais e Naturais, no seu processo de institucionalização no mundo académico, remeteram para segundo plano, nos seus discursos, o papel da mulher em relação ao do homem – através da lógica da diferença biológica sexual. Por analogia, construiu-se o modelo dicotomizante da esfera pública versus privada, colocando-se as mulheres nesta última.
(…)
Em Portugal, a Geração de 70 e o ambiente literário do final do século XIX eram igualmente influenciados pelas ideias positivistas sobre o papel secundário da mulher e o seu dever de tomar conta dos assuntos da esfera privada. Em consequência disso, acreditava-se na “perversidade” da mulher que aspirava participar numa vida pública.

(5)       «Assim, Martins, ao recensear o livro, interessa-se unicamente pela suposta natureza biológica da mulher, neste caso (por escrever literatura?) patológica. Desta forma, a diferença sexual dava a ideia de que a mulher (na esfera pública) constituía uma anomalia – pois o homem tinha capacidade intelectual e, ela, sentimental – sobre este pressuposto construiu-se toda a lógica da inferioridade intelectual da mulher. Assim, podia fazer-se referência às Ciências Naturais e Sociais quando se representava a mulher como um ser que não tinha sido feito para participar em actividades da esfera pública.
(…) O esquema tradicional, antes referido (2.4.2.), que associa o sexo feminino À natureza, corpo e emoção e o sexo masculino à cultura e ao intelecto, reflecte-se e traduz-se no campo literário como uma negação da criatividade intelectual à mulher escritora.» Edfeldt (2006: 64-65)

(6)      «Más allá de estos argumentos tan ortodoxos en los que las madres, hijas y esposas restauran la paz del hohar ejercitando sus cualidades 'tipicamente femeninas', convenga desentñar la insatisfacción sexual y socialde unas mujeres destinadas a una vida familiar de monotonía y frustraciones».

(7)      «O romantismo, veiculando a ideia da mulher como um ser frágil e instável, caprichoso e melancólico, remeteu as mulheres para um estatuto de “deusas”, de mães intocáveis, o que muito convinha ao universo masculino, enclausurando-as no lar».

(8)      «...num olhar histórico, a marginalização das autoras e os seus textos literários na história literária mantêm-se no discurso através de algumas estratégias retóricas e organizatórias contidas tradicionalmente no discurso dominante (…). A identidade de género da escritora está marcada no discurso historiográfico com tal intensidade que é responsável pela marginalização da sua escrita no mesmo discurso».

(9)     «Aqui encontramos reunida cinco escritoras (…), que representam a autoria feminina dos primeiros quarenta anos do século passado. Agrupam-se nesta narrativa Dona Branca Gonta Colaço, que era monárquica e poetisa, Ana de Castro Osório, que era republicana, feminista e romancista da Primeira República, Florbela Espanca e Virginia Vitorino que eram poetisas dos anos '20 e, por fim, Maria Lamas, feminista e prosadora dos anos '40.

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