loading…

FOCUSSOCIAL

Soluções sociais investíveis

Cláudia Pedra

Managing Partner, Stone Soup Consulting

A humanidade lida há milhares de anos com problemas sociais que não têm uma solução simples e rápida. São redigidas convenções e pactos internacionais, estipuladas decretos e leis protetoras, criados fóruns de debate, estabelecidas metas universais, aprovados programas e estratégias nacionais. Mas os problemas persistem. Continua a haver pobreza, discriminação, desigualdade, violência sistémica... 

Quando se lida com problemas sociais complexos, talvez a melhor realização seja deixar de compartimentar as questões. Não se pode estabelecer uma estratégia de combate à pobreza que não vá à raiz das desigualdades, de acesso à saúde que não lide com a escassez de recursos, de combate à discriminação sem perceber a origem do estereótipo e da discriminação.

Não existem soluções milagrosas, mas existe um trabalho sistémico, rigoroso, holístico que poderá ajudar a diminuir a gravidade dos problemas. Esse trabalho dá origem a projetos e programas, que durante décadas apresentam soluções relevantes e adequadas para criar impacto social positivo. Existem também ideias criativas e novas, soluções que têm simplicidade, apenas na aparência, e que contribuem, em muito, para o bem-estar social. Essas são as soluções sociais inovadoras.

Da transição da filantropia para o investimento social houve um processo de repensar o que são soluções sociais. Tradicionalmente eram desenvolvidas por organizações sociais ou empreendedores (por vezes fundações), com projetos que intervinham para aumentar o bem-estar do seu beneficiário e transformar atitudes e/ou comportamentos de certos grupos ou indivíduos da sociedade.

Nas últimas décadas, a par da ideia de que não só as ONGs/IPSS, empreendedores sociais e fundações poderiam trabalhar questões sociais, introduzindo atores como as empresas, bancos e outros na mistura, ficou claro que por vezes o uso das forças de mercado era a melhor maneira de provocar a transformação social necessária. Surgem nesse âmbito soluções com os negócios sociais.

Apesar dessa realização, o espetro da filantropia estratégia e do investimento social ou de impacto foi dominado durante anos por um número reduzido de fundações que puxava o setor financeiro para investimentos com valor social. Claro que o termo investimento social ou investimento de impacto ainda não tinha sido cunhado, e com dificuldade se percebia a motivação daqueles que investiam em soluções sociais.

Afinal no espetro do financiamento e do investimento, temos diversos atores – uns mais importados com o retorno social, outros mais com o retorno financeiro. Mas todos com foco no impacto social. Pois se aos investidores interessasse apenas o retorno financeiro é garantido que haveria melhores opções do que apoiar um jornal que promove a liberdade de expressão na Argélia.

O que motiva então estes investidores sociais? Qual a origem da sua (vasta) fortuna? Porque saíram dos mercados financeiros para o investimento social? Muitos investidores atuais acumularam fortuna exatamente com os tradicionais investimentos financeiros. Depois de anos, e às vezes décadas, de transações financeiras frias e calculistas, percebem que o seu dinheiro poderia ser usado para promover o bem-estar social. Pode não ser uma realização fácil para todos, mas muitos indicam ter um momento de consciencialização. Momento esse que pode não ser momentâneo, mas maturado. Todavia, existente.

Todos os dias se desenvolve um projeto, negócio, programa ou ação, que ajuda a resolver um problema social complexo. E essas soluções são altamente investíveis. Que o digam os investidores que todos os anos investem milhares de milhões de euros em questões como o combate à violência de género em Moçambique ou à igualdade de oportunidades de pessoas com deficiência ao mercado do trabalho. É garantido que o seu investimento terá retorno social positivo e muitas vezes até financeiro.

Hoje em dia esses investidores agrupam-se em instituições como o European Venture Philanthropy Association (EVPA) ou o  Global Impact Investment Network (GIIN) que não só promovem investimento, como parcerias, projetos conjuntos, identificam soluções inovadores, aprofundam relacionamentos com empreendedores sociais e organizações da economia social. São talvez “tradutores de impacto”, criando sinergias e pontes, afastando as tradicionais incompreensões de quem não fala a mesma linguagem.

O processo de ligação poderá ter algumas dores de crescimento. Empreendedores e organizações aprendem a falar a linguagem do investimento – planos de negócio, retorno de investimento, pitch de soluções, cenários financeiros, provas mensuráveis de impacto social. Os investidores aprendem a perceber os problemas sociais, os obstáculos às ações, a necessidade de apoio não financeiro e capacitação, o que é operar baseado em voluntariado e boa vontade e a importância das redes de contacto que muitos tomam como garantida. A ligação destes dois mundos cria logo por si impacto social positivo, mais que não seja porque alguém compreendeu melhor o próximo, em especial quando o problema nos parece demasiado distante para nos ser relevante.

Mas com a panóplia de projetos e soluções sociais o que faz uma solução investível? Porque um investidor social deverá aplicar dois milhões num projeto em Portugal de promoção à igualdade de género quando esses dois milhões em Moçambique poderiam contribuir para a diminuição da horripilante taxa de gravidezes infantis, à volta dos 48%? O que motiva um investidor a preterir um investimento no Sri Lanka a favor de um na Noruega? Talvez começando por não comparar o incomparável.

A questão da gravidade dos problemas sociais é indiscutível, mas também o é a pertinência e relevância da solução social e o impacto social positivo que esta produz. Poderá haver projetos absolutamente estruturantes para o combate à discriminação desenvolvidos em França ou na Alemanha. Pode haver projetos cujo impacto social é tão elevado que deveriam ser replicados em múltiplos contextos. Soluções tão eficazes que extravasam as barreiras geográficas e culturais.

Não será difícil de perceber que essas são as soluções mais investíveis. Se uma solução atenua um problema social, gera impacto positivo elevado, é escalável e replicável, é financeiramente sustentável, é especialmente interessante para um investidor. Se pensarmos em termos de risco de investimento é mais fácil investir numa solução comprovada do que numa solução de experimentação social. Daí muitos optarem por investir apenas em soluções com três ou mais anos e já tenham sido replicadas ou escaladas.

Mas aí temos de voltar às tipologias e perfis dos investidores. Muitos deles não são avessos ao risco. Antes pelo contrário. São pessoas que investiram em soluções que todos achavam que falhariam, pessoas que apostaram milhões em ideias revolucionárias como a World Wide Web, pessoas visionárias que apostaram em potencial em vez de realização. Ou seja, existem muitos tipos de investidores e importa a cada empreendedor ou organização perceber qual o que poderá ser o melhor para o seu projeto ou programa.

Primeiro esqueçam a mentalidade do financiamento. Não há investimentos a fundo perdido. Isso não é um investimento. O investidor vai pedir retorno financeiro e vai pedir retorno social. Quando exigirá esse retorno é, mais uma vez, variável. Há investidores que esperarão 15 ou 20 anos, outros que exigirão o retorno aquando do breakeven (ponto de equilíbrio nos negócios em que não há perda nem ganho, nem lucro, nem prejuízo). Logicamente a solução terá de ser sustentável financeiramente. Claro que nem todos os projetos sociais o serão. Não há qualquer problema nisso. Só não são investíveis.

E porque é que os investidores preferem muitas vezes investir em soluções inovadoras do que ações programáticas aplicadas há décadas? Porque essas ações são limitadas, muitas vezes estagnadas em termos de impacto e as inovações farão com a solução impacte mais pessoas, de maneira mais eficaz e eficiente. E há algo de excitante em investir na inovação.

As tendências de investimento também não são negligenciáveis. O “blended finance” é sem dúvida uma delas, mobilizando investimento financeiro tradicional em conjunto com fundos filantrópicos para maximizar o impacto social positivo. Ou o que se chama “gender lens investment”, investimento focalizado em questões de igualdade de género, combate à desigualdade de oportunidades, à violência de género e destinado a capacitar e a empoderar as mulheres, especialmente em contextos onde são mais discriminadas.

Também tendências de pensar nos impactos sociais, económicos e ambientais como um todo, melhorando a vida das comunidades e simultaneamente a do planeta, investindo em questões como o reflorestamento ou as energias renováveis. Todos os meses se encontram novos fundos de investimento direcionados para áreas estratégias de bem-estar societal, abandonando a abordagem reducionista que contrapunha o foro social ao ambiental, como se fossem antagónicos.  

A origem do investimento social também é múltipla. Desde as grandes fundações, às empresas, das famílias abonadas às organizações sociais, passando pelas empresas sociais, governos nacionais/ locais e intermediários, muitos contribuem de maneira qualitativa e quantitativa para o setor. Grandes fundos de investimento são criados com mistos de dinheiro estatal, privado e até particular. O bem-estar social não tem de vir apenas do setor da economia social.

Mas voltemos à motivação dos investidores. Afinal será que estes múltiplos investidores, num setor que gera investimentos na ordem dos milhares de milhões e que tem retorno financeiro elevado (não só social), ainda são motivados pelo impacto social? Será que estão a surgir novos atores que procuram o investimento social apenas por ser lucrativo? Gostamos de pensar que não. Afinal continua a ser duvidoso que o jornal da Argélia seja mais interessante financeiramente do que investir no New York Times ou The Sun.

Relegando para segundo plano alarmismos e teorias da conspiração, que sempre duvidam de todos e de todas as intenções, pensemos no bem criado por estes investimentos. Existem milhões de pessoas que beneficiam de soluções que de outro lado não teriam. Pessoas que têm acesso a operações e procedimentos médicos, pessoas que encontram um emprego estável e bem pago apesar de serem esquizofrénicos, autistas que são valorizados com o mais exemplares dos empregados, mulheres cegas que ajudam a descobrir cancro da mama quando muitos médicos não o detetariam. Há investidores que perceberam que investir nessas soluções permitiria a melhoria da qualidade de vida de muitos milhões de excluídos e que assim o mundo seria um pouco menos discriminador e mais igualitário.

Talvez uma das mais interessantes realizações seja mesmo verificar que um negócio social não tem de ser menos rentável do que um negócio tradicional. Que um negócio que apoie pessoas desfavorecidas e contribua para a resolução de problemas sociais, ambientais e/ou económicos não tem de ser apenas bem-intencionado ou uma boa ideia. Existem negócios sociais que competem no mundo dos grandes negócios internacionais, mostrando que uma boa gestão financeira pode ser igualada por uma boa gestão de impacto.

Sistematizando o que torna uma solução social investível temos que necessariamente falar de medição e gestão de impacto. Importa medir o impacto social criado, tomar decisões estratégicas com base no impacto mensurado e gerir o impacto, criando estratégias de potenciação de impacto social positivo. A par dessa gestão de impacto uma sólida gestão financeira, tendo a coragem para esquecer egos, e deixar a gestão a quem for competente para fazê-lo.

Falando com investidores sociais talvez uma das aprendizagens mais interessantes seja a que decorre dos falhanços. Muitos investidores sociais analisam impacto social (potencial ou realizado), projeções e resultados financeiros e negligenciam componentes humanas. Afinal a pessoa que concebe o projeto ou o negócio social pode não ser a melhor pessoa para geri-lo. É importante que haja equipas multidisciplinares, que percebam a fundo do problema social, mas também da gestão de um negócio ou projeto sustentável.

Com as condições certas, o investimento social poderá ser um balão de oxigénio, que insufla a solução social para um nível de impacto elevado e sustentável. Não acabando com a pobreza, não acabando com a discriminação, mas minando-as, uma solução de cada vez.

Enviar por email