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FOCUSSOCIAL

Breve incursão sobre um mundo melhor e o envelhecimento

Constança Paúl

ICBAS-UPORTO

No livro recente de Hans Rosling (2018) intitulado “Fiabilidade (Factfulness) Dez razões porque estamos enganados sobre o mundo e porque as coisas estão melhor do que o que pensamos”, procuramos as razões para olhar com otimismo o mundo que nos rodeia. A cruzada do autor foi obrigar as pessoas a refletir sobre os factos e as estatísticas construídas à volta deles, de forma critica, evitando o que ele denomina o “instinto da negatividade”, definido como a tendência de estarmos mais atentos ao mau do que ao bom.

Desde que me dedico a estudar o envelhecimento e o ser velho que me incomodam a visões saudosistas de que dantes é que o velhos eram estimados e valorizados e que agora é uma ignomínia em que as famílias os despejam nas urgências dos hospitais e os despacham para os lares, para nunca mais querer saber deles. Senti muitos olhares de reprovação quando ensaiava dizer que não, que apesar das situações péssimas e desumanas com que deparamos todos os dias, nunca a vida dos mais velhos foi tão boa, para tantos, como atualmente. As imagens do mau presente em relação a um bom passado, alimentam depois visões imobilistas e irrealistas sobre o ser velho hoje, como por exemplo: a imagem de que quando morre um velho arde uma biblioteca.... a que eu contraponho: está tudo na “nuvem”! O que perdemos é a atualização dos nossos afectos, do nosso passado, o caminho que nos trouxe até cá e assegura o nosso futuro. Os mais velhos não são mais o repositório do saber porque o saber atual, a aumentar exponencialmente e a evoluir a uma velocidade supersónica, não tem mais repositórios humanos e, ou percebemos o papel dos mais velhos na nossa humanidade, nas nossas emoções, no devir da vida humana, ou (n)os condenamos ao folclore do obsoleto.

Mas voltemos ao negativismo. Detive-me a pensar o que poderia explicar esse fenómeno. Quando em Psicologia se estudam as emoções, aprendemos que os estímulos que desencadeiam emoções negativas são os mais relevantes porque se relacionam com a sobrevivência. Ou seja, é importante que estejamos alerta para os perigos que nos rodeiam, para reagir, para lutar ou para fugir, senão perecemos.

Quando recordamos os “bons velhos tempos”, quantas vezes bem mais maus que bons, fazemo-lo com um olhar enviesado de quem não quer revisitar o sofrimento. Revi as histórias de vida de portugueses idosos institucionalizados que entrevistei há 30 anos atrás e os relatos da pobreza, da fome, do frio, dos pés descalços a procurarem o calor da urina das ovelhas, do ficar enrolado numa manta enquanto a única roupa do corpo, gasta e ponteada, secava de uma lavagem esporádica, não se repetem mais. Mas continua a haver 18% de velhos pobres em Portugal (Eurostat, 2016), ainda que de uma pobreza melhor, o que parece uma afirmação obscena e nos afasta, por vezes, de perceber a realidade e de pensar que aos bens de primeira necessidade são agora esperados também medicamentos ou recreação e a visão estritamente assistencialista limita a dignidade da vida humana. As atitudes face às pessoas mais velhas devem agora ser distintas, como distintas são as suas necessidade no mundo atual.

Tendemos a sobrevalorizar as coisas más e simultaneamente a fazer leituras dicotómicas, a preto e branco, do mundo, usando o que o Rosling designa como o “instinto da lacuna”. Os fenómenos são interpretados com base nas duas categorias extremas, o que conduz a pensar: nós versus os outros; os ricos versus os pobres; os novos versus os velhos. Na lógica da “lacuna” não parece haver nada no meio quando de facto a grande maioria está no meio.

Vidas desinteressantes as nossas, no morno de quotidianos banais que os média desdenham, como nós próprios, e que recentemente veste roupagens de brilho nos facebooks deste mundo global e é invisível nos meios de comunicação social, preocupada com os extremos. A juntar à visão dicotómica do mundo, fazemos elaborados cálculos com médias que encobrem a dispersão dos dados e nos impedem de ver a realidade tal como ela é: matizada.

À semelhança da estratégia de Rosling sobre os principais factos acerca da distribuição da saúde e riqueza pelos países, também eu faço com alguma frequência, em contexto de sala de aula ou mesmo de conferência, perguntas aos participantes, como qual é a percentagem de pessoas mais velhas a viver em instituição em Portugal. As percentagens nas respostas variam habitualmente entre os 20 e os 80% sendo quase sempre superiores a 50% das pessoas com 65 e mais anos. Mesmo adultos diferenciados e potencialmente interessados no envelhecimento populacional, caiem no erro de imaginar que temos um milhão de camas em instituições e uma imensa lista de espera.... Os valores atuais, sendo que é impossível conhecer a dimensão do fenómeno dos “lares clandestinos”, serão à volta dos 5% das pessoas mais velhas a residir em instituições em Portugal, para uma cobertura geral de cuidados da ordem dos 12.7% (GEP/MTSS, 2015).

Também entre nós, o negativismo parece grassar e os números avançam com a mesma lógica negativa e perversa como quando se refere o número de pessoas mais velhas a viverem sós em Portugal e se chega a uns espantosos 60%  (INE, Destaque, 2012). Esta percentagem corresponde, na sua imensa maioria (40%), a casais em que ambos os elementos têm mais de 65 anos e felizmente mantêm a sua vida independente. Quer dizer, duas pessoas que sempre viveram ou vivem em casal, completam ambas os 65 anos e passam a viver sós, entenda-se, continuam a viver na companhia um do outro mas entram na malfadada categoria de viver sós porque vivem com outro idoso!!!

De facto, não obstante a permanência de situações extremas de pobreza no mundo, todos os indicadores de desenvolvimento humano melhoraram extraordinariamente desde o século XIX (desde que temos dados numéricos fiáveis para comparação) sejam eles e escravatura, a mortalidade infantil, a morte em combate ou por condenação à pena de morte, os acidentes de avião, a fome, o acesso à água, o direito das mulheres ao voto, o nível de educação, o acesso ao telefone ou à internet, a imunização e até a taxa de criminalidade desceu, num conjunto propositadamente desarrumado de indicadores de melhoria do mundo atual.

Como indicador de desenvolvimento global escolhemos, como não podia deixar de ser, a esperança de vida que resume, em si mesmo, todas as melhorias: rendimento, saúde, condições globais de vida.... e essa, sabe-se que em 2015 era, para o mundo, de 71.4 anos à nascença (UN, 2016) e não parou de crescer, em média 3 meses por ano, desde 1840 (Christensen, et al 2009).

Obviamente que esta evolução positiva do mundo não é sinal de baixar o nível de atenção às coisas negativas que permanecem, não pode ser sinónimo de complacência face ao que está mal, de conformismo com uma evolução que não é linear, que tem avanços mas também retrocessos pontuais. Um mundo cujo progresso demora demasiado em alguns países e que nunca existirá para as pessoas que ficam pelo caminho.

Os dados dos estudo na área do envelhecimento sucedem-se, mostrando associações entre resultados negativos na saúde física e mental e no bem-estar das pessoas, com os baixos rendimentos, o menor nível de educação, o ser mulher e o ter mais idade. Ou seja, as boas notícias são ainda más e não dão tréguas.

Se ter mais anos não é evitável, ser mais velho pode, contudo, ser otimizado de forma a não constituir um fator de sobrecarga significativo na qualidade de vida das pessoas. Ser mulher tem que deixar de ser sinónimo de menor rendimento, menor escolaridade e maior sobrecarga de doença. Quanto à educação, pode ser aumentada, melhorada, com medidas formais mas também através da educação informal, finalmente, a pobreza pode ser significativamente diminuída, evitando que potencie todas as outras condições em círculos viciosos difíceis de quebrar. Ao olhar para as zonas de sobreposição destas condições, não só para a minoria mais afetada, mas também para a tal maioria que habita entre os extremos, devemos equacionar como se pode alterar uma conjugação negativa de fatores e dignificar as vidas das pessoas que são a razão e o destinatário de qualquer produto ou intervenção.

Rosling (2018) dissolve as dicotomias em 4 níveis de rendimento baseados no acesso à água, no transporte, na forma de cozinhar, e no conteúdo de um prato de comida. Portugal está no nível 4 mas em 2014 havia 27.5% de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social (EU, 2017). Os Portugueses, como os outros povos e nações, estão globalmente a evoluir de forma positiva para um mundo melhor. Esta incursão sobre como olhar para o mundo, sem as dicotomias de bem/mal que dividem nós/deles, com usos tantas vezes xenófobos e de complacência discriminatória, deve servir para ver com otimismo as nuances em vez de estereotipar, focando as necessidades dos vários níveis de pobres e menos saudáveis, entendendo o conjunto de variáveis implicadas e otimizando as condições e opções de vida das pessoas.

Referências:

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