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FOCUSSOCIAL

Ensaio sobre Direitos Humanos e Gestão de Pessoas

Anabela Brás Pinto

Psicóloga e formadora

Enquanto Gestora de Pessoas e ativista pelos Direitos Humanos, fui desafiada a desenvolver um ensaio sobre cinco desafios-chave, do meu ponto de vista profissional, que uma pessoa da área de recursos humanos enfrenta relativamente a uma implementação efetiva destes direitos.

Encontro bem mais do que cinco desafios, mas, decidi reler a Declaração Universal dos Direitos Humanos, para que ela me oriente neste artigo e para poder focar o meu trabalho nos 5 desafios solicitados.

Aqui seguem então os key challenges que os recursos humanos das empresas e organizações sociais têm todos os dias nas suas mãos e grande parte começa nos seus e-mails:

 

Primeiro desafio: Pessoa, pessoa, pessoa

Começa no tratamento que se dá à pessoa que estamos a recrutar e selecionar para a posição que temos em destaque. Começa de imediato no anúncio de emprego que se afixa nas fontes de emprego: necessidade de ser claro, assertivo, não anónimo, que reflita as necessidades das organizações e que deixe bem claro o perfil que pretendem para os/as potenciais candidatos/as. Dar resposta às candidaturas recebidas, realizar uma shortlist para conhecimento dos candidatos/as, são todos estes aspetos a ter em conta num processo de RH justo e ético. Depois desta fase, venha uma entrevista telefónica ou presencial, os princípios que se aplicam são os mesmos: dever de resposta, de respeito, de consideração por quem enviou os seus dados muito pessoais para um possível futuro melhor. Dever de esclarecer os/as condidatos/as sobre todas as fases do processo de seleção. E por aqui lembro o 1º artigo da DUDH: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade. Acredito que esta fraternidade deve ser levada até ao ambiente de trabalho também.

 

Segundo desafio: Diversidade, diversidade, diversidade

Sabemos que muitas vezes temos orientações estritas sobre o perfil que se procura para aquela oferta. Colocar fora do perfil, pode ser interpretado como falta de profissionalismo e pôr em causa o recrutador. No entanto organizações que respeitam a diversidade procuram-se e existem! Porque mais ou menos tatuagens não fazem um candidato pior e acima de tudo está a liberdade individual que tem que ser respeitada; porque religião pode trazer uma diversidade cultural enorme à empresa; porque as opiniões são livres e devemos aprender a aceitar ou não aceitar, mas sempre respeitar. Porque o Artigo 2.º da DUDH está cá para nos dizer: Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação. Além disso, não será feita nenhuma distinção fundada no estatuto político, jurídico ou internacional do país ou do território da naturalidade da pessoa, seja esse país ou território independente, sob tutela, autónomo ou sujeito a alguma limitação de soberania.

 

Terceiro desafio: Igualdade, Igualdade, Igualdade

O Artigo 7.º diz-nos que: “Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual protecção da lei. Todos têm direito a protecção igual contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.” E o Artigo 23.º diz-nos no seu n.º 2: Todos têm direito, sem discriminação alguma, a salário igual por trabalho igual.

viver a igualdade enquanto profissionais de Recursos Humanos: Igualdade de género, de escolha, igualdade para a liberdade de cada pessoa que participa num processo de recrutamento ou é integrada numa empresa. Igualdade para além de hierarquias, igualdade para além do físico, da cor, da religião, da cultura, da idade. Igualdade que vai para além de uma cadeira de rodas a limitações de visão, audição ou outros; Igualdade de ser, de estar e de ser reconhecido/a unicamente pelas competências que tem e atitudes que demonstra face à empresa e aos colegas.

 

Quarto desafio: Liberdade, Liberdade, Liberdade

Ao nível do trabalho, já falámos antes neste artigo de liberdade, já que se aplica a qualquer campo que possamos falar aqui, mas, a liberdade é também a de associação e voltando ao Artigo 23.º diz-nos no seu n.º 4: Toda a pessoa tem o direito de fundar com outras pessoas sindicatos e de se filiar em sindicatos para a defesa dos seus interesses. Este princípio é particularmente importante na liberdade de trabalho de cada pessoa e para funções particularmente expostas a maiores riscos, esta necessidade de liberdade de associação e sindicalização torna-se importante. É também importante a nível de relações laborais com as empresas, se bem que muitas entidades não interpretam isto desta forma livre, as sim como correntes que as aprisionam. Os próprios sindicatos podem ser e são formas de organização que servem como um novo circulo social do trabalhador e dão a este ferramentas (inclusive através da formação) para que o seu desempenho possa melhorar. Representa o trabalhador, age, e tem uma função interventiva na vida do trabalhador.

 

Quinto desafio: Formação, Formação, Formação

Criar um plano de carreira, com formação contínua associada, faz o candidato/a sentir-se parte da organização, integrado. A formação contínua é e será sempre a base de uma empresa que quer crescer e dimensionar-se com sustentabilidade. A DUDH fala em educação. Formação é uma forma de educação, é uma educação não formal. A DUDH diz-nos no seu Artigo 26.º nº 2: A educação deve visar à plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos do homem e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou religiosos, bem como o desenvolvimento das actividades das Nações Unidas para a manutenção da paz.

Falando em formação, falo não só em competências técnicas para o exercício de uma função, mas também de soft skills, que permitem a uma pessoa desenvolver-se em termos pessoais e que consequentemente terá um impacto na organização. Exemplos de soft skills são a responsabilidade, a autoestima, socialização, capacidade de gestão pessoal e a integridade. Enquanto as hard skills irão fazer de uma pessoa um bom dentista, advogado, profissional de RH entre outros, a soft skills farão de uma pessoa um excelente team player, um excelente colega, uma pessoa de confiança que motiva no trabalho. Assim, um balanço de formação entre as duas (hard and soft skills) é o ideal para qualquer organização.

 

O desafio que lhe coloco agora é tornar-se um ativista dos Direitos Humanos dentro da sua própria organização e com isso, tornar a sua organização mais humana.

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